CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ECLESIOLOGIA DE HANS KÜNG
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
- 20 de fev. de 2022
- 10 min de leitura
Reverendo Padre Jorge Aquino.
Hans Küng foi, sem dúvida, um dos maiores pensadores da teologia, ética e da filosofia do século XX. Ele nasceu em 19 de março de 1928, na cidade de Sursee, na Suíça e morreu em Tubinga, Alemanha, em 06 de abril de 2021. Em 1948 ele ingressa na Universidade Gregoriana de Roma e em 1951, recebe sua licenciatura em filosofia, sendo ordenado padre em 1954. Seu doutorado em teologia ocorre em 1957, trabalhando sobre a “Justificação. A doutrina de Karl Barth e uma reflexão católica”. Entre 1962 e 1965 ele atuou como consultor teológico para o Concílio do Vaticano II, indicado pelo Papa João XXIII. Entre 1960 e sua aposentadoria, em 1996, foi professor de Teologia Ecumênica e Diretor do Instituto de Pesquisa Ecumênica da Universidade de Tübingen. O ano de 1971 foi bastante especial porque ele se notabilizou com a publicação de um livro no qual rejeitava frontalmente a teoria da infalibilidade papal. Seu livro chamava-se: “Infalível? Uma questão”. Por assumir uma postura crítica dentro da igreja romana, ele sempre questionou vários de seus dogmas e acabou por ser condenado a não lecionar mais como teólogo católico. Por causa dessa penalidade, ele passou a lecionar na cadeira de Teologia Ecumênica.
Quando observamos a postura que assumiu por toda sua vida de professor e de teólogo, descobrimos que sua visão acerca da Igreja cristã é bastante significativa. Seus textos revelam essa leitura e essa perspectiva. E é olhando para seus textos que podemos encontrar pelo menos três elementos bastante importantes em sua eclesiologia.
O primeiro grande elemento de sua eclesiologia é distinção que ele faz entre a “igreja” e uma “instituição”. Inicialmente devemos registrar que Kung, declara muito categoricamente que durante toda a sua vida Jesus nunca fundou nenhuma Igreja (KUNG, 1979, p. 47). Desta forma é “Somente após a morte de Jesus e sua ressurreição para a vida” (KUNG, 1979, p. 47) que a cristandade primitiva pode falar de uma igreja. Desta forma, o que chamamos de “igreja” se trata de uma entidade pós-pascal. Seu fundamento, continua Kung, “não é, em primeiro lugar, um culto próprio, uma constituição e organização próprias, com cargos e serviços específicos, mas tão-só e exclusivamente a profissão de fé neste Jesus como o Cristo” (KUNG, 1979, p. 47)
Resta claro, então, que ele entende que o sentido primeiro de “igreja” é o de uma assembleia, destituída de qualquer organização hierárquica. Desta forma, a igreja de Jesus e dos apóstolos nada tem a ver com uma instituição organizada hierarquicamente, composta de funcionários, possuindo uma regra canônica e submetida à autoridade de um papa. Segundo ele, “Dos primeiros tempos até o presente, a igreja foi, como ainda é, a associação daqueles que acreditam em Cristo, a associação daqueles que se comprometeram com a pessoa e a causa de Cristo e atestam isso como esperança para todos os homens e mulheres” (KUNG, 2002, p. 29). Segundo ele, mesmo a palavra “Igreja” revela sua relação e sua dependência de seu Senhor. Ele demonstra que nas línguas germânicas, a palavra “igreja” (Kirche) é um nome derivado do grego kyriake, que significa, “pertencente ao Kyrios”, ou seja, ao Senhor. E, mais à frente ele arremata dizendo: “Onde não realiza a causa de Jesus Cristo, ou a distorce, a igreja peca contra si mesma e se perde” (KUNG, 2002, p. 30).
Assim, Jesus nunca se apresentou como o fundador da Igreja Católica, mas como da comunidade daqueles que acreditaram e o seguiram. Por isso Kung afirma que: “alguém que prezava o casamento e jamais fez do celibato uma condição para o discipulado, um homem cujos primeiros discípulos eram todos casados e assim permaneceram (Paulo afirma ser exceção), não pode servir de autoridade para a regra que obriga o clero ao celibato” (KUNG, 2002, p. 32).
Importante ressaltar ainda que, muito embora a igreja não seja o mesmo que o Reino de Deus, ela deve se apresentar sempre na condição de porta-voz e de testemunha do Reino, de forma fidedigna, “quando anuncia a mensagem de Jesus em primeira linha não aos outros, mas a si própria e com isso não só prega mas cumpre as exigências de Jesus” (KUNG, 1979, p. 65). A credibilidade da Igreja reside apenas nisso: em ser fiel à Jesus e à sua missão.
A Igreja, portanto, difere e nada tem a ver com uma instituição, regras e normas institucionalizadas. Ela é o corpo espiritual daqueles que anunciam a mesma mensagem de Jesus, onde quer que estejam, até mesmo – ou apesar - dentro de uma instituição humana. Assim, a comunidade primitiva não existia na forma de uma estrutura hierárquica tendo os apóstolos (principalmente Pedro) como pilares. Sim, os apóstolos existiram, no entanto, “acima dos Doze, a quem o próprio Jesus escolheu como símbolo, todos aqueles que pregavam a mensagem de Cristo e fundaram comunidades como primeiras testemunhas e primeiros mensageiros eram apóstolos” (KUNG, 2002, p. 32). Além disso, ao lado desses apóstolos, as epístolas paulinas fazem referências a profetas e profetizas, professores, evangelistas e colaboradores e colaboradoras que participavam ativamente da vida da igreja enquanto uma comunidade dos fiéis que serviam em liberdade, fraternidade e amor.
