DEUS ESTÁ VIVO OU MORTO EM SUA FAMÍLIA?
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 24 de mai. de 2016
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Revdo. Pe Jorge Aquino
Quando falamos sobre a morte de Deus, inevitavelmente as pessoas se reportam à figura do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O que a maioria das pessoas não entendem é que, quando ele fala da morte de Deus, ele não está se referindo a uma espécie de “deicídio”, ou seja, a alguém que deu um tiro ou esfaqueou Deus enquanto ele estava cochilando em seu trono.
Falar da “morte de Deus” é falar de um gesto que “eu” e “você” podemos fazer diariamente. Somos nós quem matamos Deus. Mas, como assim? Devemos nos lembrar que na época de Nietzsche o positivismo de Comte declarou a substituição da religião pela ciência, e, desta forma, afirmou o fim de todo e qualquer absoluto que esteja fora ou independente das provas científicas – e isso inclui Deus. A ciência assumiu a absolutitidade e assentou-se no trono de Deus, exigindo adoração. As pessoas continuaram mantendo sua religião, mas seus valores primordiais mudaram. É desta forma que “matamos Deus”. Nós o matamos quando o relativizamos ou quando o utilizamos para justificar uma sociedade de consumo e instrumentalização e descarte do “outro”, bem como o estabelecimento e ampliação do grande vazio (o nada) moral de nosso tempo, ou seja, o niilismo. O que é o niilismo? É a desvalorização de todos os valores mais básicos e fundamentais – como o amor, a verdade e a justiça – e a instauração do nada.
Olhe para nossa Câmara de vereadores, ou para o Senado Federal, ou mesmo para os Tribunais de Justiça. Em todos eles você poderá encontrar um crucifixo na parede. Mas, pergunto: será que o que é discutido e decidido ali é de encontro com a vontade de Deus? Se não, Deus está morto. Não adiante o presidente do Senado iniciar a sessão dizendo: “Em nome de Deus….”, etc. Estas são palavras vazias ditas por homens que não têm qualquer compromisso com os valores do Reino de Deus. Deus, para eles, é o capital, o dinheiro, a “grana que ergue e destrói coisas belas”. Esse é o deus deste mundo! O nome dele é Mamom.
Mas, e em nossas famílias? Deus está vivo ou morto? Estará vivo se os pais levarem a sério a educação ética, moral e espiritual de seus filhos e ensinarem os princípios e os valores do Reino de Deus: “amá-lo acima de todas as coisas e ao próximo, como a si mesmo”; a justiça e a verdade como compromissos morais e sociais e o perdão e a misericórdia como compromissos com as pessoas.
Doutra sorte, lamento informar, mas se você ensina a seus filhos que mentir e roubar é normal, se a violência é algo valorizado em sua família, se o consumo é fundamental, se é preciso ter sempre mais e melhor, se temos de jogar fora o que ainda funciona apenas porque a moda nos impõe esse modelo de vida, se você tem tempo para tudo na vida, mas não consegue parar por apenas 20 minutos por semana, repito, 20 breves minutos por semana, para simplesmente orar com sua esposa e filhos, você está matando Deus em sua família.
O que fazer? Ore com seus filhos. Agradeça a Deus pelo alimento de cada dia. Leve seus filhos à comunhão eucarística e comungue em família. Preocupe-se com a formação religiosa de seus filhos. Não faça como alguns discípulos fizera, impedindo as crianças de chegarem até Deus. Deixai ir a Ele às criancinhas. Mostre você mesmo o caminho, por palavra e exemplo. Cito as palavras do casal André e Rita Kawahala: “A família precisa ser. Este é o apelo profético de todos os que ainda acreditam nesta instituição no meio do deserto do individualismo, do egoísmo, da mentira, da injustiça e da tribulação do início do terceiro milênio. (…) Ouso dizer que a família tem de ser a fonte de um amor-doação sem limites; uma escola do perdão incondicional; a origem da verdade que cura e liberta; a testemunha executora da justiça que promove o bem e destrói o mal; e a transmissora de uma paz perseverante que tranquiliza a humanidade” (KAWAHALA, 2008, p. 135).
Estou certo que alguém poderá me chamar de démodé, ou seja, antigo, velho e fora de moda. Mas, na realidade, nunca fui de seguir as “outras” como faz Maria. Prefiro as orientações do ilustre psicólogo Merval Rosa quando afirma: “A religião, quando adequadamente praticada, pode funcionar como importante fator de integração da família. Ela é capaz de conservar o sabor e a vitalidade das relações familiares que tornam mais provável a permanência da família. (…) Se queremos preservar a família, portanto, devemos dar a Deus o lugar de relevância que ele merece no seu seio” (ROSA, 1979, p. 155).
Quem concorda com Merval Rosa sobre o papel da religião no casamento é o Casal Mark e Grace Driscoll, quando, citando várias pesquisas científicas realizadas em Universidades americanas, afirmam (2012, p. 85): “Casais que vão regularmente juntos à igreja são menos propensos a se separar ou a se divorciar, que é o resultado mais comum da separação. Casais que ‘frequentam cultos religiosos correspondem a apenas cerca da metade dos processos de separação’. Além disso, a taxa ‘de dissolução conjugal (divórcio) é 2,4 vezes maior entre os casais em que nenhum dos parceiros frequentam cultos religiosos, do que entre os casais em que ambos comparecem toda semana’. Um estudo revelou que casais que frequentam a igreja juntos, regularmente, tinham cerca de 35% menos probabilidade de se divorciar, em comparação aos casados que raramente ou nunca frequentavam cultos religiosos”.
Encerro com as palavras fortes e incisivas de Soren Kierkegaard, um dos maiores filósofos do século XIX, que afirmou: “Louvado seja o casamento, louvado seja todo aquele que o exalte! O que afirmo não é nenhuma nova descoberta, pois seria bastante difícil encontrar novidade que se refira à mais velha instituição do mundo” (KIERKEGAARD, In CHARBONNEAU, 1985, p. 9).
Referências bibliográficas
CHARBONNEAU, Paul-Eugène. Sentido cristão do casamento. São Paulo: Loyola, 1985
KAWAHALA, André & KAWAHALA, Rita. Encontros para novos casais. São Paulo: Paulinas, 2008
MARK, Driscoll & GRACE, Driscoll. Amor, sexo, cumplicidade e outros prazeres a dois. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012
ROSA, Merval. Problemas da família moderna. Rio de Janeiro: JUERP, 1979


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