O INFERNO SÃO OS OUTROS
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 14 de jun. de 2016
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Rev. Padre Jorge Aquino
Esta famosa frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre, aparece uma de suas peças teatrais chamada Huis clos (Entre quatro paredes), de 1944, marcada pelo existencialismo, no qual a personagem Garcin diz: “Vocês se lembram: o enxofre, a fogueira, as grelhas… do inferno? Ah! Que brincadeira. Não há necessidade de grelhas: o inferno são os outros!” (In ALMEIDA, 1988, p. 41).
Explicando esta que seria uma das frases mais famosas de Sartre, Danto (1978, p. 83) nos diz que “O inferno são as ‘outras pessoas’, no sentido de que cada uma dessas personagens está eternamente aprisionada em impasses morais e eróticos, dos quais nenhum deles pode permitir que qualquer dos outros escape. A base do tormento espiritual deles é, porém, mais profunda do que suas psiques diabolicamente desajustadas implicam (…). Cada qual exige dos outros ser aceito pelo valor que ele ou ela gostariam fosse visto neles”.
Quando voltamo-nos para o pensamento desse ilustre filósofo, vemos em sua maior obra, O ser e o nada, que ele aponta a liberdade radical como a característica fundamental do homem. Desta forma ele quer dizer que o homem é ontologicamente livre em seu ser.
Ora, todos conhecemos a famosa expressão de Sartre no qual ele diz que a “existência precede a essência”. O que isso significa? Significa que primeiro o homem, antes de realizar algo pelo qual possa ser essencialmente descrito ou denominado – e isso inclui profissão, crença, gostos, etc. – ele existe, ou seja, ele é. Antes de ser médico, ou cristão, ou feio, ou amável, ele é um homem. Na mesma peça que citamos acima, Sartre nos diz que um homem “nada mais é do que a soma das escolhas que fez durante a sua vida”. Em outras palavras, só nos referimos à essência de um homem em função de sua existência, que a precede.
Como consequência dessa realidade de prioridade da existência sobre a essência, descobrimos que o homem é e sempre será livre para tomar suas decisões. Ainda que esteja com seu corpo aprisionado, ninguém nunca poderá dominar sua consciência, ou seja, o lugar onde reside a sua liberdade. Isso significa que existe uma diferença ontológica fundamental entre um Ser e um Objeto. O homem será sempre um Ser e jamais poderá ser reduzido à condição de Objeto. Sempre que alguém tentar realizar este ato de coisificação ou objetização do homem, nossa consciência, munida de nossa liberdade radical, grita.
Ora, em todas as relações humanas sempre temos em foco o Eu e o Outro. O Outro sempre será tratado como Objeto, e suas escolhas sempre entrarão em conflito com as minhas escolhas bem como minha liberdade com a liberdade do Outro.
Mas as coisas não se resumem a esse conflito. O Outro é necessário para o Eu porque o Eu não existiria sem o Outro ou, sem relação a um Outro. O Outro é necessário para que eu me conheça plenamente, ou seja, para que eu possa abandonar a minha “má-fé”, ou seja, “essa espécie de mentira que contamos a nós mesmos para fugir da angústia, que se origina da responsabilidade que temos por nossas escolhas” (VINÌCIUS, acessado em 13 de maio de 2016). Se você preferiu romper relações com seu melhor amigo, assuma a responsabilidade pelo que fez e não fique criando desculpas para encobrir seu ato livre e responsável. Assumir as consequências do que fazemos significa que agimos “autenticamente”, ou seja, não colocamos nos outros (no diferente – do grego héteros) a responsabilidade que é nossa. Agindo assim, agimos heterônomamente.
Lamentavelmente, porém, as pessoas optam por viver uma vida de “má-fé”, nos enganando e culpando os outros pelos erros que cometemos livremente ou pelas escolhas equivocadas que fizemos. Todos humano livre já viveu a angústia de ter que escolher autonomamente uma postura. E sua liberdade o impele a isso. Por isso Moutinho (1995, p.77) assim postula: “A angústia, portanto, é a experiência vivida em face da descoberta de liberdade”. Mas, é mais fácil deixar que os outros escolham por nós e que abramos mão de nossa liberdade, e, portanto, de nossa angústia.
