DA ARQUEOLOGIA DO SABER EM FOUCAULT
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 18 de mai. de 2016
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Revdo. Pe Jorge Aquino
Escrever sobre Foucault é um prazer e, simultaneamente, um desafio. É um prazer pela originalidade de sua obra e um desafio porque sua profundidade não pode ser resumida em um texto com poucas laudas, como é meu interesse. Pensando nisso, resolvi trabalhar apenas um dos temas fulcrais do pensamento foucaultiano, qual seja, sua arqueologia do saber.
Michel Foucault (1926-1984) foi um dos mais influentes e amplos pensadores franceses do século XX. Sua obra tangenciou tanto a filosofia quanto a psicologia, a história, a sociologia e o direito. Rotulá-lo como estruturalista, pós-estruturalista ou existencialista, não bastava. Ele simplesmente fugia a todas essas rotulações. Ele mesmo se considerava apenas um “historiador dos sistemas de pensamento”. Ele foi o responsável por significativas mudanças em temas tradicionais como a verdade, o poder, a história e a moralidade.
Foucaut, como enfim todos os demais pensadores da época, foram fortemente influenciados pelas obras de Sartre e Heidegger. Não é sem propósito que Paul Strathern (2003, p. 16) registra que: “Na época, a filosofia de Heidegger era assunto de profundos debates nos cafés da margem esquerda do Sena. A desilusão do pós-guerra e um desespero com os valores tradicionais promoveram uma adesão entusiasmada ao existencialismo de Jean-Paul Sartre, ele mesmo influenciado por Heidegger. O existencialismo de Sartre era basicamente subjetivo e acreditava na ‘existência antes da essência’. Não havia algo como essência humana ou a subjetividade. Essa essência nós mesmos a havíamos criado pela maneira como existíamos, fazíamos as nossas escolhas e agíamos no mundo. Além disso, nossa subjetividade não era nenhum elemento constante, aberto a uma definição estática e limitante. Estava sendo criada continuamente, evoluindo constantemente como resultado da vida que levávamos”. As teses sartrianas sobre a inexistência de uma “essência” humana, estará presente nas obras de Foucault, principalmente em As palavras e as coisas.
Segundo registra Paul Strathern (2003, p. 36) quando Foucault fala em “arqueologia”, “ele pretende a exumação das estruturas de conhecimento ocultas que dizem respeito a um período histórico particular. Isso consiste dos pressupostos e preconceitos (literalmente, pré-juízos), em geral inconscientes, que organizam e delimitam objetivamente o pensamento de qualquer época”. É claro que não estamos diante de uma proposta epistemológica – que tem a ver com ciência – feita por Foucault, mas de uma forma de saber.
O que Foucault fez foi se servir de uma palavra da peleontologia para descrever o processo de escavação e de buscas do sentido de uma categoria, uma palavra ou uma ideia, expondo sua colocação nos estratos da história e as mudanças que ocorreram com o passar do tempo. Segundo Machado (In YAZBEK, 2012, p. 40) “a arqueologia tem por objetivo descrever conceitualmente a formação dos saberes, sejam eles científicos ou não, para estabelecer suas condições de existência, e não de validade, considerando a verdade como uma produção histórica cuja análise remete a suas regras de aparecimento, organização e transformação no nível do saber”. Percebe-se claramente que, ao desvincular-se da verdade, a arqueologia pretende ser uma crítica “à própria ideia de uma racionalidade global e unitária” (YAZBEK, 2012, p. 40) o que, no fim das contas, implica em uma crítica ao próprio sujeito racional.
Ao se referir a este “conjunto de pressupostos, preconceitos e tendências que estruturavam e delimitavam o pensamento de qualquer época em particular” (STRATHERN, 2003, p. 36, 37), Foucault a denomina de episteme – palavra de origem grega que significa “conhecimento”. É interessante notar que no mesmo momento em que Foucault fala em episteme, do outro lado do Atlântico, Thomas Kuhn cria a ideia similar de paradigma. Cada período histórico, portanto, terá seu próprio conjunto de valores e ideias que são chamados por ele de episteme.
