ONDE ESTÁ DEUS FRENTE AO MAL?
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
- 15 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de mar. de 2022
Padre Jorge Aquino.
Eis uma das maiores e mais importantes para um cristão. Onde está Deus frente ao mal? Para um maniqueísta/dualista, o mal é o outro lado do bem, ambos andam juntos e permanecerão ligados para sempre. Os cristãos, por outro lado, sempre pregaram que o bem vencerá o mal. Portanto, como compreender um Deus que é bom e onipotente e nada faz frente a maldade humana? O problema é colocado de forma perfeita por Nigel Warburton ao dizer: “Um Deus onisciente saberia que o mal existe; um Deus onipotente seria capaz de impedi-lo de ocorrer; um Deus benevolente não ia querer que ele existisse. Mas o mal continua a existir” (WARBURTON, 2008, p. 43). Daí em diante ele tenta apresentar as várias possibilidades de escapar dessa questão.
Historicamente a apologética (defesa racional da fé) sempre se serviu de dois argumentos: ou bem o mal era o resultado da punição divina, ou bem o sofrimento humano era fruto do livre-arbítrio, portanto da liberdade humana.
Para qualquer cristão minimamente inteligente, compreende-se que diante do que ocorreu em Auschwitz, é preciso repensar a questão. De fato, Auschwitz tornou-se uma espécie de símbolo de todos os campos de concentração e de todas as dores da humanidade. Este lugar nos traz à memória as imagens das câmaras de gás, das deportações e de todo o genocídio perpetrado pelo nazismo alemão contra o povo judeu. Só em Auschwitz, foram dizimados mais de um milhão de judeus.
Este campo de concentração não é uma questão apenas para os historiadores e cineastas. Ela passou a ser também uma enorme questão para todos os que creem de Deus. Na verdade, Auschwitz se tornou uma das questões mais impertinentes para todo os crentes: se Deus existe e Ele é bom e onipotente, porque o mal ainda existe e se amplia sem que ele intervenha? Onde ele está frente ao sofrimento? Onde estava Deus, no tempo de Auschwitz?
Diante dessa questão, desde os anos 1950 surgiu na Alemanha, uma “teologia pós-Auschwitz”. Se antes de Auschwitz a teodiceia atribuía toda a maldade ao homem, desculpando Deus, a partir de Auschwitz tudo mudou e a questão é recolocada: onde é que Ele estava?
O teólogo reformado alemão Jürgen Moltmann (1926- ) é um dos primeiros a responder à “teologia pós-Auschwitz”. Para ele, Deus estava do lado das vítimas. Deus estava ali “crucificado” (Moltmann, 1972). Neste sentido, afirmam Raeper e Smith: “Os cristãos identificam Cristo com o Servo Sofredor. É central à crença cristã que Jesus Cristo é de certo modo Deus em forma humana (encarnado) e que, ao morrer na cruz, entrou no sofrimento humano e tomou sobre si os sofrimentos do mundo” (RAEPER & SMITH, 1997, p. 203). A grande questão era, porquê as vítimas não sentiram a sua presença nem a sua consolação? Ademais, se ele realmente estava ali, porquê não interveio?
Sem encontrar respostas para esta pergunta, eis que surge uma nova perspectiva na figura do pensador católico Johann Baptist Metz (1928-2019). Ele defende ser necessário para a teologia aceitar este silêncio de Deus (“cristologia de Sábado santo”), sem procurar desculpá-lo ou compreendê-lo. No entanto, para Metz, tão importante quanto perguntar onde estava Deus, é questionar: onde estavam os crentes? Será que não viram? Será que não se deram conta? Auschwitz obriga os cristãos a uma nova espiritualidade, a uma nova mística: a “mística dos olhos abertos” e da atenção ao sofrimento alheio. Ele disse que: “A interrogação teológica depois de Auschwitz não é só: onde é que Deus estava em Auschwitz? É também: Onde estava o ser humano em Auschwitz?”
Na verdade, frente a uma sociedade de alimenta a cultura da amnésia, do esquecimento e da relativização, Auschwitz é uma experiência que deve nos despertar ao sofrimento do Outro. Assim nossa pergunta, hoje deve ser: onde é que o Outro está nos nossos dias? E a resposta mais óbvia é: na Ucrânia!
Sim. Hoje, Deus está ao lado do povo ucraniano, sendo bombardeado diariamente e assistindo dolorosamente a morte da população civil, composta majoritariamente por crianças, idosos, doentes, grávidas, e tantos que já perderam seus bens e agora perdem suas vidas. A próxima pergunta é clara: Onde está você, cristão? Assim, frente a uma invasão não provocada e sem justificativa legal e moral, que provoca a morte de tantas pessoas, como um cristão deve se colocar? O que fazer diante de um gangster que dirige a segunda maior potência armamentista do mundo e que, apenas para satisfazer sua sanha de poder, assassina a tantos inocentes?
O que Deus pode fazer? Deus sofre ao lado dos que sofrem, assim como sofreu na cruz. Mas ele também convida a seus filhos a se colocarem de pé e a seguirem seu caminho e seu exemplo. Foi o que fez o pastor Bodelschwingh, diretor do Hospital Betel, durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi informado por enviados de Hitler de que “o estado não mais podia manter centenas de epiléticos que eram inúteis à sociedade e que constituíam tão-somente uma drenagem contínua de recursos escassos; e foram baixadas ordens no sentido de que tais indivíduos deveriam ser destruídos. Bodelschwingh confrontou os enviados em sua sala, na entrada do Hospital, (...) O pastor não contava com outra arma para tal batalha além da simples afirmação de que aqueles indivíduos eram homens e mulheres criados à imagem de Deus, e que destruí-los seria cometer um pecado contra Deus” (NEBINGIN, In CHAPMAN, 1985, p. 85). Não havia escolha para o pastor Bodelschwingh, assim como não existe escolha para nós. Citando uma das grandes frases do pastor Martin Luther King, “Chega um momento em que temos que tomar uma posição que não é nem segura, nem política, nem popular, mas que deve ser tomada porque a consciência lhe diz que isso está certo”.
Invoco, portanto, sua consciência, para que você seja capaz de compreender que, a grande questão da apologética ou da teodiceia, nada tem a ver com a relação entre Deus e o mal. A grande questão que deve mover nossa vida diz respeito à nossa postura diante do mal e da injustiça que vislumbramos diariamente em nosso mundo. Como seguidores de Cristo, o que devemos fazer? Segui-lo, ainda que isso nos leve ao calvário.
Referências bibliográficas:
CHAPMAN, Colin. Cristianismo: a melhor resposta. São Paulo: Vida Nova, 1985
RAEPER, William & SMITH, Linda. Introdução ao estudo das ideias. São Paulo: Loyola, 1997
WARBURTON, Nigel. O básico da filosofia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008
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