FENOMENOLOGIA E VERDADE
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 11 de jul. de 2016
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Rev. Padre Jorge Aquino
Quando se fala em “fenomenologia” a impressão que temos é que estamos tratando, conforme os manuais, àquela forma de pensamento que foi primeiramente esboçada por Edmund Husserl (1859-1938). Jacqueline Russ, por exemplo, ao definir “fenomenologia” nos diz: que ela é o “Estudo dos fenômenos ou de um conjunto de fenômenos; Husserl desenvolveu plenamente essa disciplina, como ciência rigorosa, operando uma volta às próprias coisas” (RUSS, 1994, p. 111). O próprio Husserl, citado por Russ (1994, p. 11) afirma que a fenomenologia pura é uma ciência dos fenômenos, mas que deve “estabelecer-se como uma ciência da essência, uma ciência a priori ou, como o diremos também, uma ciência eidética”. É preciso lembrar que a palavra eidético vem do grego, eidetikos, e diz respeito ao conhecimento do eidos, ou seja, da forma de algo em seu espirito, ideia ou essência. Os fenomenólogos preocupam-se em conhecer a essência das coisas.
Ao enfrentarmos o tema mais a miúde, veremos que antes de Husserl outros pensadores já refletiam sobre o tema. Dentre eles podemos citar Lambert, que em sua obra Neues Organon (1764) nos apresentou este termo para fazer a distinção entre verdade e aparência. Também Kant usa o termo para distinguir o mundo sensível do mundo inteligível, afirmando que somente temos acesso ao mundo sensível e que jamais conseguiremos acessar o mundo inteligível. Mais tarde, Hegel escreveria sua Fenomenologia do Espírito dizendo ser ela a “ciência que mostra a sucessão das diferentes formas ou fenômenos da consciência até chegar ao saber absoluto. A fenomenologia do Espírito representa, segundo ele, a introdução ao sistema total da ciência: a fenomenologia apresenta o ‘devir da ciência em geral ou do saber’” (MORA, 1998, p. 289).
Portanto, conforme se pode perceber, antes mesmo de Husserl o tema da fenomenologia já era discutido. E continuará sendo e obtendo novas leituras, por exemplo, nas obras de Heidegger, Scheler, Hartmann, Marcel, Sartre, Merleau-Ponty e Paul Ricoeur. Diante de tantas contribuições, é comum, hoje em dia, acrescentar um adjetivo à palavra “fenomenologia”, dizendo que ela pode ser uma fenomenologia transcendental (associada à autores como Husserl e seus seguidores); fenomenologia existencial (mais associado à autores como Sartre e Merleau-Ponty) e, finalmente, uma fenomenologia hermenêutica (Heidegger, Gadamer e Ricoeur). Estou convencido de que esta terceira forma de leitura da fenomenologia nos será mais útil, no momento.
Quando partimos para estudar o momento hermenêutico da fenomenologia, descobrimos três verdades – por exemplo em Heidegger – sobre as quais não podemos fugir. Elas nos são expostas por Giles (1993, p. 61) da seguinte forma: “1. Fazer ver, a partir de si mesmo, aquilo que se manifesta, tal como se manifesta efetivamente. 2. Para tanto, exige a volta para às próprias coisas. 3. É seguindo esse caminho que se encontram as possibilidades do caminho para o Ser, pois o Ser é aquilo que se oculta naquilo que se manifesta, mas constitui o fundamento de tudo o que se manifesta”.
A questão da fenomenologia dentro da obra de Heidegger pode ser vista claramente em seu principal texto: Ser e Tempo, no qual a questão do ser e o projeto de uma ontologia é expressa. Vejamos o que nos diz von Zuben sobre o assunto: “A intenção que preside, como um fio condutor, a todo o desenvolvimento da obra de Heidegger, e lhe confere uma perspectiva unificadora, se expressa na necessidade de reexaminar –repetir – a questão do sentido do ser em geral ou, mais precisamente, a questão da unidade do sentido do ser na multiplicidade de suas acepções. Se tal tarefa se impõe como função primordial da ontologia, é porque a questão do ser foi esquecida. ‘A questão do ser caiu, hoje, no esquecimento, embora nossa época considere como um progresso aceitar novamente a ‘metafísica’’ (HEIDEGGER, 1960, p.2). Esse tema do esquecimento do ser, que abre Ser e Tempo, já anuncia o binômio velamento-desvelamento como constituindo o ritmo interno do fenômeno ontológico, as duas possibilidades radicais da manifestação do ser. Com efeito, se o sentido do ser veio historicamente a ser esquecido – velado – é porque este, de si mesmo, comporta essa possibilidade. De outra parte, a referência à história da metafísica como história da ocultação do sentido do ser já antecipa o tema do tempo como horizonte onde o ser alternadamente se revela ou se dissimula” (In http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732011000200006).
