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Diversidade, Fundamentalismo e Tolerância

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 28 de jul. de 2016
  • 3 min de leitura

tolerancia

Rev. Padre Jorge Aquino 

Apesar de todas as experiências de convivência com culturas diferentes, foi somente no surgimento da Idade Moderna que o chamado “velho mundo” experimentou, em larga escala, sua dificuldade de conviver com o diferente. Isso ocorreu com a confluência de três grandes fatores: os grandes descobrimentos, o renascimento e a crise religiosa. O primeiro fator fez com que os europeus percebessem que eles não eram os únicos habitantes do mundo e que haviam inúmeras sociedades e culturas extremamente diferente da deles; o segundo fator fez com que o europeu acreditasse que sua cultura era superior às das colônias e que elas deveriam aceitar todos os valores do centro do poder; o terceiro fator foi a Reforma protestante que cindiu a alma da cultura europeia e que levou para as colônias os mesmos conflitos religiosos e, portanto, a não aceitação das religiões autóctones. Em resumo, de repente o mundo se descobriu como um pluriverso e não um universo. A diversidade estava em todo lugar. Nas palavras do articulista Sáez Ortega (In VILLA, 2000, p. 736), “o aparecimento de novos mundos caracterizados pela heterogeneidade cultural – o bárbaro é substituído pelo selvagem, – a construção de Estados autoritários e centralizados, que pretendem uniformidade étnica e religiosa de seus súditos, pelo uso de instrumentos inquisitórios etc., são fenômenos por intermédio dos quais emergem as contradições que dariam lugar à formulação da idéia moderna de tolerância” (sic).

Uma vez aceita a realidade de que a diversidade é a regra neste Novo Mundo que se abre, descobrimos que o mesmo movimento que procurou promover o respeito entre as diversas culturas – como aconteceu com a publicação de Cartas Persas de Montesquieu – também promoveu a tese de que a religião deveria sucumbir à razão. E em reação à ditadura da razão e contra o modernismo teológico, surge entre os Presbiterianos e Batistas dos Estados Unidos, no início do século XX, um pequeno jornal que defendia o que eles chamavam de The fundamentals. Com o passar do tempo, já em meados do século XX, a palavra “fundamentalista” passou a ser utilizada para definir toda espécie de radical religioso. Em geral podemos afirmar que os fundamentalistas são: politicamente conservadores, intelectualmente impermeáveis a novas ideias, socialmente intolerantes e hermeneuticamente convencidos que possuem a única interpretação verdadeira sobre Deus e a realidade. Lamentavelmente, nos últimos anos estamos vendo o incremento do fundamentalismo em várias religiões, mas, principalmente no islamismo – por meio do Estado Islâmico – cometendo as mais horrendas atrocidades em nome da religião e contrariando o ensino do próprio Corão.

O que não podemos esquecer é que, como dizia Leonardo Boff, “a religião é a alma da cultura”, e ela não pode deixar de ser levada em conta quando o assunto é tolerância. Por isso, para o ilustre pensador cristão Hans Kung, “Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões” (KÜNG, 1992, p. ). E, por via de consequência, não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais. Nosso planeta não sobreviverá sem um etos global, ou seja, uma ética para o mundo inteiro. Estamos, portanto, diante da necessidade de um diálogo religioso-político-social que seja capaz de criar uma ética global que contemple e respeite a toda a diversidade que essa sociedade multicultural do terceiro milênio compreende.

Somente uma ética que assegure o direito e o respeito à diversidade conseguirá criar um ambiente de tolerância. Para Marcelo Andrade, “em sociedades multiculturais e marcadas pelo preconceito e pela discriminação de vários tipos – racismo, sexismo, xenofobia, homofobia, etc. – a tolerância para com o diferente apresenta-se como uma agenda mínima, urgente e extremamente necessária (ANDRADE, www.novamerica.org.br). Lamentavelmente, a ausência de tolerância foi a responsável por inúmeros casos de limpeza étnica, perseguição política e discriminação por questões religiosas ou por condição sexual. Não podemos mais conviver com isso. Impossível, portanto, esquecer o ensino de Mahatma Gandhi, quando afirma: “A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos”.

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Marcelo. Violência, tolerância e diferença. In www.novamerica.org.br, acessado em 20 de junho de 2016.

KÜNG, H. Projeto de Ética Mundial: Uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Edições Paulinas, 1992

VILLA, Mariano Moreno. Dicionário de pensamento contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2000

 
 
 

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