O QUE É SER ANGLICANO?
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 8 de nov. de 2016
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Rev. Cônego Jorge Aquino
Esta é uma pergunta intrigante. Durante o período que costumamos chamar de “Modernidade”, as identidades eram definidas por aspectos racionais e intelectuais. Nestes dias de “Modernidade líquida”, definir a identidade tanto de uma religião quanto de uma pessoa, se torna bem mais difícil.
Em primeiro lugar devemos dizer que ser anglicano não significa afirmar a crença nos elementos dos credos Apostólico e Niceno. Se assim fosse todos os Romanos, Ortodoxos e Protestantes seriam anglicanos. Todas estas igrejas creem em “Deus Pai Todo-Poderoso Criador dos Céus e da Terra”, etc.
Pela mesma razão, em segundo lugar, ser anglicano também nada tem a ver com a crença no “episcopado histórico”. Os romanos e ortodoxos também creem assim e não são anglicanos.
Todos as denominações cristãs afirmam que as Escrituras do Antigo e do Novo testamento possuem todas as informações necessárias para nossa salvação. E elas não são anglicanas.
E todas elas acreditam que o batismo e a Eucaristia foram sacramentos instituídos por Cristo, anda que administrem de forma diversa.
O que nos resta, então, se a “credenda” anglicana é a mesma das demais denominações cristãs? Resta a “agenda”, ou seja, a prática. Por isso acredito que “ser anglicano” não se define pela crença que afirmamos, mas pelo nosso etos (maneira de ser e viver) que é inclusivista e compreensivo.
Os anglicanos não fazem separação entre homens e mulheres na ordenação; não são contra os métodos contraceptivos; não negam a comunhão ou o segundo casamento aos divorciados; não negam a comunhão nas duas espécies; não proíbem o casamento de seus sacerdotes nem se consideram a única igreja que representa Deus na terra. Na administração os anglicanos defendem uma “autoridade dispersa” que nega o poder absoluto dos bispos, aproximando-se mais – na esfera sacular – de um parlamentarismo constitucional do que de uma monarquia absolutista.
O anglicanismo é compreensivo porque seu primeiro gesto frente ao “outro”, à “alteridade”, ao “diferente”, não é julgá-lo ou condená-lo, mas entendê-lo, compreendê-lo e, quem sabe, aprender com ele e acrescentar algo a mais em nossas virtudes. Afinal, “ninguém é tão ignorante que não possa ensinar algo e ninguém é tão sábio que não possa aprender algo mais”.
Quero afirmar que sou um cristão anglicano. Cristão porque o Cristo confessado nos Credos históricos é meu salvador pessoal; anglicano, porque aceito toda a “credenda” e a “agenda” anglicana sem qualquer problema, mas quero registrar que sou um cristão anglicano porque não vejo espaço em nenhuma outra tradição cristã para fazer com que as Escrituras, a razão e a tradição possam dialogar, não livre de tensões, mas criativamente.
Continuo anglicano e continuo padre e sempre serei um padre anglicano – porque o sacerdócio é eterno, e continuo celebrando os sacramentos, ainda que dentro de uma comunidade familiar e mais restrita, mas nem por isso, menos importante. Ademais, tenho a impressão que o futuro da igreja caminhará para o abandono da visão paroquial e a redescoberta da leitura bíblica dos pequenos grupos.


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