RELACIONANDO-SE COM AS REDES SOCIAIS
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 23 de mai. de 2017
- 3 min de leitura

Rev. Cônego Jorge Aquino
Não há como negar a absoluta necessidade que temos hoje de conviver com as chamadas “redes sociais”. Qualquer pessoa, em qualquer rincão de nosso planeta, tem hoje, que conviver com essa realidade absolutamente onipresente. É difícil encontrar alguém hoje, que não possua um e-mail, que não esteja no facebook, que não visite o youtube, que não utilize o instagram ou que não se comunique por meio do whatsapp.
O problema é que a utilização desses recursos que, a bem da verdade, otimizam nossa vida, pode trazer sérios problemas para nossa vida diária e, dessa forma, ao invés de serem instrumentos de ajuda acabam por prejudicar as pessoas tanto de uma perspectiva emocional quanto relacional. Para que evitemos essas complicações, acredito que podemos investir em três cuidados essenciais.
Em primeiro lugar, precisamos cuidar para não nos preocuparmos muito com a quantidade de amigos ou seguidores que temos. Já está mais do que comprovada a ação destrutiva das redes sociais sobre os nossos mecanismos de satisfação mental. Isso significa que os níveis de dopamina se elevam à proporção que nos relacionamos mais e melhor com mais pessoas. Ora, como sabemos, a maioria das recompensas aumenta o nível de dopamina no cérebro da mesma forma que as drogas aumentam a atividade neuronal da dopamina. Encontrar algo ou alguém, efetuar uma pesquisa ou uma compra, pode redundar em uma enorme satisfação. Essa satisfação pode se retroalimentar de tal forma que a pessoa acaba por se encontrar aprisionada em um círculo vicioso de prazer que nos enreda tanto quanto as drogas. Ademais, essa espécie de sistema de satisfação trabalha a partir de um dado absolutamente falacioso: o de que o número de amigos que você tem é igual ao de pessoas que estão no seu facebook. Acredite, você não tem tantos amigos assim. Falando francamente, os bons amigos que você tem podem ser reduzidos aos dedos de suas mãos. Portanto, não morra de preocupação com a quantidade de pessoas que você tem em seu facebook. Somente pessoas altamente superficiais ou aprisionadas pelo sistema de retroalimentação e satisfação da rede realmente “precisam” de tanta gente pra ser feliz.
Em segundo lugar, precisamos cuidar para não nos tornamos escravos das “curtidas” ou “compartilhamentos”. É verdade que os seres humanos precisam ser aceitos em um determinado grupo para serem felizes. Afinal somos seres gregários e sociais. No entanto, o mecanismo de retroalimentação e satisfação da rede é tão forte que, quando publicamos algo, temos a absoluta necessidade de ver que o que publicamos foi muito “curtido” ou até mesmo, “compartilhado”. Se ninguém “curtiu” nossa publicação, então fomos desprezados e ninguém nos deu atenção. Acredite, isso é realmente devastador para uma pessoa que necessita da “aprovação” dos outros para ser feliz, ou seja, para aquelas pessoas que não vivem sem serem reconhecidas pelo que fizeram ou pelo que pensa. Há pessoas que chegam até à depressão em circunstâncias como essas. Mas, acredite, nós realmente não precisamos disso para viver ou para sermos felizes.
Finalmente, precisamos cuidar para que não precisemos reagir com celeridade aos estímulos do sistema. Estudos revelam que as pessoas dão aquela “olhadinha” em seu celular, mais de cem vezes por dia, para ver se há alguma mensagem ou e-mail para responder. Essa necessidade de estar sempre “on-line” no fundo revela uma imensa necessidade de retroalimentação em seu mecanismo de satisfação. Ela precisa estar atenta às novas oportunidades que aparecem para comprar ou vender algo; precisam responder com celeridade a quem lhes enviou alguma mensagem; precisam saber o mais rápido possível o que está ocorrendo no mundo. Pessoas assim, acabam se tornando escravas das oportunidades que as novas tecnologias lhes apresentam. O mais triste é que essa escravidão está ocorrendo cada dia mais precocemente. Tudo começa quando vemos que as crianças não conseguem mais largar o celular, presas que estão pelos joguinhos virtuais. Crianças assim acabarão se tornando adultos dependentes da internet ou da rede de satisfação como estivessem dependentes de alguma droga. Pior, se tornarão adultos com uma enorme dificuldade de desenvolver um relacionamento pessoal mais intenso com alguém que não esteja do outro lado de uma tela.
Estou cada vez mais convencido de que só conseguiremos superar essas armadilhas oriundas das novas tecnologias se começarmos a exercitar nossos valores com bastante disciplina. Por isso, além de possuir bons valores, precisamos pô-los em prática na nossa vida cotidiana. Lembremos das palavras da letra escrita por Renato Russo que diz: “disciplina é liberdade”. Somente assim seremos realmente aptos para resistir à tentação que a rede nos impõe.


Comentários