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PRAGMATISMO, EPISTEMOLOGIA E EMPIRISMO

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 30 de jun. de 2016
  • 5 min de leitura

William-James

Rev. Padre Jorge Aquino

Tratar do pragmatismo significa, antes de mais nada, deixar de lado a filosofia continental e voltar-se para a construção que marcou a produção intelectual norte-americana, tão desconhecida em nossas academias, contudo, com uma gama de informações extremamente significativas.

Quando pensamos em pragmatismo o primeiro nome que nos vem à mente é o do médico, psicólogo, educador e filósofo americano William James (1842-1910). Embora tenha iniciado sua carreira acadêmica na esfera da psicologia, James, voltou-se logo cedo para assuntos relacionados à filosofia.

Muito embora tivesse ensinado psicologia em Harvard por mais de 35 anos (iniciando em 1873), sendo, inclusive, o responsável pela criação do primeiro curso de psicologia experimental dos Estados Unidos, no final do século XIX ele se voltou para estudo das questões relacionadas ao pragmatismo. Na realidade, costuma-se estabelecer como marco inicial de sua relação com o pragmatismo uma palestra que pronunciou em Berkeley, em 1898, sobre Concepção filosóficas e resultados práticos. Outras palestras versando sobre o tema foram feitas nos anos seguintes no Wesley College (1905), no Lowell Institute e na Universidade de Columbia entre 1906 e 1907, culminando com a publicação de seu livro Pragmatismo em 1907. Foi ele, afirma Paulo Ghiraldelli Jr.(2007, p.12), “sem dúvida, quem forjou a face do pragmatismo em sua versão clássica”. Dentre seus “descendentes” intelectuais podemos citar os nomes de John Dewey (1859-1952), Willard Quine (1908-2000) Hilary Putnam (1926-2016) e Richard Rorty (1931-2007).

Uma das grandes características do pragmatismo é sua tendência em ser absolutamente refratária ao dualismo metafísico. Ghiraldelli (2007, p. 16) nos informa que “A idéia principal do pragmatismo era a eliminação dos dualismos característicos da metafísica, como ‘realidade’ e ‘aparência’, ‘corpo’ e ‘mente’, ‘sujeito’ e ‘objeto’ etc., por meio da noção de experiência” (sic). Tendo sido formado dentro da escola da clareza francesa, James não era afeito e realmente detestava a obscuridade da metafísica alemã. Conforme afirma Will Durant, citado por Valter Costa (p.12) “Ele estava convencido de que tantos os termos como os problemas da metafísica alemã eram irreais; e procurou à sua volta algum teste de significado que demonstrasse, a todas as mentes imparciais, o vazio destas abstrações”. A resposta para seus problemas viria de um texto publicado por Charles Pierce em 1878 na Popular Science Monthly, chamado “Como tornar claras as nossas ideias”. Neste texto, Pierce asseverava que “para julgar o significado de uma idéia temos de examinar a consequência às quais ela leva quando em ação; caso contrário, as discursões sobre ela poderão não terminar nunca, e não há dúvida que não darão fruto” (sic) (DURANT, In COSTA, sd, p. 12). Com este teste nas mãos, ele seguiria para uma definição sobre a verdade, que para ele, diz respeito ao “valor corrente” de uma ideia.

Acerca do que é a verdade, ouçamos as palavras de James em seu texto mais representativo, Pragmatism, de 1907: “O verdadeiro (…) é apenas o conveniente no caminho de nosso pensamento, assim como ‘o direito’ é apenas o conveniente no caminho do nosso comportamento. Conveniente é quase qualquer moda; e conveniente a longo prazo e de modo geral, é claro; porque aquilo que satisfaz convenientemente a todas as experiências à vista não irá necessariamente atender a todas as experiências seguintes de forma igualmente satisfatória (…). A verdade é uma espécie de bem, e não, como em geral supõe, uma categoria distinta do bem e coordenada por ele. Verdadeiro é o nome de tudo aquilo que se mostrar bom no caminho da crença” (JAMES, In COSTA, sd, p. 13). Richard Rorty, afirma Ghiraldelli (1999, p. 39) “quer que levemos a sério a frase de William James que diz que ‘o verdadeiro é o nome seja lá do que for que se comprove bom de se acreditar, e bom, ademais, por razões assinaláveis e definidas’. O objetivo de James em ‘comparar a verdade com o certo e o bom’, comenta Rorty, é ‘que uma vez que se entende tudo sobre a justificação de ações, incluindo aqui a justificação de afirmativas, entende-se tudo que há para ser entendido sobre o bom, o certo e a verdade’”. Seguindo este modelo de pensamento concluímos que a verdade é um processo que acontece à uma ideia e que a veracidade seria sua confirmação.

