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ORTODOXIA E GENEROSIDADE: Por uma teologia em tempos pós-modernos

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 15 de jan. de 2017
  • 4 min de leitura
generosidade

Rev. Padre Jorge Aquino.

Uma das constatações mais tristes que pude verificar em tantos anos de vivência com a teologia, desde o período do seminário (1987) até hoje, é enorme dificuldade de fazer com que essas duas palavras andem juntas. Creio que antes de tudo, seria necessário defini-las para, em seguida, expor minha tese. A primeira palavra, “ortodoxia” é oriunda da união de duas outras palavras gregas: “orto”, que significa “correto”, e “doksa”, que significa “opinião” ou “crença”. Ortodoxia é, portanto, a “doutrina correta”.

Quando falamos em “generosidade”, estamos nos referindo, afirma o Dicionário Houaiss, a “virtude daquele que se dispõe a sacrificar os próprios interesses em benefício de outro”. Etimologicamente, a palavra vem do latim: generositas, e aponta para alguém que é “nobre” ou que vem de uma “boa raça”.

A minha enorme tristeza consiste em verificar que estes dois termos, historicamente, quase nunca puderam andar de mãos dadas. De um lado encontramos a arrogância tola dos fundamentalista em acreditar, conforme afirma Ricardo Gondim, “que sua interpretação será suficiente para explicar a revelação. O fundamentalismo que se arvora de haver conseguido sistematizar a verdade se condena à superficialidade”. Estou absolutamente convencido de que quem lida com a Palavra de Deus e com Jesus Cristo, necessariamente desenvolve atitudes solidárias, mansas, magnificentes e generosas. Assim, se a defesa daquilo em que se acredita, acaba produzindo pessoas inclementes, impiedosas, cruéis e déspotas, essa “crença” é essencialmente má. Aquele que encontra a verdade é liberto por ela, e não escravizado e transformado em um algoz.

Ser um cristão reformado é saber lidar com uma ortodoxia que, desde o princípio se viu como generosa, porque tem sempre a penúltima palavra e não a última. É por isso que bradamos o lema: “ecclesia reformata ac propter semper reformanda”, ou seja, a igreja reformada está sempre em reforma e sua teologia está em um constante processo de devir, ou de vir-a-ser.

Estou ciente de que em nossa sociedade, fruto da lógica aristotélica, não aceita a existência de duas verdades conflitantes. Afinal, o princípio do terceiro excluído desenvolvido por Aristóteles nos fez acreditar que ou bem algo é certo, ou bem é erado; uma terceira possibilidade não existe. No entanto, se utilizarmos outra “lógica” como outro “olhar”, talvez possamos crescer em maturidade. Proponho usar a dialógica da teoria da complexidade, que entende que duas verdades são concorrentes, não quando se contrariam, mas quando com-correm (correm-juntas). Assim, se mudarmos nossa lente ou nosso ponto de vista, veremos que não há contradição em se afirmar as duas naturezas de Cristo, em se acreditar na Santíssima Trindade ou em se afirmar que somos “simul peccator et Justus”, como afirma a teologia luterana.

A expressão “ortodoxia generosa” foi cunhada pelo teólogo de Yale Hans Frei, para se referir a uma compreensão do cristianismo que mantivesse tanto elementos liberais quanto conservadores. Segundo Brian McLaren, “Os liberais construíram a teologia sobre o fundamento de uma experiência religiosa inatacável, enquanto os conservadores buscaram por uma Bíblia isenta de erro como fundação inquestionável de sua teologia. (…) embora cristãos liberais e conservadores pareçam ter seguido seus caminhos separadamente durante todo o século XX, ambos estavam respondendo de diferentes maneiras à mesma agenda, moderna e fundacionalista”.

Quando propomos uma leitura complexa da teologia, não estamos falando nem de relativismo nem de irenismo. O que propomos é a possibilidade de aceitar que nossa leitura não é última, mas penúltima; e a possibilidade de permitir dialogar com o nosso “outro” (alteridade); e a possibilidade de criar uma realidade dialógica. Deve-se deixar claro que a dialógica é uma operação que difere da dialética. Na dialética os dois elementos que se chocam (tese e antítese) são superados por um terceiro elemento essencialmente diferente dos dois primeiros (síntese) ainda que fruto da interação de cada um deles. Na dialógica isso não ocorre. Não se trata de se criar uma terceira possibilidade, e nem mesmo de se superar a contradição existente. Pelo contrário. Neste novo raciocínio que chamamos de dialógico encontramos quase sempre a conjunção de três elementos que a caracteriza e que são: a complementaridade, a concorrência e o antagonismo. Em primeiro lugar está a complementaridade. Desde um ponto de vista complementar, os dois conceitos aparentemente contrários, são necessários para explicar e conceber uma determinada realidade. Ou seja, o pensamento complexo substitui o “ou isso ou aquilo”, por “as vezes isso, as vezes aquilo”.

Em segundo lugar está a concorrência. A palavra “concorrência” pode ser entendida de duas forma. Com-corrente pode ser aquele que corre-com alguém, aquele que é companheiro de carreira, de caminho. Mas ela também pode significar outra coisa. Pode indicar competição e luta. Duas ideias podem ser concorrentes se estão caminhando juntas para explicar algo ou quando estão competindo para dar uma explicação plena e adequada de algo.

Em terceiro lugar está o antagonismo. O antagonismo nos faz pensar em uma oposição frontal entre duas posições ou duas noções. É possível que esta oposição possa se agonizar a tal ponto que possa produzir, inclusive, a destruição mútua. Este tipo de raciocínio que chamamos de dialógico passou a tomar forma na vida cotidiana ao se percebeu que, como afirmam Morin e Prigogine, “Quando a ciência clássica encontrava uma contradição, partia do princípio que havia erro. Niels Bohr teve a coragem de afrontar a contradição da onde e do corpúsculo sem a poder ultrapassar, ou seja, rendo de admitir tratar-se termos contraditórios e complementares. Hoje admite-se poder chegar, empiricamente, por meios racionais e empírico-lógicos, a estas contradições.

Sim, realmente acredito ser possível viver uma vida cristã plena de ortodoxia e, ao mesmo tempo, de generosidade. E isso não é apenas uma possibilidade para nós; é, acima de tudo, uma exigência de nossa fé. Até porque, afirmava Hans Frei: “Generosidade sem ortodoxia é nada, mas ortodoxia sem generosidade é pior que nada”.

 
 
 

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