DESENVOLVIMENTO, ESTRUTURA E TRADIÇÃO DA SUCESSÃO APOSTÓLICA
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 7 de out. de 2019
- 3 min de leitura

Reverendo Padre Jorge Aquino.
Conforme sabemos, à medida em que o Cristianismo se espalhava pelo mundo ao redor do Mediterrâneo, os apóstolos chamados por Cristo e que estavam à frente das comunidades, se viram com a necessidade de buscar “ajudantes” ou “colaboradores”. Muitos destes que deram início a novas igrejas, são citados no Novo Testamento. Neste momento, é imperativo que se relembre que a distinção entre “presbíteros” e “bispos”, ainda não existia.
Ora, considerando que alguns dos apóstolos acabaram sofrendo o martírio e que outros se aproximavam do fim de suas vidas, seria natural imaginar que eles, de alguma forma, pensassem em alguém que desse continuidade ao seu ministério. Assim, a ideia de uma sucessão parecia ser algo lógico. Além da questão que envolvia a idade dos apóstolos, eles se preocupavam com as ameaças de divisões e cismas, que estava surgindo no seio da Igreja, o que reforçava a ideia de que deveria existir pessoas que refutassem essas heresias e dessem continuidade à missão da Igreja.
É nesse momento que surge a Tradição (paradosis) acerca da Sucessão Apostólica. Quando falamos em paradosis, estamos indo muito mais além do que apenas nos referindo a um processo pelo qual comunicamos, ou passamos adiante, palavras ou doutrinas. Para a Igreja Apostólica – e para setores significativos do Anglicanismo moderno –, “Tradição representava toda a vitae cristiana, ou seja, a crença, a ética, o culto, ‘o Caminho’, da vida cristã, a norma de fé e prática” (QUIROGA, sd, p. 3). Assim, o conceito de “Tradição” pode ser visto em escritos do próprio Novo Testamento. Como, por exemplo, quando Paulo – referindo-se à Santa Eucaristia -, diz: “Porque eu mesmo recebi do Senhor o que também transmiti (no grego paredoka) a vos” (I Co 11: 23). Outro texto significativo que aponta para o próprio núcleo do kerigma cristão – ou seja, da mensagem cristã -, diz que o que transmitiu entre os coríntios, foi a mensagem do Cristo crucificado e ressuscitado, ou seja, o que ele mesmo havia recebido: “que o Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Pedro e, depois, aos doze” (I Co 15: 3).
Desta forma, o “acontecimento” cristão não é algo aprisionado ao passado, mas algo que se comunica de pessoa para pessoa, de comunidade para comunidade, de geração para geração. Isso é Tradição. É importante registrar que para o Anglicanismo a Bíblia – não a Tradição – é a suprema autoridade naquilo que pode ser visto como “necessário para a salvação”. É claro que o que não é necessário, mas contingente, pode ser objeto daquilo que chamamos de questões adiáforas ou indiferentes.
Não é sem propósito que o Cônego Anglicano F.W. Dillistone sugere existir três conceitos de “Tradição” em relação às Escrituras. Para a Igreja Católica Romana, a Tradição é independente das Escrituras, por isso ela cria novos dogmas próprios tais como o da “Imaculada Conceição” (1854), o da “Infalibilidade Papal” (1870) ou o da Assunção de Maria” (1950). Para os protestantes, por seu turno, a Escritura é independente da Tradição, e por isso, para interpretá-la, é preciso confiar na iluminação interna do Espírito Santo. Por fim, para o Anglicanismo, compreende-se que as Escrituras e a Tradição são interdependentes. Isso significa que, muito embora a Tradição tenha se encarregado de “produzir” as Escrituras – e de estabelecer seu cânon -, não obstante, tudo aquilo que não tem o aval da Escritura, não tem autoridade para a Fé Cristã. Portanto, os Anglicanos compreendem que a Tradição, juntamente com o emprego da Razão e da experiência humana, são instrumentos importantes e inalienáveis para se interpretar adequadamente a Escritura.
De volta ao tema, percebemos que são os apóstolos aqueles que efetuam o processo de sucessão na Igreja primitiva. É por isso que Timóteo e Tito recebem a imposição das mãos dos apóstolos transmitindo autoridade para exercer o ministério, refutar os erros que surgem em cada comunidade e escolher novos presbíteros e diáconos para, juntamente com eles, guardarem o depósito da fé. Dentre os escritores antigos, Clemente romanos e Tertuliano também testificam da sucessão. Mas é em Irineu de Lyon que encontramos seu mais explícito defensor e expositor.
Por fim, entendemos que a genialidade do Anglicanismo reside em se manter na condição de fiel da balança entre a Tradição e a inovação. O que ocorreu foi que, o Anglicanismo eliminou os excessos e práticas que foram sendo agregas à Igreja durante a Idade Média, ao mesmo tempo em que supriu aquilo de que faltava à Reforma. O Anglicanismo, assim, preservou o essencial do Cristianismo histórico, como os sacramentos, os credos, o tríplice ministério e a forma litúrgica cultual, ao mesmo tempo em que se alimentou do que a Reforma oferecia, ou seja, o livre exame das Escrituras, a promoção da leitura e meditação das Escritura e a celebração do culto religioso na língua do povo e o fim do celibato obrigatório.


Comentários