EVANGÉLICO OU REFORMADO?
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 23 de jul. de 2017
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Reverendo. Jorge Aquino
Às vezes tenho a impressão de que em nosso país as pessoas pensam a religião de uma forma binária; ou bem você é Católico Romano, ou bem você é Evangélico. É importante destacar que essa forma de raciocínio é extremamente limitada e limitante. De fato, reduzir um fenômeno tão rico como é a religião a apenas duas possibilidades, nos parece restringir demais toda as outras opções que se nos põe diante de nós.
Entes de enfrentar a pergunta que intitula essa breve reflexão, acredito firmemente que ter uma noção histórica sobre o tema seria de bom alvitre. Para tanto, iniciaria essa exposição dizendo que a expressão “evangélico”, é uma expressão bastante ampla. Ser evangélico significa estar em relação ao Evangelho ou de conformidade com ele. Neste sentido, todos os movimentos religiosos cristãos se consideram, obviamente, evangélicos.
No entanto, esta palavra tomou uma conotação mais séria e particular, a partir do século XVII. Particularmente na Inglaterra, e pela instrumentalidade de um ministro Anglicano chamado John Wesley, por meio de quem, surge dentro do seio do Anglicanismo, um movimento que seria conhecido como Metodismo, e que, mais tarde, transformar-se-ia, em uma denominação autônoma. Esta tendência que atingiu Wesley e inúmeros outros ministros em boa parte da Europa e Estados Unidos, ocorreu porque se verificou que os cristãos haviam se tornado nominais e, dessa forma, era preciso que, além de membros da igreja, cada um experimentasse uma conversão pessoal e passasse pelo “novo nascimento”. Esta ênfase cresceu fortemente em razão do chamado Grande Despertamento que ocorreu entre os séculos XVIII e XIX, com forte rebatimento e ênfase nas missões estrangeiras.
O que pode unir os evangélicos do mundo todo é uma dupla ênfase: a falta de interesse com os rituais da igreja e o destaque dado à espiritualidade pessoal (novo nascimento, santidade, leitura da Bíblia, evangelismo). Na realidade, há autores que encontram aqui, não dois, mas quatro elementos que caracterizariam os Evangélicos: (1) a necessidade de “nascer de novo” por meio de uma conversão pessoal à Jesus; (2) a necessidade da leitura regular da Bíblia; (3) a necessidade de reconhecer que Jesus morreu para remir seus pecados; e, finalmente, (4) a necessidade de compartilhar de sua fé com os perdidos. Retirando-se a primeira ênfase – que é uma aversão à liturgia -, acho que a espiritualidade evangélica (excetuando-se a ênfase no novo nascimento) é bastante interessante. Esse movimento, já bastante complexo, acabou sendo influenciado por outros movimentos religiosos.
O primeiro deles foi o Movimento Darbynista. Este movimento surgiu graças a um ministro Anglicano irlandês chamado John Nelson Darby, no século XIX. Ele desenvolveu uma interpretação bíblica literal segundo a qual, toda a história está dividida em “dispensações” e onde o “milênio” era interpretado literalmente. Dessa forma, criou-se uma nova escatologia que passou a ser conhecida como pré-milenismo dispensacionalista, segundo a qual, Jesus estava prestes a voltar, arrebatar a sua igreja, estabelecer a Grande Tribulação de sete anos na terra e, depois dela, voltar para fundar um Reino de mil anos que antecederia o juízo final. Estas teses se tornaram populares por meio da publicação de uma Bíblia com notas dispensacionalistas, feitas por C. Scofield.
Em seguida veio o Movimento Pentecostal que teve origem em Topeka – Kansas -, na pessoa de Agnes Ozman, e que enfatiza, além dos elementos próprios do Evangelicalismo, a necessidade de uma segunda experiência, distinta e subsequente à conversão (ou novo nascimento) e que tem como evidência externa falar em línguas (o batismo com o Espírito Santo). Às cinco ênfases anteriores, foi acrescentada, portanto, mais uma: o batismo com o Espírito Santo.
