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NOVOS BISPOS PARA UMA NOVA REALIDADE

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 22 de mai. de 2014
  • 6 min de leitura
NOVOS BISPOS PARA UMA NOVA REALIDADE

Rev. Padre Jorge Aquino

Todas as dificuldades passadas pela Diocese Anglicana do Recife (IEAB) na ultima década nos devem fazer refletir sobre o papel absolutamente único do principal personagem desta história de conflitos, ou seja, do seu bispo. Quando falamos do bispo como do “principal personagem” não queremos desmerecer o papel dos outros atores da história, mas chamar a atenção para o protagonista, para o ator principal, para aquele que tem um papel privilegiado justamente porque tem a autoridade e o dever de dirigir uma Diocese. É bom que se diga logo de início, que estas poucas páginas não pretendem tratar especificamente da Diocese do Recife nem especificamente da pessoa do bispo Robinson Cavalcanti. Este texto é antes de tudo uma expressão da nossa compreensão sobre como um bispo deveria se comportar nestes novos tempos trazidos pela crise dos paradigmas modernos. Uso a DAR-IEAB como exemplo apenas porque parece-nos que ela, mais do que qualquer outra Diocese na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, sofreu muito na ultima década com um modelo de episcopado que, não apenas se revelou equivocado e incapaz de evitar problemas, mas que foi, definitivamente, gerador de dificuldades. Nestes dias em que o projeto criado pela modernidade, baseado no domínio da razão, na prevalência do discurso, da retórica, e do logocentrismo e na pretensão fundacionista parecem “fazer água”, é necessário pensar mais uma vez em um modelo de igreja e de bispo que se adeqüe a uma nova realidade e a uma nova atmosfera. Pensando nisso nos propomos a refletir sobre este tema, sabendo que nem mesmo o tema é novo, mas faz referência a um texto escrito nos anos 80 pelo rev. Caio Fábio: Novos ministros para uma nova realidade. 1. Para termos novos bispos para uma nova realidade teremos que ser aptos, em primeiro lugar, para buscar a prevalência do serviço sobre o governo ou o domínio. Quando lemos a história da igreja e observamos o papel desenvolvido pelos bispos durante a Idade Média, descobrimos que vem de lá a idéia de que o bispo deve ser visto como a figura de um monarca, ou seja, de um “Príncipe da Igreja”. Esta figura do bispo como um membro da elite da sociedade e como detentor do poder atemporal ou espiritual foi muito importante para o fortalecimento das instituições medievais e, certamente, fez surgir pessoas que desempenharam um papel importantíssimo na Europa. A consequência inevitável deste modelo de episcopado, contudo, foi a crescente dominação exercida pela igreja sobre as camadas mais pobres e carentes da sociedade e a legitimação do autoritarismo praticado pelas monarquias absolutistas. Lamentavelmente, mesmo com o advento da Modernidade e com a eliminação desta característica dominadora que subjazia latente no múnus episcopal, muitos bispos ainda preservam a distância em reação ao seu povo porque se transformaram em membros de um staf de gestores e administradores dos bens e dos recursos da igreja envolvidos por uma “áurea” de santidade e espiritualidade que os dissocia dos demais “mortais”. Ainda que não queiramos eliminar o aspecto administrativo do ofício episcopal, defendemos como algo de suma importância a prevalência do aspecto do serviço sobre o da dominação-administração. O bispo deve ser visto hoje, mais do que tudo, como o servo dos servos de Deus. Ser servo dos servos de Deus implica em cansaço, em fadiga, em preocupação com o rebanho, em intercessão pelo povo, etc. Não se trata tanto de dominar, mas de servir. Se trata de assumir o mesmo papel que foi assumido pelo Senhor Jesus que sendo em forma de Deus se humilhou e assumiu a forma de servo e serviu até com a sua própria vida. Antes, portanto, de buscarmos bispos que dominam (alguns ferreamente), entendemos que estes novos tempos devem nos fazer buscar bispos que servem e que se doem pelo rebanho. Antes de verem o episcopado como uma oportunidade de dominação, devem vê-lo como uma oportunidade a mais para exercitarem a doutrina que sustenta as ordens cumulativas. Os bispos são, antes de tudo, diáconos, e como tal, devem ser os primeiros a servir. 