Mal-Estar na Comunhão Anglicana
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 16 de abr. de 2018
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Padre Jorge Aquino
Como na obra de Zigmund Baumann, Mal-Estar da Pós-modernidade, o autor descreve uma luta entre a busca pela ordem em confronto com aluta pela liberdade (quase que uma releitura do binômio nietschiano apolíneo x dionisíaco), assim também, desde que começou o ano de 2018 que os Anglicanos ligados à Comunhão Anglicana vivem uma espécie de Mal-Estar. A grande questão é: haverá ou não a Conferência de Lambeth?
Antes de mais nada, é interessante conhecer um pouco da história. A Conferência de Lambeth é o nome dado à reunião de todos os Bispos pertencentes à Comunhão Anglicana, e que teve início em 1867. Alguns fatos são significativos. 1) Ela é sempre dirigida pelo Arcebispo de Cantuária em razão do fato de que ele é o Ordinário da Diocese Anglicana mais antiga; 2) Ela se reúne a cada decênio, sempre nos anos “8”; 3) Ela, durante todos esses anos, só foi cancelada duas vezes, e em razão das duas Guerras Mundiais; 4) Ela não tem caráter deliberativo – como a cúria Romana -, vez que cada Igreja Anglicana é autônoma, mas possui uma enorme autoridade moral.
As notícias acerca do cancelamento da Conferência de 2018 surgiram depois que a Bispa Presidente da TEC (The Episcopal Church – EUA), Katharine Jefferts Schori a anunciou em resposta à pergunta de um bispo presente na reunião da Casa dos Bispos da TEC que ocorreu em Taiwan. A grande questão é que a TEC – como uma das Províncias mais ricas da Comunhão – não estaria disposta a financiar a Conferência.
Diante da declaração feita pela Bispa Katharine Schori, o Arcebispo de Cantuária Justin Welby, vem tentando encobrir a dura realidade dos fatos. Em uma declaração pública, por exemplo, ao responder sobre o possível cancelamento da Conferência, ele disse que “Como ainda não houve uma convocação, não se pode falar em cancelamento”.
Ora este é o tipo de declaração que procura encobrir o sol com uma peneira. Se a Conferência acontece de dez em dez anos desde 1867, ela ocorrerá ou não em 2018? Um simples “sim” ou “não” resolveria tudo.
O dado concreto é que o atual clima de mal-estar na Comunhão Anglicana aponta para um cancelamento. Vejamos bem; mais de 200 bispos se recusaram a participar da Conferência em 2008, depois de ações da Igreja Episcopal (EUA) e da Igreja Anglicana no Canadá se afastando claramente da visão tradicionalmente Anglicana acerca da fé e da moral cristãs. Ao lado disso, há declarações recentes em que o Arcebispo Welby afirma que a Igreja Anglicana na América do Norte não faz parte da Comunhão Anglicana ainda que reconhecida pela maioria das Províncias. Seja como for, existem duas realidades que o Arcebispo Welby precisa reconhecer: 1. A divisão da Comunhão Anglicana já é uma realidade. 2. Vinte e três províncias (a maioria das 38 províncias da Comunhão Anglicana) já reconhecem a Igreja Anglicana na América do Norte. Essas províncias também representam a esmagadora maioria dos anglicanos ativos das igrejas do mundo. O fracasso do Arcebispo Welby em admitir ou reconhecer a situação de fragmentação, que já é real, por meio de suas inúteis tentativas de reconciliação, só fará prolongar o mal-estar da Comunhão Anglicana.
Na ultima Reunião dos Primazes (2-6 de outubro de 2017), somente 33 das 38 Províncias se fizeram presentes. Ficou decidido que os bispos encorajariam cada Província a contribuir financeiramente para a futura Conferência de Lambeth 2020 e que a ACNA não faz parte da Comunhão Anglicana – muito embora 23 das Províncias já possuam um relacionamento bilateral.
Duas outras questões adicionais podem ser colocadas: 1) As Igrejas Anglicanas Continuantes possuem espaço para voltarem ao “redil comum” de onde saíram na década de 1950 em razão das mesmas questões que trazem hoje este mal-estar à Comunhão Anglicana? e 2) O que deve ser feito com as Províncias que se engajaram com as mesmas posturas que geraram a divisão da Comunhão?
Estas questões, acredito, podem encontrar respostas tanto nas Escrituras, como na tradição, na razão e, associada a essas ferramentas, no diálogo das 23 das Províncias da Comunhão Anglicana que se mantêm unidas pelo Anglicanismo histórico, se utilizarmos uma aproximação mais habermasiana acerca do diálogo.


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