UMA ESPIRITUALIDADE PÓS-MODERNA
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 23 de out. de 2016
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Rev. Côn. Jorge Aquino
Antes de mais nada, é importante definir estas duas palavras que aparecem no título dessa breve reflexão, mas que são tão desconhecidas da maioria das pessoas. Tradicionalmente se entende por espiritualidade “aquela qualidade que revela intensa atividade religiosa ou mística”. Hélio Penna Guimarães define espiritualidade como uma “propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, a procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio” (em “O impacto da espiritualidade na saúde física”, In https://pt.wikipedia.org/wiki/Espiritualidade, acessada em 23 de outubro de 2016). Começamos afirmando que enquanto “espírito” é um substantivo concreto, a “espiritualidade” diz respeito à algo abstrato. Quem não tem “espírito” não tem nem paixão, nem ideal nem vida. Se todo humano possui espírito, ele está animado (do latim: anima, ou alma) ainda que sua espiritualidade não esteja ligada à prática de uma religião específica. Aliás, não é incomum encontrar pessoas não-religiosas que possuem uma espiritualidade muito profunda e não se deixaram envolver por essa “dimensão perdida”, como escreve Paul Tillich, que se caracteriza por abandonar os sentidos e os significados. Além disso, infelizmente, “é uma imagem clássica da espiritualidade a de ser cultivadora de uma modalidade de estar diante do divino em formas mais solitárias do que solidárias, mas como isolados do que como consociados” (SECONDI & GOFFI, 1994, p 11).
Dando um passo adiante das definições mais comuns aos manuais, vemos Solomon dizer que “A espiritualidade abarca o amar, a confiança, a reverência e a sabedoria, bem como os aspectos mais terríveis da vida, a tragédia e a morte” (…) “Mas, em última análise, a espiritualidade deve também ser compreendida em termos de transformação do self. Ela não é apenas uma conclusão, ou uma visão, ou uma filosofia que se possa experimentar como um novo par de calças. O modo como pensamos e nos sentimos tem um impacto sobre o modo como realmente somos” (SOLOMON, 2003, p. 33).
A segunda palavra que precisamos desvelar, pós-modernidade, se refere a uma realidade epocal na qual os valores e propostas, os sonhos e promessas feitas durante o período Moderno, se viram caindo por terra e se esvaindo pelo ralo. O que restou foi uma realidade em que se nega a realidade espiritual, os compromissos e as utopias. A ética é substituída pela estética, o utópico é substituído pelo fruitivo, a busca pela justiça é substituída pela busca pelo que “dá certo”, os “grandes relatos” são tornados obsoletos e Narciso assume o lugar de Prometeu.
Como consequência, já dizia D. Pedro Casaldáliga, vivemos em um mundo light, onde a identidade é líquida, a militância se desmobiliza e onde cedemos espaço para a tentação de renunciar à história (ficamos sem memória), de renunciar à cruz (ficamos sem militância) e de renunciar às utopias (ficamos sem esperança).
Eis as três marcas da espiritualidade pós-moderna. Em primeiro lugar ela é sem memória. Na espiritualidade pós-moderna não há espaço para as chamadas metanarrativas ou os “grandes relatos” da tradição. Nesta perspectiva, uma metanarrativa assume o caráter de uma grande narrativa, uma narrativa de abrangência superior que seria capaz de explicar todo o conhecimento existente ou que seria capaz de apresentar a verdade absoluta sobre o universo. Dessa forma, essa espiritualidade não leva em consideração os aspectos históricos e culturais que formaram a sociedade como ela é hoje.
Em segundo lugar, ela é sem cruz. Quando não se é capaz de assumir sua cruz, conforme dizia Jesus, estamos optando por um caminho onde a militância não tem espaço. Mais do que isso, aquilo que já foi visto como utópico é substituído pelo que se pode fruir ou aproveitar com brevidade. Eis o segredo da Teologia da Prosperidade: ela nos apresenta uma espiritualidade onde se pode fruir da riqueza, do poder e do domínio, ainda que isso nada tenha a ver com a justiça ou com a decência. Os valores da “grande narrativa cristã” são postas de lado e somos convidados a satisfazer nossos desejos e nossos prazeres individuais.
Finalmente, essa espiritualidade é sem esperança. Esta terceira característica inevitavelmente nos levará ao cinismo. Uma espiritualidade que nega a utopia, nega também a esperança. Dessa forma, uma metanarrativa como a “justiça”, deixa de ser um alvo pelo qual se possa lutar e acabamos por preferir abrir mão dessa esperança – de uma sociedade justa -, pela fruição de pequenos prazeres que nos satisfazem de uma forma incompleta, mutilada e imoerfeita. Ainda que a palavra “justiça” continue em uso nos meios de comunicação ou nos discursos políticos, ela tem sido usada de uma forma cínica porque renega a metanarrativa oriunda do Iluminismo, do marxismo, do cristianismo, etc.
Para sermos mais honestos, nesse breve opúsculo, seria mais adequado chamar essa espiritualidade de a-espiritualidade. Isso porque ela nega todos os grandes valores que formaram nossa tradição judaico-cristã. Mais que isso, ela acaba por produzir muito mais uma busca pelo prazer do que uma reflexão pelo sentido da vida. Em razão disso, essa pseudo-espiritualidade difundida nos meios de comunicação e tornada comum e corriqueiro, nos parece mais um arremedo de espiritualidade do que uma espiritualidade propriamente dita.
Referência Bibliográfica.
GUIMARÃES, Hélio Penna. O impacto da espiritualidade na saúde física In https://pt.wikipedia.org/wiki/Espiritualidade, acessada em 23 de outubro de 2016
SECONDI, Bruno & GOFFI, Tullio (Org.) Curso de espiritualidade. São Paulo: Paulinas, 1994
SOLOMON, Robert C. Espiritualidade para céticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003


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