Como sabemos Heidegger inicia seu Ser e Tempo a partir de uma crítica radical à tradição filosófica originada em Platão e que serviria de base para toda a metafísica ocidental – responsável pelo “esquecimento do ser” – e a tentativa de dar um novo sentido à filosofia por meio da retomada da ontologia como sendo algo mais fundamental e originário. Conforme exposto no texto de von Zuben, a questão do velamento/desvelamento do ser é, antes de mais nada, uma questão fenomenológica pois trata da possibilidade mesma de se ter acesso ao ser, cuja questão foi esquecida e substituída pela metafísica, que o ocultou seu sentido.
Ora, conforme sabemos, a crítica que Heidegger faz à tradição filosófica ocidental se funda no fato de ser ela, basicamente, essencialista, ou seja, uma tentativa de se chegar às realidades verdadeiras. O essencialismo confunde a ideia de ser e ente, o que acaba por dividir – como em Aristóteles – o ser entre substância e acidente. Essa inclinação para se classificar e categorizar o ser acaba por objetificá-lo. É justamente contra essa tendência majoritária na filosofia Ocidental que Heidegger se insurge, para superá-la. E isso só ocorrerá por meio da recuperação da ontologia.
Para superar esta tendência objetivante do ser que Heidegger procura trazer o ser à luz, estudando seu sentido enquanto uma manifestação e desvelamento. É preciso, então, uma análise ontológica e hermenêutica – ou seja, interpretativa – que seja capaz de chegar a uma compreensão (vestehen) do sentido, que revele “o ente que somos”, ou seja, o Dasein, ou o ser-aí. O único ente que busca o ser, segundo Heidegger, é o homem. Para tanto ele precisa, para poder efetivamente chegar ao Ser, empreender o que designa de “analítica do Dasein”, o único ente capaz de acessar o seu ser.
O termo Dasein surge no pensamento heideggeriano para substituir termos como “sujeito” ou o “eu”, em função do sentido de ser que é atribuído a esses termos na filosofia da consciência e na subjetividade moderna, tão própria das ideias de Husserl.
Desta forma compreendemos que a fenomenologia se apresentou para Heidegger como um meio para se alcançar o Ser por meio de uma analítica do Dasein. É nesse sentido que se afirma que, em Heidegger, a fenomenologia é ontológico-hermenêutica, já que por sua analítica podemos atingir uma compreensão dos aspectos mais essenciais do Dasein. Ademais, sua analítica do Dasein, foi utilizada por Heidegger para revelar fenomenologicamente, ou seja, como se manifesta, a retomada do ser-aí.
Como percebemos, o homem é o único ente do qual se pode extrair o sentido do ser o do qual a abertura do ser tem início. A primazia para este estudo é do homem, porque ele não qualquer ente. Ele é um ente que tem uma relação privilegiada com o ser. Nas palavras de Heidegger: “Este ente se caracteriza pelo fato de que, através do seu ser, o próprio ser lhe está aberto. A compreensão do ser é, ao mesmo tempo, uma determinação do ser do homem” (HEIDEGGER, In MONDIN, 1983, p. 188).
O homem é, desta forma, a porta de acesso ao ser, afirma Heidegger. Mas para se chegar a contemplar completamente o ser por meio do homem é preciso que nosso conhecimento esteja livre de todo engano ou erro. Para nos assegurarmos disso, explica Battista Mondin (1983, p. 188) precisamos questionar tudo o que acerca do homem já foi dito pelas ciências e aplicar a epoché – o isolamento de tudo o que não lhe é próprio para se atingir sua pureza – a todas essas informações. Desta forma, Heidegger está utilizando a fenomenologia husserliana, ou seja, ele quer partir do homem de fato, deixando que ele se revele, se mostre, tal qual é, e procura compreender sua manifestação.
E é por intermédio desse instrumento que Heidegger descobre que o homem é o ser-no-mundo, ou seja, afetado pelo “círculo de interesses, de preocupações, de desejos, de afetos, de conhecimentos, nos quais o homem se acha sempre imerso. Por este seu achar-se sempre colocado numa situação, Heidegger chama o homem de Dasein, ‘ser-em-situação’” (MONDIN, 1983, p. 188) ou ser-aí.
O ser-aí é sempre um ser-no-mundo, portanto que interpreta o mundo como fazendo parte dele. Sendo o ser, aquilo que se oculta naquilo que se manifesta, entendemos que essa verdade heideggeriana nos leva a uma hermenêutica circular já que ao olharmos para o mundo, olhamos para um quando do qual fazemos parte. Não existe, portanto, plena objetividade na aproximação hermenêutica e sim o império do ser na interpretação. Restam as palavras de Nietzsche: “não existem verdades, somente interpretações”.
Referências bibliográficas:
GILES, Thomas Ransom. Dicionário de filosofia. São Paulo: EPU, 1993
MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 1983
MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998
RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994
VON ZUBEN, Newton Aquiles. A fenomenologia como retorno à ontologia em Martin Heidegger. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732011000200006. Acessado em 10 de julho de 2016.


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