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DEZ ANOS SEM O BISPO ROBINSON CAVALCANTI

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 26 de fev. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 1 de mar. de 2022

Rev. Padre Jorge Aquino.

Dentre todas as pessoas e mestres que pude conhecer nas academias e mesmo na vida, não creio que outra pessoa tenha me influenciado mais do que o bispo Robinson Cavalcanti (1944-2012). Hoje faz dez anos que ele não está mais entre nós.

Quando eu o conheci tinha cerca de 16 anos. Foi em um evento no qual ele iria discorrer acerca da fé cristã e a política e, ao final, oferecia seu livro Cristianismo e política à venda. Tudo isso ocorreu em uma igreja batista em Natal. Desse dia em diante nunca mais deixei de ler e estudar os textos desse presbítero anglicano.

Quando fui para Recife, estudar no Seminário Presbiteriano do Norte, tive a oportunidade de criar um grupo de estudos com ele e outros estudantes, que se reunia, todas as quartas-feiras, na paróquia da Santíssima Trindade, paróquia dirigida pelo reverendo Paulo Garcia. Dentre os colegas de estudos lembro de Edson Pimentel e Francisco de Assis. Àquele tornou-se diácono e este ultimo seria sagrado bispo e, mais tarde, ocuparia o cargo de primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

Minha relação com ele se aprofundou muito. Tanto que, todas as quartas, depois dos estudos, ele me levava até sua casa em Olinda e conversávamos até a madrugada sobre teologia e, onde tive a alegria de conhecer sua querida esposa Miriam, que sempre me acolheu com extrema gentileza e me preparava um lugar para dormir que sempre ficava perto da biblioteca de Robinson. Pela manhã, depois do café, ele me levava até o Seminário, antes de ir até a Universidade Federal de Pernambuco, onde ensinava no curso de Ciências Políticas.

Minha proximidade com as ideias de Robinson acabaram me aproximando também do anglicanismo. Em 1990, mesmo depois de ser ordenado pastor presbiteriano, eu utilizava o Livro de Oração Comum Anglicano como modelo para os cultos dominicais e para os matrimônios que celebrava. E fazia isso com muita tranquilidade, vez que o próprio Ashbel Green Simonton – fundador do presbiterianismo no Brasil - também fazia em seu trabalho com marinheiros no Rio de Janeiro.

Sete anos depois, já não conseguia mais continuar no presbiterianismo e, uma vez que Robinson havia sido sagrado bispo na Igreja Anglicana, me transferi para a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

Novamente passamos a nos encontrar com regularidade. Agora em uma casa de praia em Pau Amarelo, onde um grupo de egressos de várias denominações se preparavam para receberem as ordens anglicanas. Sempre passávamos aqueles dias em comunhão íntima com nosso bispo e com os projetos e sonhos que compartilhávamos.

Uma vez assumindo as ordens anglicanas, liderei a Missão da Natividade em Natal, a Missão Jesus Cristo Libertador em João Pessoa, fui nomeado Arcediago da região norte da Diocese do Recife - o que me fazia ir mensalmente até Fortaleza, onde tínhamos uma pequena comunidade - e também assumi a Reitoria do Seminário Anglicano de Estudos Teológicos por sete anos.

Durante esse período, tive a oportunidade de fazer várias viagens com o bispo Robinson. A mais representativa e marcante delas, além de todos os encontros que envolviam a JUNET (Junta de Educação Teológica) em Porto Alegre, foi a que fizemos para o Quênia, para um encontro da EFAC.

O bispo Robinson Cavalcanti sempre exerceu uma enorme influência sobre minha formação teológica e intelectual. Em primeiro lugar, com ele aprendi que o debate sobre a questão da inerrância das Escrituras era algo que não chegaria a lugar algum, uma vez que, mesmo que a Bíblia fosse inerrante, seus leitores sempre seriam “errantes” em sua forma de interpretar. Portanto essa questão subjetiva no esforço hermenêutico, sempre me foi caro. O que subjaz a esta exposição, é sua crítica sempre severa ao fundamentalismo – particularmente àquele revelado no Bible belt.

