PRESBÍTEROS E SACERDOTES NA IGREJA ANGLICANA
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 16 de mai. de 2017
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Rev. Cônego Jorge Aquino
Na Igreja Anglicana ainda mantemos as três ordens oriundas da igreja primitiva e que são: diácono, presbítero e bispo. No entanto, os presbíteros também têm sido chamados de sacerdotes. Qual a razão do uso desse termo? Seria correto utilizá-los para indicar os presbíteros anglicanos? Pensando em responder a essas questões, faremos as seguintes considerações.
Antes de mais nada, é preciso saber que a palavra “presbítero” é originária do termo grego “presbyteros“, que significa “ancião” ou “mais experiente”. No inglês antigo, esta palavra era pronunciada como preost e, posteriormente, priest. Deve ser digno de nota que ela não é equivalente ao termo latino sacerdos, que origina a palavra “sacerdote”, ou seja, aquele que oferece um sacrifício.
Embora os Anglicanos também utilizem a palavra “sacerdotes”, é preciso compreender que nós não a utilizamos no sentido de sacerdos, e sim como presbyteri. A diferença é fundamental. Primeiramente, dentro de uma perspectiva bíblica e litúrgica, ou seja, tanto o Novo Testamento quanto o Livro de Oração Comum, entendem essa palavra como essencialmente pastoral, e nunca como uma atividade mediadora. Isso significa que o múnus do presbítero é o de pregar, administrar os sacramentos e pastorear o rebanho de Deus. A atividade sacrificial ou mediadora só vai ser associada ao ministério presbiteral com a entrada, na Igreja Cristã, das multidões oriundas do paganismo, com a conversão do Imperador Constantino. É nesse momento que práticas e nomenclaturas pagãs passaram a ser utilizadas pelos cristãos.
Eis o segundo aspecto, o teológico. Muito embora a Igreja Latina tenha absorvido a teologia pagã que associava o exercício presbiteral ao de um sacerdote pagão – que oferecia sacrifícios aos deuses, muitos setores da igreja resistiram a essa postura. Dessa forma, embora a Igreja Romana entenda que a missa é uma “renovação incruenta do sacrifício de Cristo”, no qual Cristo é novamente sacrificado na forma de hóstia (do latim: vítima) nos altares diariamente, pelas mãos dos sacerdotes, os Anglicanos não comungam dessa leitura.
Desta forma, fica claro que entre os Anglicanos – embora ainda seja utilizada a palavra “sacerdote” para designar seus presbíteros, queremos com isso, unicamente, fazer referência ao aspecto pastoral de quem tem a obrigação de pregar a Palavra de Deus e de administrar os Sacramentos – conforme ensina o Novo Testamento e nossa liturgia. A ideia de alguma atividade sacrificial está absolutamente ausente de nossa teologia, bem assim de nossa liturgia e prática pastoral.
Por fim, é importante registrar que este tema precisa ser compreendida, também , a partir da virada linguística (linguistic turn) que ocorreu no início do século XX por pensadores como Ludwig Wittgenstein. Para esse movimento, as palavras são marcadas por três características: a ambiguidade, a vagueza, a porosidade. Isso significa que a linguagem é um terreno mais difícil de percorrer do que imaginávamos. Quando falamos em “ambiguidade”, por exemplo, lembramos que uma mesma palavra comporta sentidos diferentes. É assim com a palavra “pena”, que tanto pode indicar um sentimento, um elemento da plumagem das aves ou uma forma de punição atribuída a um infrator. Quando falamos da “vagueza”, descobrimos que a palavra nem sempre esgota ou não preenche todo o sentido que pretende. Por fim, quando falamos em “porosidade”, lembramos que um vocábulo se permite influenciar, absorve outras leituras, visões e sentidos.
É com o estudo da Linguística de Ferdinand de Saussure que encontraremos outra grande contribuições sobre a língua como sistema semiológico. Partindo da conhecida esquematização da comunicação baseada entre emissor e receptor, Saussure opera uma separação entre os elementos psíquicos, físicos e fisiológicos. Se, por um lado, a linguística estuda o ato individual da fala, por outro ela também se envereda pelo estudo da dimensão psíquica na medida em que se centra no fato social, ou seja, no fato de que todos os indivíduos reproduzem – ainda que aproximadamente – os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos. Ele também vai distinguir no signo o significado e o significante. O significante são os elementos concretos, materiais e perceptíveis de uma palavra, o que ele chamava de imagem acústica. O significado é o elemento inteligível, conceitual, ou seja, é uma imagem mental que surge quando ouvimos ou lemos o significante. A união desses dois elementos é o signo. O referente, por sua vez, nos fala do objeto particular a que a palavra corresponde no caso concreto da circunstância ou do uso. Tudo isso nos fala o estudo empreendido por Saussure sobre a língua. Aliás, normalmente entende-se por “língua”, um sistema que expressa de forma verbal e/ou escrita, um pensamento. Esse sistema, para ser visto como tal, precisa ter um conjunto de regras bem definidas chamada, comumente, de gramática. Quando a língua expressa cabalmente um pensamento, estaríamos diante de uma linguagem.
Um estudo sério dessa questão, portanto, não pode ser realizada sem levar em consideração aspectos históricos, linguísticos e, por fim, teológicos. A tese teológica que está por trás dessa leitura do termo “sacerdote”, inclui o termo dentro da verdade bíblica de que todos os cristãos são sacerdotes e que não precisamos de ninguém que nos leve diretamente – na condição de mediadores – até Deus.


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