Um segundo elemento fundamental no estudo da arqueologia foucaultiana, e consequência lógica do primeiro tema, é a noção de discurso. Para o lustre pensador Paul Strathern (2003, p. 37), “A episteme determina os limites da experiência do período, a extensão de seu conhecimento e até sua noção de verdade. Uma determinada episteme tende a originar uma determinada forma de conhecimento. Foucault chamou-a discurso, isto é, a acumulação de conceitos, práticas, declarações e crenças produzidas por uma determinada episteme”. Desta forma é possível dizer que cada período da humanidade tinha uma episteme diferente, que produzia um discurso igualmente diferente e que só seria conhecido por meio de um processo arqueológico para chegar e atingir esta episteme.
Como vemos, as epistemes mudaram ao longo do tempo e, em função disso, também mudaram os discursos. É por isso que uma “arqueologia” é necessária, “para desenterrar tanto os limites quanto as condições do modo como as pessoas pensavam e falavam em tempos antigos” (VÁRIOS, 2001, p. 302). Por isso não podemos supor que a noção que temos, por exemplo de “ser humano” seja a mesma em todas as épocas da história. Um exemplo de criação de discurso, nos é dado por ROHMANN (2000, p. 168) quando diz que “para Foucault, o principal exemplo de tal mudança na história ocidental ocorreu no Iluminismo do século XVIII, quando o culto à razão gerou modelos do que é ‘normal’ segundo princípios supostamente racionais que eram, na verdade, tão arbitrários e tão repressivos quanto as autoridades que substituíram”.
A conclusão lógica que retiramos do pensamento foucaultiano é que a verdade não é uma realidade sólida, mas fluida e mutante, amoldando-se à cada realidade histórica e social relacionando-se, basicamente, com o poder. Na base desse pensamento é possível encontrar a figura de Kant, que operou o que foi chamado de “revolução copernicana” no pensamento, fazendo a filosofia “abandonar a velha questão ‘Por que o mundo é como é?’ para fazer a pergunta ‘Por que vemos o mundo do modo como vemos?’” (VÁRIOS, 2001, p. 303). Suas três análises arqueológicas mais conhecidas são: sua História da loucura, onde ele demonstra que a relação entre razão e loucura não pode ser encontrada na esfera de uma teoria médica, jurídica ou psiquiátrica, e sim, em critérios sociais e discursivos; em O nascimento da clínica, onde ele abdica do mero critério epistemológico de cientificidade para buscar o somatório do discurso médico, bem como suas ações não verbais, por meio das quais se fala enfaticamente sem nada dizer; e, finalmente, em As palavras e as coisas, onde ele, discutindo o surgimento das ciências humanas, opondo os saberes clássicos às ciências modernas, demonstrava como a “episteme moderna introduz nas coisas uma dimensão de interioridade, e o homem aparece sobre o fundo de sua própria finitude” (ROUANET, In YAZBEK, 2012, p. 43.). Por isso Foucaut confessa: “No fundo, talvez eu não passe de um historiador das idéias, mas envergonhado ou, se quiserem, presunçoso. Um historiador das idéias que quis renovar inteiramente sua disciplina; que desejou, sem dúvida, dar-lhe o rigor que tantas outras descrições, bastante próximas, adquiriram recentemente; mas que, incapaz de modificar realmente a velha forma de análise, incapaz de fazer com que transpusesse o limiar da cientificidade (…), declara, para iludir que sempre fez e quis fazer outra coisa. (…) Eu não teria o direito de estar tranqüilo enquanto não me separasse da ‘história das idéias’, enquanto não mostrasse em que a análise arqueológica se diferencia de suas descrições” (sic) (FOUCAULT, 2002, p. 156).
De que forma, então, podemos falar com propriedade sobre verdades e, sobre tais “verdades”, julgar e condenar pessoas, ou ao menos dizer o que é e o que não é certo? Afinal com Wilhelm Dilthey (1833-1911) aprendemos que toda verdade tem uma história e com o bispo Anglicano Robinsom Cavalcanti (1944-2012) aprendemos que aquilo que hoje é tradição, um dia foi novidade.
Devemos manter nossa mente sempre aberta ao diálogo com a sociedade e sempre pronta a não confundir o que pensamos com a verdade absoluta. Isso, no mínimo, exigirá um grande exercício de humildade, mas será benéfico para olharmos para o “outro” como para um “igual”.
Referências bibliográficas
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002
YAZBEK, André Constantino. 10 lições sobre Foucault. Petrópolis: Vozes, 2012
ROHMANN, Chris. O livro das idéias. Rio de Janeiro: Campus, 2000
STRATHERN, Paul. Foucault em 90 minutos. Rio de Janeiro, 2003
VÁRIOS, O livro da filosofia. São Paulo: Globo, 2001


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