Em segundo lugar, uma outra esfera em que fui extremamente influenciado pelo bispo Robinson ocorreu na esfera da presença das ciências humanas como instrumentos acessórios para se interpretar as Escrituras. Com ele aprendi que não podemos estudas as Escrituras sem, ao lado do texto bíblico, fazer uso de ciências como a sociologia, a política, a antropologia, a filosofia e a história. Sempre levei muito à sério essa lições.

Em terceiro lugar, com ele aprendi muito sobre a identidade anglicana. Ele nos ensinou que ser um anglicano evangelical não era a mesma coisa que ser um batista, assim como ser um anglo-católico não é a mesma coisa que ser um católico-romano. Muito embora existissem tendências dentro do anglicanismo, a liturgia anglicana fazia a diferença e identificaria quem era e quem não era realmente anglicano. Por isso, me envolvi em embates dentro da DAR pela defesa da tradição litúrgica anglicana tanto com setores evangelicais extremistas como com extremistas anglo-católicos. Algo que sempre achei estranho em muitas paróquias era encontrar pessoas que se diziam anglicanas mas que nunca haviam visto o Livro de Oração Comum.

Um quarto elemento que recebi do bispo Robinson, foi a importância de nos envolvermos com a sociedade na qual vivemos. Por isso me envolvi, desde 1988, em campanhas políticas e na luta pela defesa dos Direitos Humanos. Estes são apenas quatro das inúmeras marcas que acabei recebendo do bispo Robinson. Ainda hoje lembro da grande foto do Reverendo Martin Luyher King que o bispo Robinson tinha em seu escritório e que sempre representou um modelo de comportamento diante da sociedade.

Como consequência de sua formação jurídica e de cientista político, em quinto lugar, o bispo Robinson foi um apoiador de primeira hora, do projeto de lei de Marta Suplicy, que postulava a união civil entre pessoas homoafetivas. Esta posição era bastante interessante porque, apesar desta postura extremamente aberta na esfera civil, ele assumia uma postura contra o matrimônio de pessoas homoafetivas na esfera religiosa.

Depois da Conferência de Lambeth de 1988, no entanto, o bispo Robinson assumiu uma forte postura contra a presença de pessoas homoafetivas no clero da Diocese do Recife - DAR. Os debates girando em torno desta questão (principalmente depois da sagração do primeiro bispo declaradamente gay da Igreja Episcopal – anglicana - dos Estados Unidos) se agudizou e fez com que ele passasse a escrever inúmeros textos acerca do tema e procurasse fazer com que a DAR assumisse como sua as recomendações de Lambeth.

Quando, em 2003, a DAR assumiu que as recomendações de Lambeth teriam validade canônica compulsória e que as ordenações de pessoas homoafetivas seriam proibidas, resolvi – por uma questão de coerência – entregar a Missão da Natividade ao Ordinário Diocesano, me afastar do bispo Robinson e me transferir para a Diocese do Paraná. Desse momento em diante, nossa relação esfriou e se ateve apenas a questões formais, que envolviam, por exemplo, encontros que ele fazia em minha cidade e na qual eu estava presente.

Na madrugada da segunda-feira, dia 27 de fevereiro de 2012, meu telefone tocou. Do outro lado estava o presbítero Carlos, da igreja presbiteriana. Ele me pediu para sentar e ligar o computador. Ainda bem que estava sentado, uma vez que me senti literalmente sem chão quando soube que Robson e Miriam haviam sido barbaramente assassinados pelas mãos de seu filho, Eduardo – que eu conhecia desde a infância. Não conseguir sair de casa naquele dia. Liguei para a faculdade e avisei que não poderia ir trabalhar; estava abalado. Nos dias que se seguiram, lembro de ter ligado para o reverendo Miguel Uchoa, para registrar meus pêsames e explicar minha ausência no rito fúnebre.

O tempo passou e, confesso, ainda hoje, sinto que existe um enorme vácuo na esfera religiosa nacional de pessoas que tivessem a profundidade cultural e o conteúdo intelectual tão sagaz que ele tinha. Realmente sinto falta de seu bom-humor, de sua crítica ácida e inteligente e de seus sonhos sobre o futuro da igreja e da sociedade. Inequivocamente, a perda do bispo Robinson Cavalcanti – um homem que tinha inúmeros defeitos e inúmeros equívocos intelectuais -, representou também uma imensa perda para a intelectualidade e para a inteligência do cristianismo brasileiro.



 
 
 

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