2. Para termos novos bispos para uma nova realidade teremos que ser, em segundo lugar, aptos para buscar a prevalência do pastoral sobre o teológico. A figura episcopado sempre esteve profundamente ligada à do teólogo. A história da Igreja nos mostra exemplos de grandes bispos que foram também grandes teólogos. Quem não gostaria de ter um Irineu de Lion, um Agostinho de Hipona ou um Anselmo de Cantuária como bispo? Que honra tivemos em ter um Rowan Willians como Arcebispo de Cantuária. Homens assim, com envergadura intelectual, precisam ser valorizados e incentivados ao exercício do episcopado. Contudo, acreditamos que hoje precisamos redescobrir, urgentemente, a figura do pastor no bispo. Quando falamos em “pastor”, estamos falando daquela realidade que nos lembra o próprio Jesus. Ele é o sumo-pastor das ovelhas, contudo se serve e se utiliza dos pastores humanos para ministrar o perdão e sarar as feridas. Como pastor o bispo é aquele que deixa as 99 ovelhas no aprisco e vai em busca daquela que está desgarrada. Ele é aquele que enfrenta as intempéries para procurar, buscar e ajudar a que está machucada, ferida ou em perigo. O bispo indicado para estes novos tempos não é o que agride e machuca, não é o que impõe ditatorialmente, é o que serve e que cura as feridas, é o que é capaz de ouvir e compreender, e não o que dita normas. Não é preciso um longo e penoso exercício de reflexão para reconhecer que nossos pastores também precisam ser pastoreados. Nossos ministros também precisam de alguém em quem possam confiar, com quem possam contar nos momentos difíceis que advêm sobre todas as pessoas, e também sobre os sacerdotes. Com quem contar? Para quem falar das dores que nos afligem a alma? É neste momento que a figura do bispo, do pastor, se reveste de uma singular significância. Saber que podemos “abrir o coração” e contar com um “Pai em Deus” que nos ouça e nos entenda é absolutamente fundamental para o exercício adequado e satisfatório do sacerdócio. Nada temos, conforme falamos, contra um bispo teólogo. Oro para que Deus nos dê muitos ainda. Contudo, em um tempo onde as verdades eram todas dadas e universalmente conhecidas fazia mais sentido se imaginar o bispo assumindo o ofício de “guardião da verdade”, ou seja, como alguém que, seguindo o trilho dos grandes bispos teólogos do passado, dedicavam sua atenção e esforço para preservar a pureza e uma certa interpretação da mensagem do Evangelho. O que vimos com o passar do tempo e com o incremento da modernidade é que alguns deste bispo deixaram de ser simplesmente “guardiões” da verdade para se tornarem em verdadeiros “critérios” da verdade. A verdade, então, deixou de ser algo “fora” deles para ser identificada com algo que está “dentro” deles, ou seja, suas próprias consciências e suas próprias opiniões. Não percebem tais bispos que ao identificarem a verdade com “suas interpretações da verdade”, eles rompem com um critério minimamente objetivo e encarnam a plena subjetividade que eles tanto odeiam e perseguem no movimento que chamam de pós-moderno-revisionista. Ademais, um bispo pastor pode se cercar de assessores na área da teologia e desempenhar um bom papel enquanto orientador de seu povo nas mais variadas questões. Contudo acreditamos que o contrário não é tão simples. Costuma ser difícil para um bispo-teólogo exercer o pastoreio de suas ovelhas sem assistir o surgimento de lacunas na confiança e no companheirismo. Durante todo o tempo em que fui presbítero da IEAB (12 anos), tive a oportunidade de conhecer quase todas as dioceses. Em duas delas observei bispos marcados pelo carisma do ensino; eram bispos-teólogos. Ví também bispos administradores, bem como bispos que faliram suas dioceses. É claro que minha experiência não é modelo para ninguém nem pretendo servir de parâmetro ou critério para ninguém. Mas foi conhecendo a ausência de um pastor que eu me convenci de que a igreja precisa mais do que nunca de homens que pastoreiem o rebanho. Estou efetivamente convencido que a expressão “pai em Deus” precisa ser revisitada e compreendida. A história deu-nos muitos bispos teólogos, mas foram os servos e pastores aqueles que mais marcaram as vidas e mesmo a sociedade e o mundo. A Igreja Universal não seria a mesma hoje sem um João XXIII, sem um D. Helder Câmara ou sem um Michael Ramsey. Todos homens inteligentes e bons teólogos, mas sobretudo, homens de piedade, de santidade e de coração aberto para pastorear o rebanho que Deus lhes deu. Que neste momento de mudanças de paradigmas, possamos romper com o paradigma moderno centrado na razão e no discurso e nos voltemos para bispos que tenham um coração largo. Do que precisamos hoje? Que perfil deveria ter aquele ou aquela que assumirá os destinos de nossas igrejas? Em minha singela opinião, a igreja de Deus precisa de pastores. Pastores que pastorem e que curem as feridas, que reconciliem as pessoas e que, em serviço e companheirismo, sigam conosco (presbíteros, diáconos e leigos) e ao nosso lado pelo caminho que que nos leve à convivialidade, inclusividade e compreensividade do anglicanismo. Administradores podem ser contratados, teólogos podem ser nomeados, mas pastores segundo o coração de Deus, homens que se doem pelo rebanho, esses são difíceis de serem achados. Oremos para que Deus faça nascer sempre pessoas com esse múnus extremamente difícil, mas igualmente necessário e imprescindível. Que Deus nos dê, sempre, pastores de almas!

 
 
 

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