No início do século XX, nos Estados Unidos, surge uma série de panfletos chamados de The Fundamentals, e que procuravam defender as doutrinas fundamentais do cristianismo contra o chamado Liberalismo Teológico. Essas doutrinas fundamentais seriam: a inerrância das Escrituras, o nascimento virginal de Jesus, a ressurreição de Jesus e sua segunda vinda em glória. Lamentavelmente, o crescimento do Movimento Fundamentalista acabou por torna-lo um grupo mais radical, de tal sorte que, no caso da experiência coreana, por exemplo, o Dr Harold Hong, Presidente do Seminário Metodista de Seul, enumerou essa tendência radical como “o obscurantismo, a ética puritana, e o perfeccionismo sectário” (HONG, In CONN, 1973, p. 120). Não era incomum associar o fundamentalismo a um “neo-farisaísmo, puritano obscurantista”. Ao evangelicalismo, agora dispensacionalista e com tendências pentecostais, acrescenta-se, agora, um ar sectário de exclusivismo.
Em 1948, afirma Harvie Conn (1973, p. 133), “durante os atos inaugurais do Seminário Teológico Fuller, na Califórnia, o Dr. Harold Ockenga introduziu uma nova palavra no mundo teológico – ‘neo-evangelicalismo’”. Esta palavra procurava relacionar a nova etapa da teologia evangélica com o fundamentalismo do passado, enfatizando, ao mesmo tempo, um certo descontentamento com algo desse passado. Essa postura se espalhou pelos Estados Unidos (ver a revista Christianity Today), mas recebeu forte crítica de setores dispensacionalistas (Seminário Teológico de Dallas) e fundamentalistas (Universidade Bob Jones). O grande problema com o neo-evangelicalismo foi ter sido, desde o nascedouro, um movimento de antagonismo e não propositivo. Eis que agora surge um outro elemento do evangelicalismo: o reacionismo. Ser evangélico, portanto, é Não-ser algo, que no caso do Brasil, é não-ser católico romano nem – em momento algum – se parecer com ele em qualquer coisa.
Eis que no caso do brasileiro, os Evangélicos, agora associados à doutrinas dispensacionalistas e pentecostais, além do ar sectário e do reacionismo, passariam, e se associariam, – particularmente durante as décadas de 70-80 -, com o surgimento do movimento “Neo-Pentecostal”. Agora, não se está mais falando do “Batismo com o Espírito Santo” – como ocorreu com o Movimento de Renovação que varreu as igrejas evangélicas brasileiras na década de 1960 -, mas com o surgimento de uma série de doutrinas que fariam os primeiros Evangélicos se retorcerem nos túmulos. Primeiro houve uma fixação em guerrear contra o movimento conhecido como “nova era”, em meados da década de oitenta. Depois surge o movimento da “Batalha Espiritual”, incentivados pela leitura do livro Este mundo tenebroso. Nesse momento, acreditava-se que existiam demônios em toda a parte e que era preciso criar uma estratégia de combate para anular a influência desses demônios sobre nós. A década de 90 nos trouxe a paranoia do “dente de ouro” – que todos queriam ter -, a ênfase em demônios territoriais que deveriam ser enfrentados por uma preparação geo-espiritual, os livros de Kenneth E. Hagin (p.e. O nome de Jesus), prometendo que seríamos capazes de “criar” a realidade por meio da palavra proferida (Rehma) – e com isso, todos passaram a “profetizar” e a “declarar” o que Deus deveria fazer; veio também a chamada “Bênção de Toronto” com as pessoas desabando ao chão por causa da “unção” do ministro sacudindo seu paletó (é interessante ler o texto Bom dia Espírito Santo) e, depois, o bênção do riso, por meio da qual, a pessoa passava trinta minutos gargalhando e “se enchendo” da graça de Deus. Ao lado disso, as igrejas Neo-pentecostais (que o Dr. Paulo Siepierski prefere chamar de Pós-pentecostais), incrementaram o que se passou a chamar de Teologia da Prosperidade, na qual o cristão não pode passar por qualquer problema na vida e, se for fiel à Deus e dizimista, receberá uma casa própria (ou várias), um (ou vários) automóveis importados, lancha e vitória financeira. Hoje, é o somatório de todos esses elementos, o que torna alguém um Evangélico, ou, em respeito ao movimento iniciado por Wesley, um Pós-evangélicos. Apenas para esclarecer, a proposição “pós” é uma indicação de ruptura e sugere o surgimento de algo diferente do que existia no início. E eu não estou, sequer, me referindo ao aspecto político e ético da “bancada” evangélica no Congresso Nacional, que representa muito bem o comportamento moral evangélico médio em nosso país.
