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O MEU, O SEU E O NOSSO: AS FINANÇAS DO CASAL

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 19 de mai. de 2016
  • 5 min de leitura

casal e dinheiro

Revdo. Pe Jorge Aquino

Que todos os casais enfrentam problemas, é fato. Mas problemas na área financeira são os mais perigosos para a vida de um casal. E esses problemas começam bem cedo na vida do casal. Quando o casal ainda está namorando e preparando-se para o casamento a bomba costuma explodir. De acordo com Gustavo Cerbasi (2004, p. 49) “Parte dessa crise é financeira, parte é de responsabilidade pessoal. Sim, os homens surtam ao perceber a grande responsabilidade que terão pela frente – ainda fruto da sociedade machista e da falta de capacidade de compartilhar problemas. Uma forma muito simples de suavizar essa passagem do mundo dos sonhos para o das responsabilidades é passar a dividir seus projetos antes mesmo de falar em casamento. Compartilhem sonhos e metas para a vida. Dividam medos e angústias. Comecem a construir planos de independência financeira juntos, simulando os custos mensais que teriam no futuro, se casados”. Mas não descuidem de conversar sobre esse tema, afinal, tirando a infidelidade conjugal, as estatísticas revelam que problemas financeiros são a segunda razão para o divórcio.

Mas, considerando que hoje o casal está envolvido em uma atividade profissional, que tipo de modelo poderíamos trazer para a nossa vida com o fim de servir de caminho para nosso relacionamento com o dinheiro? Em geral eu diria que existem três formas de lidar com o dinheiro que entra no final do mês na conta do casal.

  1. O modelo liberal. Eu já celebrei casamentos em que o casal resolveu casar em regime de separação total de bens, e isso, repercutiu na forma como eles viviam sua vida financeira. Normalmente esse é o tipo do casal que divide as contas em dois tipos: as pessoais e as conjuntas. Quanto às contas pessoais, cada um paga suas próprias contas (prestação do carro, plano de saúde, conta do celular, etc.) e o que sobra é colocado em uma poupança pessoal sem que o outro tenha acesso à ela. Quanto às contas conjuntas, elas são divididas da forma mais equânime possível. Assim enquanto um paga o aluguel o outro paga o condomínio; enquanto um paga a luz o outro paga a água; enquanto um paga a internet o outro paga a TV por assinatura. Pergunto: esse tipo de casamento pode dar certo? A resposta é sim. Pois, como dizia um certo filósofo do direito, Hans Kelsen, “o acordo entre as partes tem força de lei”.

  2. O modelo de compartilhamento. A maioria dos casais que conheço e mesmo aqueles mais antigos, preferem o modelo de compartilhamento amplo, ou seja, aquele no qual o salário recebido pelo casal no final do mês é colocado sobre a mesa e não existe mais o que é “meu” nem o que é “seu”. Estes casais costumam casar com o regime de comunhão parcial ou comunhão total de bens. Para eles, se eles são capazes de dividir seus sonhos, suas vidas, seus corpos, por que não dividiriam seu dinheiro? Cito as palavras do casal André e Rita Kawahala (2008, p. 45) “Na vida conjugal, não existe propriedade material que não pertença a ambos, marido e mulher. Ou melhor, não deveria existir. Mas as condições atuais, em que o eu é mais importante que o outro, o egoísmo prevalece sobre quase todas as decisões pessoais e a competição é o centro da vida, o casal acaba cedendo e praticando, no novo lar, os mesmos preceitos sociais sobre os bens materiais”.

