SOBRE FLORES E ESPINHOS
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 12 de jul. de 2016
- 3 min de leitura

Rev. Padre Jorge Aquino
Outro dia assisti um programa na TV onde um homem encontrava com um amigo que não via a algum tempo e percebeu que ele estava usando uma aliança. Surpresou, ele olhou para seu amigo e disse: “é uma aliança de casado?”. Ao que o amigo respondeu: “não, é uma forca”.
Este diálogo revela uma perspectiva que existe e que é muito difundida em nossa sociedade. Na base dessa perspectiva está o preconceito de que o casamento é algo ruim e questionável para quem deseja viver uma vida plena. Um fardo a ser carregado e uma cruz a ser levada até o fim da vida.
Particularmente entendo que estas pessoas ou bem passaram por experiências ruins em sua relação matrimonial, ou bem conviveram com pessoas que passaram por experiências assim. Pessoalmente confesso que tenho outra perspectiva sobre o tema. Como muitos na minha geração, casei bem cedo. Talvez cedo demais. Passei por inúmeras vicissitudes, sofri e fiz sofrer, errei muito e acertei o bastante. Amei e fui amado, mas também me decepcionei e decepcionei meu cônjuge. Mas, em momento algum deixei de acreditar no matrimônio como o plano de Deus para vida de uma pessoa. A Bíblia é muito sábia quando afirma: “Não é bom que o homem esteja só”. A vida a dois é uma das experiências mais extraordinariamente ricas que se pode ter na vida. Mas, como todas as experiências relacionais, elas possuem alegrias e tristezas.
Erra quem pensa que o casamento é um mar de rosas. Até existem rosas. E muitas! Mas elas vêm acompanhadas, inevitavelmente, por espinhos. Certa vez o padre Fábio de Melo escreveu: “A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só, elas não sabem viver sozinhas…Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá de saber que com elas vão inúmeros espinhos. Não se preocupe, a beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos…”.
Aquele jovem que casou com dezessete anos e meio hoje está prestes a completar meio século de vida. E hoje, ainda casado, sei – até porque lido com casais a mais de 25 anos – que em muitas relações existem espinhos e que esses espinhos podem assumir muitas formas: eles podem aparecer no tom da voz, que as vezes revela arrogância ou desdém; nas palavras mal-ditas que ferem; nos gestos que agridem; nas ameaças veladas que ficam pairando no ar e fazendo você imaginar dezenas de bobagens; nas maquinações maquiavélicas e até na infidelidade conjugal. Mas a rosa também traz consigo sua beleza e seu aroma. E na beleza e no aroma da rosa encontramos o amor, o carinho, a gentileza, a cumplicidade, o companheirismo e a alegria de estar ao lado de alguém que estará conosco até o fim.
Muitas pessoas, por medo dos espinhos, procuram atalhos. Evite essa atitude. Com o tempo você aprende que todos os atalhos são falsos e perigosos. Eles mostram apenas meias verdades. Com o tempo você aprende que os atalhos também têm seus próprios espinhos e que as dores que eles trazem são bem maiores. Com o tempo você aprende que fugir dos espinhos o fará se afastar das rosas e do seu aroma e beleza.
Na vida a dois existem, inevitavelmente, rosas e espinhos. Mas, como diz a citação que fizemos acima, “a beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos”. Por isso trilhe com seu cônjuge seu próprio caminho sem se importar para os espinhos nem procurar os atalhos que lhe são oferecidos. Aprenda com os espinhos a amadurecer e a crescer o bastante para desenvolver a paciência e a dominar seu gênio e sua língua. Dessa forma você passará a olhar para os espinhos como oportunidades para poder crescer. No final, ambos estarão bem mais experiente, é verdade, mas também, bem mais sábios, por causa do amor. Afinal, já dizia Clarice Lispector: “Qualquer um pode amar uma rosa; mas é preciso um grande coração para incluir os espinhos”.


Comentários