Ao invés de questionar-se sobre o surgimento da ideia ou sobre seus pressupostos, o pragmatista se volta para seus resultados. Desta forma, fica claro que o pragmatismo é proativo, vez que olha para a frente. O pragmático, diz Costa (p. 13) desvia o olhar das primeiras coisas, dos princípios, das categorias e das necessidades e se volta para a frente, para as coisas finais, para os frutos, as consequências e os fatos. Citando Durant, Costa registra que “enquanto a escolástica indagava: O que é a coisa? – e perdeu-se em quididades; o darwinismo perguntava: Qual é a sua origem? – e perdeu-se em nebulosas; o pragmatismo pergunta: Quais as consequências? – e volta o rosto do pensamento para a ação e o futuro”. O pragmatismo, como se vê, é muito mais um instrumento de trabalho do que uma resposta aos enigmas da vida.

Inevitavelmente, se James via o pragmatismo como um método para a verdade, essa noção teria implicações sobre a relação existente entre a metafísica e à epistemologia. Em primeiro lugar o pragmatismo deveria superar as divergências metodológicas existentes entre os “racionalistas” e os “empiristas”. Segundo afirma Ghiraldelli (2007, p. 18) “No plano da metafísica os pragmatistas não queriam afirmar que o mundo material ‘está ali’, como um elemento em parte ou totalmente construído pela razão, nem que o mundo ‘é dado’, como um elemento alheio e completamente independente do intelecto, exclusivamente trazido à mente pelos sentidos”. No entanto, James não teve como evitar assumir uma postura empirista radical, o que significava, em seu entendimento, “fazer da experiência uma pedra de toque melhor para obter resultados sobre decisões que se necessitava tomar, quando do julgamento a respeito de se um enunciado é ou não verdadeiro” (GHIRALDELLI, 2007, p. 19). O pragmatista não precisa abandonar a tese correspondentista ou a coerentista, mas, sendo um instrumento mais do que um baú de respostas, o pragmatista agirá de forma instrumental na busca de uma alternativa procedimental que seja a mais clara e apta a nos fazer tomar decisões no âmbito de nossa vida cotidiana.

Eis que entra em cena, agora, a vida cotidiana de cada um dos indivíduos que compõem nossa sociedade e que acabam por contribuir, por meio de uma espécie de consenso social constantemente refeito, para afirmar o que é o bom, o certo e a verdade. Por isso, Richard Rorty, bem como Habermas e tantos outros pensadores modernos, levam tão a sério, hoje, a solidariedade das convicções criada na convivência cotidiana da sociedade. Vejamos, as palavras de Rorty citadas por Gideon Calder (2006, p. 19): “Ao contrário dos ‘realistas’, que desejam fundamentar a solidariedade na objetividade, aqueles que desejam reduzir a objetividade à solidariedade – vamos chamá-los de ‘pragmatistas’ – não necessitam nem de uma metafísica nem de uma epistemologia. Eles vêem a verdade como, na frase de William James, no que é bom que nós acreditemos… Para os pragmatistas, o desejo pela objetividade não é o desejo de escapar das limitações de nossa comunidade, mas simplesmente o desejo por tanto acordo intersubjetivo quanto possível, o desejo de estender a referência do ‘nós’ tão longe quanto possamos” (sic). Essa alternativa procedimental se apresenta hoje para os pragmatistas como a saída para as propostas correspondentista ou a coerentista.

Referências bibliográficas

CALDER, Gideon. Rorty. São Paulo: UNESP, 2006

COSTA, Valter. William James. In Grandes temas do conhecimento: filosofia. Nº 46, São Paulo: Mytos, sd.

GHIRALDELLI Jr., Paulo. Richard Rorty. Petrópolis: Vozes, 1999

GHIRALDELLI Jr., Paulo. O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2007

 
 
 

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