  3. O modelo percentualista. Durante mais de uma década realizando casamentos e conversando com casais, só abordava os dois modelos acima. Até que um dia um casal de bancários bateu à minha porta pedindo que eu realizasse seu matrimônio. Quando chegamos no tema que trata das finanças do casal, apresentei os dois modelos acima. Foi então que eles me disseram que tinham um modelo que julgavam melhor para a vida deles. E a explicação foi muito simples. Imagine que o noivo ganhe 3 mil reais e que a noiva ganhe 2 mil reais. A renda familiar é de 5 mil reais. No entanto, seguindo o raciocínio daquele casal, o noivo era responsável por 3/5 das despesas e a noiva por 2/5. Da mesma forma, ele se responsabilizava por 3/5 das despesas e ela por 2/5 delas. Assim sendo, ninguém poderia dizer que contribuía mais do que o outro para a relação, porque, percentualmente, cada um contribuía com a mesma proporção. Pergunto: esse tipo de casamento pode dar certo? A resposta é um sonoro sim. Mas ele exigirá uma planilha muito bem feita e executada. Nem todos conseguem algo assim.

A questão que se impõe é: qual o modelo melhor para a família? Na realidade não existe um modelo “ideal” para a família. Nem mesmo existem apenas três modelos. O que é necessário é que o casal seja capaz de conversar muito a respeito do assunto e definir seu próprio modelo. Em outras palavras, é preciso descobrir quais valores nortearão a vida econômica do casal. É preciso, contudo, que eles levem em consideração os problemas que eventualmente possam surgir – como o desemprego de um dos casais -, e, acima de tudo uma relação em que o respeito e a justiça, e não, o capital seja o padrão. Que parte hiperssuficiente não imponha sobre a parte hipossuficiente sua opinião apenas porque ganha mais, mas que tudo possa ser discutido como iguais. Na Encíclica Mater et Magistra nº 74 está escrito: “A riqueza econômica de um povo não depende da abundância global de bens, mas também e mais ainda, da real e eficaz distribuição deles, segundo a justiça” (citado por FERNANDES, 1982, p. 57). Agora aplique essa verdade à sua família e imagine como as coisas se dariam quando a riqueza financeira da família não estivesse ligada à quantidade de bens que o casal foi capaz de angariar e sim, no quanto eles desfrutaram juntos de tudo isso.

É importante que cada cônjuge tenha uma verdadeira noção de que tipo de pessoa você é em relação ao dinheiro para que você não acabe se surpreendendo com sua futura esposa nem ela se decepcione com você. Para Gustavo Cerbasi, existem pelo menos cinco estilos de como lidar com o dinheiro. Você pode ser, em primeiro lugar, um poupador, ou seja, aquele que sabe “que é importante guardar e, por isso, não se importa nem um pouco em restringir ao máximo os gastos atuais (…) para conquistar a independência” (2004, p. 22); em segundo lugar existe aquele que é gastador, ou seja, aquele que gasta tudo o que tem (e até o que não tem), porque “gostam de ostentar” e de destacar com coisas caras; em terceiro lugar está o indivíduo descontrolado, ou seja, aquele que não tem ideia do quanto entra e do quanto sai de sua conta. Eles vivem cortando gastos, mas parece que nunca é o bastante; em seguida vem o desligado, que é aquele para quem a fatura do cartão de crédito é sempre uma surpresa todos os meses; finalmente temos os financistas, que são rigorosos com o controle dos gastos justamente porque têm o propósito de economizar. Eles economizam pensando tanto no presente imediato (comprar algo com um desconto maior) como pensando no futuro distante, economizando para a velhice que, inevitavelmente, chegará.

Com isso em mente, você terá um instrumento a mais para poder discutir com seriedade sobre o futuro da relação financeira do casal. O que jamais pode acontecer é que (a) o casal evite conversar sobre esse assunto; (b) quem ganha mais imponha sobre o outro todas as questões relacionadas às finanças; (c) quem ganha mais exponha publicamente o outro como sendo alguém que não contribui para o sustento do casal e, finalmente, que (d) um esconda do outro seus gastos e minta sobre seu salário. Nenhum casamento que trata as finanças dessa forma terá muito futuro.

Referências bibliográficas

CERBASI, Gustavo. Casais inteligentes enriquecem juntos. São Paulo: Gente, 2004

FERNANDES, Antônio M. Casais em reflexão vol. 1. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

KAWAHALA, André & KAWAHALA, Rita. Encontros para novos casais. São Paulo: Paulinas, 2008

 
 
 

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