Pois bem, é por essas e outras – como o surgimento dos novos apóstolos que detêm a agenda de Deus e sabem ou determinam “quando” Deus vai operar milagres -, que me sinto muito a vontade para afirmar, peremptoriamente, que eu não comungo com essa postura. Eu não sou evangélico.
Sou um Cristão, Anglicano e Reformado. Sou Cristão, por acreditar que Cristo é meu Senhor e Salvador. Sou Anglicano, porque acredito que o ethos Anglicano, bem assim, sua teologia, liturgia e sua história, me acolhem em minhas idiossincrasias e circunstãncias. Sou Reformado porque no movimento iniciado no século XVI, ninguém tinha pretensões sectárias, ou seja, ninguém queria criar uma nova igreja. Sou Reformado porque o movimento da Reforma está alinhado com as principais doutrinas e Credos da Igreja indivisa. Sou Reformado porque dentro do movimento Reformado existe o espaço para se continuar evoluindo, se modificando ou se reformando, o que precisa ser mudado. Sou Reformado porque acredito que meus filhos, como filhos do pacto, não precisam “aceitar Jesus” para participarem do povo da aliança; eles já nasceram e foram criados como filhos do pacto, e por isso, foram batizados. Sou Reformado porque acredito que todos aqueles que estão ligados ao corpo de Cristo foram batizados em um só Espírito, e isso não implica em que eles precisem falar em um outra língua (seja ela extática ou dos anjos). Sou Reformado, porque os Reformados não são exclusivistas nem donos da verdade, mas estão abertos para o diálogo com todos os que confessam o cerne da mesma fé, conforme os três Credos históricos da Igreja. Sou Reformado, porque só a Escritura – e não a tradição – tem autoridade sobre o que devo crer; somente a graça de Deus – e não minhas obras meritórias – me leva até a presença de Deus; somente a fé – que é dom de Deus – pode me aproximar de Jesus e só Cristo é meu único e suficiente Salvador. Sou Reformado porque os Reformados mantêm o chamado “princípio protestante” que nega a absolutidade a qualquer realidade humana como a igreja, instituições, símbolos, autoridades ou pessoas. Positivamente, este princípio pode ser expresso, afirma Van A. Harvey, (1964, p. 198), na confissão de que a “graça não está ligada a nenhuma forma finita, que Deus é o poder inesgotável e o fundamento de todo ser, e a fé mais verdadeira é justamente aquela que, nela, possui um elemento de auto-negação, vez que aponta para além dela mesma, mas para aquilo que é realmente ultimo”. Finalmente, sou Reformado porque aqui a Teologia da Cruz – e não a teologia da glória, da vitória, da conquista ou do êxtase – possui a preeminência. É na cruz que encontramos o “Deus conosco” e é por meio dela que nossa vida assume sentido. Sim, “eu amo a mensagem da cruz; té morrer, eu a vou proclamar!”.
Referências bibliográficas:
CONN, Harvie M. Teologia contemporanea en el mundo. Grand Rapids: TELL, 1973
HARVEY, Van A. A handbook of theological terms. New York: The Macmillan Company, 1964
HENDRIKSEN, Guillermo. El pacto de gracia. Grand Rapids: TELL, 1985


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