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Considerações de um Padre que casou de novo

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 6 de abr. de 2016
  • 5 min de leitura

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Rev. Padre Jorge Aquino

Sempre tive muita dificuldade em compreender a razão pela qual algumas igrejas não aceitam as pessoas que passaram por relacionamentos anteriores. Elas acabam sofrendo todo tipo de discriminação e são impedidas de recomeçar sua vida normalmente e até de participar da comunhão eucarística. Particularmente acredito que essas igrejas acabam impondo sobre tais pessoas – que já sofreram muito o trauma de uma separação – um fardo ainda maior, quando afirmam que essa não é “simplesmente” uma ideia defendida pela igreja, mas a “vontade de Deus”.

Fico me perguntando se Deus realmente agiria assim com um de seus filhos. Lembro do que escreveu o Evangelista Mateus quando diz: “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem” (Mt 7:11). Em outras palavras, se nós, que somos falhos, pecadores, vingativos e maus por natureza, perdoamos nossos filhos e os acolhemos, mesmo quando eles erram, será que Deus, à semelhança do pai da parábola do filho pródigo – que o recebeu com um forte abraço e realizou uma festa para celebrar sua volta -, também não acolheria tantos filhos e filhas feridas, já que Ele é todo amor e misericórdia?

Sou feliz porque no anglicanismo as pessoas não são condenadas porque passaram por uma experiência de crise e separação. Elas podem ter uma segunda chance, casar novamente e recomeçando suas vidas; inclusive os padres. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. É claro que quando casamos queremos que o casamento dure para sempre. No entanto, podem surgir alguns fatores superveniente e indesejáveis que tornam a relação algo insustentável. Normalmente sugerimos uma conversa pastoral e, se não der certo, uma terapia de casal. Mas, se nem assim as coisas se resolvem, acredito que a separação consensual é a saída mais digna para os dois, que, podem, enfim, recomeçar suas vidas e serem felizes.

Em toda a minha experiência de vida, tive algumas namoradas, fiquei com algumas pessoas, mas, particularmente três pessoas foram muito marcantes. Primeiro a minha primeira esposa, com quem casei com 17 anos de idade e que me deu dois filhos. Nossa relação não resistiu às diferenças conceituais e religiosas trazidos com o tempo, nem a ausência das minhas constantes viagens pelo Brasil e pelo mundo afora. Até tentamos recomeçar uma segunda vez; mas o “cristal já se havia quebrado” e não fomos muito longe. Dela sinto um profundo respeito em relação à sua dignidade e valor.

Logo em seguida me envolvi com uma pessoa que, no final do primeiro mês juntos, comecei a perceber que não daria certo porque ela nunca aceitava a ideia de nos casarmos. Mas ela, num gesto calculista e proposital, engravidou no primeiro mês da relação – e olhe que ela já tinha cerca de quarenta anos e já vinha de um outro casamento com alguém que nunca quis ter um filho com ela. Mas, relevei tudo isso e permaneci na relação. A situação, contudo, se agravava com o tempo e fomos até a uma psicóloga para falar sobre nossos problemas. Ela desistiu da terapia na terceira consulta e eu continuei até o fim da relação. Hoje, passados quase 10 anos que nos separamos ainda sou perseguido por ela. Esta pessoa sonda meus contatos nas redes sociais; denigre minha imagem para as os outros e procura distorcer minha imagem na sociedade – pena que as pessoas não tenham coragem de me falar sobre isso para que eu tome atitudes mais sérias a respeito. Mas, além de me atacar, ela invadiu a individualidade e a privacidade de minha esposa ao fazer ligações anônimas e, mais tarde, vendo que não conseguiria êxito, ligações abertas, falando coisas horríveis a meu respeito. Minha sorte é que minha esposa tinha a senha de meu e-mail e leu todas as mensagens trocadas entre eu e ela desde sempre, revelando, quem de fato era essa pessoa. Hoje me dou conta, pelo que vivi e estudei, que ela manifesta sofrer de um distúrbio bipolar e, quando está nos momentos de “mania”, faz coisas absurdas e imagina realidades que só existem em sua mente; isso sem falar em seu delírio persecutório, sua megalomania ou em sua labilidade emocional/social e instabilidade afetiva. Desta mulher, quanto maior a distância, melhor.

Passei, então por um momento extremamente turbulento em minha vida. Namorei e saí com algumas pessoas, e até tive a vontade de ter algo sério com alguém, mas tudo foi em vão.

Até que, Deus, em sua misericórdia, num dia em que eu havia sido convidado para ir até à festa de São Pedro e São Paulo, colocou uma pessoa em minha vida. Uma mulher inteligente, sábia, vivida, sóbria, forte e que me fez ver muita coisa que eu não percebia. Sim, ela me abriu os olhos para ver quem eram as pessoas que me cercavam e revelou o que elas realmente pensavam a meu respeito. Ela é uma mulher que me conhece profundamente, me apoia incondicionalmente, me defende impetuosamente e, por via de consequência, acredita em mim e em nosso futuro juntos. Ela é o meu amor maduro e o bálsamo que traz refrigério à minha alma.

Esta mulher é hoje minha outra metade. Alguém que amo com toda a força do meu coração e da minha alma. Com ela fazemos planos, lemos livros, viajamos, provamos o sabor das massas e das maçãs, oramos todas as manhãs e passamos horas conversando sobre todos os temas imagináveis. Ela me realiza, me completa, me faz feliz, me alegra e dá sentido à minha vida. Olhando para ela não posso negar que existe amor à primeira vista! Nos apaixonamos no primeiro dia em que nos vimos e, desde lá, nosso amor e nossa vontade de estar juntos só aumenta. Não existe qualquer segredo entre nós e não conseguimos ficar sem nos falar, pelo menos a cada meia hora, pelo celular.

Mônica, não existe mulher nesse mundo como você. Você é a prova viva de que Deus me ama e que ele quer que eu tenha um futuro maravilhoso na sua companhia. Você é minha companheira em todos os caminhos e minha orientadora e conselheira nos momentos difíceis. Sou grato à Deus por tê-la colocado em minha vida. Hoje posso afirmar com a maior convicção que alguém possa ter: sou feliz ao seu lado, meu amor. Te Amo Muito!!

À Deus, devo agradecer porque ele nos acolhe como um Pai amoroso que apaga todo o nosso passado e nos faz ver que as coisas do passado passaram e que tudo se fez novo. De todas as experiências que passei posso chegar a duas conclusões. Primeiro, posso afirmar que um padre casado tem muito mais experiência para lidar com os casais e seus problemas do que um padre que nunca passou pela experiência de um casamento. Mas, em segundo lugar, posso afirmar que, embora tenha passado pela crise e pela dor de uma separação, isso me fez muito mais experiente para entender as crises e sofrimento por que passam os casais e orientá-los a não cometer os mesmos erros que cometi. E creio assim, porque sei o que significa a dor e o sofrimento do rompimento de uma relação e porque passamos pelo sofrimento, diz Paulo, para ter com que ajudar aos que passam pelos mesmos problemas.

 
 
 

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