É neste momento que o Outro, com seu olhar julgador, nos diz quem somos e não quem achamos que somos ou quem queremos que os outros pensem que somos. E quando o Outro nos olha ele nos julga e nos avalia. É por isso que “O inferno são os outros”. Porque nas nossas relações o signo mais comum é a tensão e o confronto. Conforme nos ensina Vinícius, “porque o outro também é livre, não podemos controlar completamente o que ele pensa, o que ele nos diz, o limite que ele impõe à nossa liberdade (…); mas, ao mesmo tempo (daí vem a tensão), preciso dele, de seu olhar (ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos), para me conhecer e poder agir no mundo, pois apenas por nossas ações (sobretudo as que interferem positivamente na vida dos outros), e no nosso contato intersubjetivo autêntico (que ocorre quando encaro o outro como um ser igualmente livre, e não como um simples objeto), que podemos superar nossa situação e dar um sentido legítimo à nossa existência” (VINÌCIUS, acessado em 13 de maio de 2016).
Ora, se somos seres sociais, inevitavelmente estaremos vivendo constantemente em conflito com o Outro e sendo julgados por eles. Principalmente em nossa sociedade midiática na qual quase todos participam das novas tecnologias e acabam expondo em sites de relacionamento sua vida privada por meio de fotos, vídeos, pessoas, etc. O que Sartre nos ensina é que nunca poderemos nos esconder do olhar e do julgamento do Outro, ou seja, daquilo que nos incomoda e nos inferniza.
No entanto, Meireles nos faz uma pergunta intrigante: “Será que sem o outro a vida poderia ser mais fácil?” (MEIRELES, acessado dia 13 de maio de 2016). Será que coisificar ou nadificar o Outro seria a melhor escolha para evitar ser “queimado pelo fogo do inferno?” a proposta de Meireles é nos desafiar a “aprender a conviver com esse ‘sujeito infernal’ e julgador”, ou seja, esse ser que insiste em discordar de nós e que, talvez, tenha razão no que afirma, ainda que isso nos perturbe.
Em uma sociedade fragmentada e onde as verdades deixaram de ser duras e absolutas, talvez o “inferno” seja necessário para nos fazer conviver com o diferente, com o Outro e com a alteridade. Talvez o “inferno” nos torne mais tolerantes com os que pensam diferentes de nós.
É preciso que tenhamos a coragem de ser quem somos e de reconhecer o que pensamos e fazemos. Isso é viver autenticamente. Precisamos evitar a “má-fé” e jogar a culpa pelo que fizemos ou pensamos de errado nos outros. É preciso vencer a angústia e assumir nossa condição humana existencial. É preciso reconhecer que o que somos é, também, resultado de uma construção social realizada pelos grupos aos quais pertencemos. Mas, também precisamos entender que o Outro tem seu espaço no Eu, que, afinal, sou, Eu, em relação ao Outro.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Fernando José de. Sartre: É proibido proibir. São Paulo: FTD, 1988
DANTO, Arthur C. As idéias de Sartre. São Paulo: CULTRIX, 1978
MOUTINHO, Luiz Damon S. Sartre: existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995
MEIRELES, Jacqueline. O inferno são os outros. In (http://www.psicologiaemanalise.com.br/2011/06/o-inferno-sao-os-outros.html, acessado dia 13 de maio de 2016).
VIEIRA, Luiz Carlos Garcia. O inferno são os outros: Filósofo Sartre. In (http://profluizfala.blogspot.com.br/2016/02/o-inferno-sao-os-outros-filosofo-sartre.html?view=snapshot acessado em 13 de maio de 2016).
VINICIOS. In O inferno são os outros. (http://filosofiaecoisasdavida.blogspot.com.br/2010/07/um-dos-temas-filosoficos-que-mais-me.html acessado em 13 de maio de 2016).


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