O ANTIFUDACIONALISMO E O DEFLACIONISMO SIGNIFICAM O MESMO QUE RELATIVISMO? REFLEXÕES SOBRE A EPISTEM
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 18 de ago. de 2016
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Rev. Cônego Jorge Aquino
Discutir o tema da “verdade” é sempre trilhar em um caminho excessivamente tortuoso, principalmente nesses dias em que percebemos que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Mas é nosso dever, enquanto pensadores cristãos da realidade e formadores de opinião, encarar essas questões e propor uma saída que seja simultaneamente justificável e cristã.
Sobre essa questão podemos afirmar que historicamente, os filósofos que buscaram a verdade dentro de uma estrutura de política democrática sempre foram capazes de conjugar pelo menos três alegações: em primeiro lugar, afirmam existir na humanidade, um desejo de encontrar uma verdade; em segundo lugar, defendem que a verdade é sempre correspondencial, ou seja, “o que se afirma corresponde com o que se observa”; e finalmente, que existe uma natureza intrínseca na realidade. Com base nessas três premissas, esses filósofos podem afirmar que a verdade existe e é uma e absoluta.
Geralmente quem discorda dessa afirmação é acusado de ser “irracionalista”, na proporção do número de alegações citadas que nega. Desta forma, Nietzsche pode ser tido como o modelo do irracionalismo em sua forma mais pura, uma vez que nem desejava a democracia e se recusava a aceitar toda as demais premissas. Já um James Dewey tinha um compromisso com a democracia mas não estava disposto a afirmar duas das premissas citadas: ele não acreditava que a verdade fosse correspondencial e acreditava que a verdade é múltipla e maleável. Habermas – que luta fortemente pela democracia -, por sua vez, também discorda da verdade correspondencial mas não aceita a possibilidade de verdades múltiplas e, por isso, em alguns círculos é acusado de “irracionalista”. O caso de Rorty é ainda mais complicado pois, embora defenda as perspectivas políticas democráticas, nega todas as três premissas citadas acima.
Segundo seu pensamento, aquilo que os filósofos entendem ser um desejo universal de verdade deveria ser melhormente descrito como o desejo universal de justificação. Segundo ele, “Uma diferença entre a verdade e a justificação é aquela entre o irreconhecível e o reconhecível. Nunca vamos saber com certeza se uma dada crença é verdadeira, mas podemos ter certeza de que ninguém tem, atualmente, como invocar quaisquer objeções residuais contra ela, e que todos concordam que ela deve ser sustentada” (RORTY, In SOUZA, 2005, p.106). Rorty compreende que a ideia de “verdade” não deve se tornar tão relevante para aqueles intelectuais que militam em espaços políticos democráticos e que a ideia de “justificação” deveria ser vista como mais atrente. Para ele, buscar a natureza verdadeira ou o significado da palavra, ou ainda uma teoria sobre o “perigo” é menos importante do que buscar uma justificativa para o uso de tal palavra em uma determinada situação concreta. O fato de se acreditar que a “verdade” não é correspondencial nem absoluta sendo, portanto, falível, não nos torna céticos, vez que o falibilismo não postula a absolutidade enquanto o ceticismo, sim. Isso significa que que Rorty defende o relativismo? Penso que não. Mas vejamos o que ele entende por antifundacionismo e deflacionismo, antes de concluir nossa argumentação.
Em sua tese sobre o antifundacionalismo, apresentada em seu texto Filosofia e o Espelho da Natureza, Rorty questiona o valor e a natureza da verdade afirmando a falência das certezas absolutas pela inexistência de uma realidade fundante que lhes dê estabilidade ou de uma base metafísica ou totalizante para a compreensão da verdade. Vê-se, claramente aqui, sua ruptura com a metafísica que marcou a filosofia Ocidental durante dois mil anos. Neste texto ele procurou “refutar a ideia de que o conhecimento é um modo de representar corretamente o mundo, como uma espécie de espelho mental. Rorty argumentou que essa visão de conhecimento não se sustenta, por duas razões. Primeiro, admitimos que a nossa experiência do mundo é algo ‘dado’ a nós diretamente – o que sentimos é informação bruta do mundo tal como ele é. Segundo, admitimos que essa informação bruta é captada, nossa razão (ou alguma outra faculdade da mente) começa então a trabalhar nela, reconstruindo o modo como esse conhecimento se encaixa num todo e espelha o que é o mundo” (VÁRIOS, 2011, p. 316, 317).
As teses deflacionistas de Rorty são importantes para sua epistemologia porque segundo ele, “as teorias da verdade devam ser desinflacionadas, isto é, a verdade não deve ser tomada como possuindo uma propriedade real, como possuindo uma substância cognitiva, como sendo revestida de uma essência ou um fundamento metafísico. A verdade, no âmbito de uma abordagem deflacionista, adquire apenas a característica de permitir um mínimo de acordo entre dois falantes” (FRAGA. In https://esbocosfilosoficos.com/tag/richard-rorty/). Neste ponto de vista, Rorty – como um bom pragmatista -, encara a verdade simplesmente como um elemento sobre o qual dois seres falantes poderiam observar uma dada realidade e comunicaram-se entre si a partir de bases comuns que seriam ponto de integração e que permitiriam e facilitariam o processo de comunicação entre eles. Em outras palavras, para ele a filosofia era um espaço de diálogo e conversação onde seria possível encontrar soluções transitórias para problemas igualmente transitórios.
Agora nos deparamos com a grande questão de seu relativismo. É verdade que para a maioria dos pensadores questionar a existência do absoluto inevitavelmente nos faria cair na vala comum dos relativistas. Rorty não entende que negar a existência de padrões corretos necessariamente deveria nos levar a afirmar que a verdade é relativa. Para ele, “Tanto quanto posso ver, ninguém pensaria que a crítica ao absolutismo conduz ao relativismo, a menos que pensasse que a única razão para justificar nossas crenças, uns aos outros, é que tal justificação torna mais provável que nossas crenças sejam verdadeiras” (RORTY, In SOUZA, 2005, p.131). Ele acredita que tal justificação não tornaria algo mais provável. Mas isso não tem muita importância para ele uma vez que a prática de justificar uma crença não precisa ser justificada. Como ele afirma, “Se estou correto em pensar que a única função indispensável da palavra ‘verdadeiro’ (ou de qualquer outro termo normativo indefinível, como ‘bom’ ou ‘certo’) é nos acautelar, prevenir contra o perigo, apontando para situações imprevisíveis (audiências futuras, dilemas morais futuros, etc.), então não faz muito sentido perguntar se a justificação conduz ou não à verdade” (RORTY, In SOUZA, 2005, p.131).
Rorty segue a teoria de John Dewey segundo a qual, todas as obrigações são condicionais e situacionais. Ele sabe que essa recusa em aceitar o condicionalismo e defender a postura incondicional acabou por fazer com que seus opositores o tachassem de “relativista”. Nesse aspecto, para Rorty, se ser “relativista” significa simplesmente fracassar em encontrar um uso para a noção de “validade independente de contexto”, então a acusação era justificada. Mas isso não significa que tenhamos que desistir do caminho democrático enquanto um jogo de linguagem no qual construímos contextos de discussão sempre maiores e melhores.
Referências Bibliográficas
FRAGA, Marcelo. Richard Rorty e o debate sobre a questão da verdade. In https://esbocosfilosoficos.com/tag/richard-rorty/, acessado em 16 de agosto de 2016.
SOUZA, José Crisóstomo de (Org.). Filosofia, Racionalidade, Democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo: UNESP, 2005
VÁRIOS, O Livro da Filosofia. São Paulo: Globo, 2011


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