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O DIÁLOGO ENTRE A CULTURA E A FÉ

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 15 de fev. de 2017
  • 4 min de leitura

fe-e-cultura

Rev. Côn Jorge Aquino

Antes de principiar essa breve reflexão, creio que não existe dúvida em nossa mente de que mesmo a nossa fé é uma realidade cultural. Aliás, alguém já classificou a fé de a “alma da cultura”. É claro que Isto, por si só, já configura uma ambiguidade na abordagem desse tema. Mas cremos que mesmo as ambiguidades podem nos ensinar muito.

Nossa primeira afirmação diria que há uma íntima relação entre e cultura. Em outras palavras, nossa fé é produzida culturalmente. Nossa fé é o resultado de um acúmulo cultural judaico-grego-romano que conviveu por quase dois milênios dentro de uma estrutura hegemonicamente romano-germânica e geograficamente europeia, com recentes influências mouras, indígenas e africanas. Certo pensador disse: “Eu sou eu, e minhas circunstâncias”.

Examinando mais acuradamente a fé, lemos de Juan Paredes, que “A partir do ponto de vista subjetivo, a fé também é cultivo das capacidades espirituais do homem: da sua inteligência, para se abrir à verdade fundante de tudo, da sua vontade, para aderir aos valores éticos e religiosos, e da sua afetividade, para encontrar em Deus o bom Pai que nos ama” (PAREDES, 1999, p. 21). A relação entre a fé e a cultura já está posta nestas poucas palavras. Neste aspecto podemos falar de “fé” subjetivamente, como uma espécie de cultivo de nossa capacidade espiritual de responder ao Deus que, primeiro se deu por nós. Fé é, então, uma resposta frente a uma proposta. Mas tanto a proposta quanto a resposta são condicionadas culturalmente.

Por outro lado, a fé pode ser compreendida, também, de uma perspectiva objetiva. Desta forma a fé passa a ser vista em três aspectos bem delineados e incarnados à nossa vida: nossa fé é expressa em uma comunidade visível com regras próprias; em uma comunidade que se reconhece em crenças formuladas e em conceitos e documentos oficiais; e em crenças que se expressa em sinais, símbolos e ritos, formando uma arte própria: a liturgia. Estes dois aspectos da fé – o subjetivo e o objetivo – inevitavelmente dialogam com nossa cultura.

Uma segunda afirmação que eu faria, diz que nossa teologia é uma expressão desse diálogo. A palavra “Teologia” é, por si mesma, uma Contradição em termos. O que isso significa? Ora a palavra Teologia é o resultado da união de outras duas: Theos, que significa Deus, e logos, que significa “discurso” ou “estudo”. A Teologia, portanto, seria um discurso sobre Deus ou um estudo sobre Deus. Ora, sabemos que “Deus” não é “algo”, ao lado de outras “coisas” acerca de quem se possa “falar” ou “estudar” como se estuda qualquer outro objeto. Isso ocorre porque Ele não é objeto, mas sujeito. Ele – e até essa expressão é uma metáfora, já que ele não tem gênero – não pode ser aprisionado ou descrito, de forma plena ou final, por nosso discurso humano e limitado. Só isso já nos deveria fazer entender que todo nosso discurso sobre Deus é um discurso sob limite, ou no mínimo uma palavra penúltima sobre o assunto. No entanto, assumir nossas limitações em falar sobre Deus não significa que tudo o que dizemos sobre Ele são inverdades, já que, mesmo as metáforas e os recursos literários, podem dizer verdades das formas mais distintas. O que quero registrar é que nosso discurso acerca de Deus é, primeiro, limitado (embora veraz) e, em segundo lugar condicionado por nossa cultura, nossa língua, nossos recursos, etc.

Uma terceira afirmação que gostaria de fazer é que “toda vista é vista de um ponto”. Ou, como já afirmou um ilustre teólogo do século XX: “não há exegese sem pressuposto”. Sempre, e eu repito essa palavra para intensifica-la, sempre que nos aproximamos de uma realidade, nós a observamos a partir de nosso ponto de vista. Por isso existe uma teologia agostiniana, uma teologia tomista, uma teologia luterana, uma teologia calvinista, uma teologia wesleyana, etc. Cada uma delas se aproxima da Escritura Sagrada – um texto também culturalmente determinado – com alguns pressupostos que acabam por fazer surgir um sistema onde todos os pontos se encaixam. É claro que Agostinho não podia refletir sem utilizar o paradigma platônico que vigorava durante seus dias. O mesmo se pode dizer de Aquino e sua inclinação em utilizar as categorias aristotélicas para elaborar um sistema teológico. Lutero, Calvino, Wesley e tantos outros ilustres teólogos, também foram homens que dialogaram com seu tempo e, por via de consequência, “criaram” uma teologia própria. Só a título de ilustração, é interessante comparar um Martinho Lutero com um Karl Barth. Ambos pregaram a supremacia da fé. O primeiro contra as obras, o segundo contra a razão iluminista.

Mas, o que poderíamos fazer caso desejássemos fazer teologia hoje? A proposta mais comum seria criar um grupo de arqueologia que passasse todo o seu tempo voltado para o passado, portanto, olhando para o retrovisor. É mais ou menos isso que fazem os juízes aqui no Brasil. Quando eles têm que tomar uma decisão, eles buscam as decisões que já foram tomadas sobre aquele assunto anteriormente (jurisprudência) e somam com os comentários que os juristas escreveram sobre o tema (doutrina). Ser um bom juiz no Brasil hoje, é ter a capacidade de olhar para o passado e fazer um bom trabalho arqueológico.

Mesmo sem desconsiderar ou desprezar o consenso dos fiéis, a produção histórica dos pais, do medievo, da Reforma, etc., a quem recorro diariamente nos meus escritos, entendo, e essa é minha quarta afirmação, que o Espírito Santo que iluminou esses grandes homens do passado para responderem às demandas de seus dias, também está entre nós e pode nos fazer refletir sobre as grandes demandas que enfrentamos nos dias de hoje. Por isso, boa parte do labor teológico, exige oração e não apenas reflexão. Precisamos ouvir a voz de Deus e ter a coragem de dizer: “Assim diz o Senhor” sobre os problemas que atingem – hoje – nossa vida, nossa igreja, nossa cidade, nosso país e todo o mundo.

Que tenhamos a iluminação do Espírito para que, inspirado pelo passado, e olhando para o presente, possamos dar respostas concretas a problemas concretos que atingem concretamente nosso povo. Isso, contudo, exige não apenas que saibamos verdades acerca de Deus, mas que conheçamos verdades de Deus, como já afirmava J.I. Packer.

 
 
 

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