Além de afirmar que ser igreja não é o mesmo que ser uma instituição, o segundo grande elemento ressaltado por Kung sobre a igreja é sua crítica à tese de que Pedro foi o primeiro papa. Na verdade, Kung questiona muito fortemente esta informação, descrevendo-a como um mito etiológico que procura explicar a origem da autoridade dos demais bispos. Seu questionamento sobre a leitura de Pedro como a “pedra” sobre a qual a igreja teria sido fundada, se faz de duas formas. Primeiro ele usa uma argumentação exegética e, em segundo lugar, ele faz uma reflexão teológica.
É claro que Kung tinha ciência de que “na primeira igreja, Pedro sem dúvida possuía uma autoridade especial; entretanto, não a possuía sozinho, mas sempre conjuntamente com outros. Ele estava longe de ser um monarca espiritual, ou mesmo um governante único” (KUNG, 2002, p. 36). Em outras palavras, para Kung, o cristianismo primitivo jamais desmereceu a personalidade de Pedro, mas, por outro lado, jamais o elevou a uma condição que ele não tinha. É por isso que Kung chega a afirmar que, hoje, “teólogos católicos concedem que não há nenhuma prova confiável de que Pedro algum dia tenha estado à frente da igreja de Roma como chefe supremo ou bispo” (KUNG, 2002, p. 37) até porque, arremata este teólogo, “o episcopado monárquico foi instituído em Roma relativamente tarde” (KUNG, 2002, p. 37).
De uma perspectiva exegética, portanto, ele afirma que uma leitura mais acurada do “texto prova” usado pela igreja romana para apoiar a tese de que Pedro é a pedra sobre a qual Cristo fundamentou sua Igreja facilmente nos faz ver que os teólogos romanos exageraram em sua interpretação. Pelo menos é exatamente o que insinua o jovem teólogo Joseph Ratzinger quando afirma: “se a igreja é fundada sobre Pedro, ela não foi fundada sobre sua pessoa mas sobre sua Fé... O fundamento da igreja é Cristo. ‘Non enim dictum est illi: tu es petra, sed: tu es Petrus. Petra autem erat Christus’ (A ele não foi dito ‘você é a rocha’, mas ‘você é Pedro’, e a rocha era Cristo), esta sentença mostra que Cristo (petra) aceito pela fé (Petrus) é a verdadeira pedra fundadora da igreja” (RATZINGER In KUNG, 1995, p. 314).
Em terceiro lugar, a eclesiologia de Kung vai demonstrar que desde muito cedo a igreja vai experimentar um processo de institucionalização e que ela dependerá dessa visão acerca de um Pedro que surge como primeiro papa. Assim, para que um processo de institucionalização se desenvolvesse de forma forte e assertiva, era necessário a existência de uma hierarquia forte e inquestionável, distante do povo e construída sobre a tese do primado petrino. Aqui, a igreja começa a se clericaliza.
Desta forma, muito embora ele afirme que “É historicamente impossível encontrar na fase inicial do cristianismo uma cadeia ininterrupta de imposição de mãos dos apóstolos até os bispos de hoje” (KUNG, 2002, p. 48), ele admite que logo cedo a Igreja desenvolveu uma hierarquia episcopal monárquica. No entanto argumenta que a) a Bíblia atesta claramente que originalmente não havia distinção entre as condições de presbíteros e bispos, o que somente ocorrerá em torno do terceiro século; b) não há qualquer referências a bispos nas primeiras cartas posteriores às Escrituras; e, c) a clara afirmação de que a referência feita a Irineu não passa de um mito.
Assim, Kung acredita que a “sucessão apostólica” básica ou primitiva, “não é a de determinados ministérios, mas a da Igreja e de cada cristão. Esta deve subsistir em uma união real com os apóstolos, sempre a realizar-se de novo; pois é exigida a perene concordância com o testemunho apostólico (transmitido a nós no Novo Testamento) e a contínua realização do serviço apostólico” (KUNG, 1976, p. 425). Ora, a contínua realização do serviço apostólico para Kung é equivalente ao avanço missionário e a edificação das comunidades. Desta forma, a verdadeira e primeira “sucessão apostólica” estava ligada ao seguimento na fé dos apóstolos, ao serviço e à vida apostólica.
Em outro texto Kung assevera que “não se encontra no Novo Testamento uma teoria unificada sobre a sucessão apostólica de bispos, ligada exclusivamente a uma entrega ritual de poderes e da autoridade de um apóstolo para seu ‘sucessor’. (...) não se pode falar ainda de uma instituição hierárquica de diáconos, presbíteros e bispos sob o primado de Pedro” (KUNG, 1999, p. 119). Desta forma, ele aponta de forma inquestionável que o surgimento da institucionalização da igreja cristã coincide com o processo de hierarquização que se associa ao surgimento do episcopado monárquico e à doutrina da sucessão apostólica. E arrebata: “a primeira lista de bispos, do padre da igreja do século II Irineu de Lyon, segundo a qual Pedro e Paulo transferiram o ministério do episkopos para um certo Lino, é uma falsificação do século II ... a constituição presbiterial-episcopal da igreja não se baseia em nenhuma instituição criada por Jesus Cristo e de modo algum pode ser vista como absolutamente intrínseca ao cristianismo...” (KUNG, 2002, p. 49). Como corolário do que foi dito, Kung também nos ensina que a igreja teve início nas comunidades judaicas e não em Roma. E lembra: “Entretanto, indiscutivelmente não foi Roma, mas sim Jerusalém a comunidade principal e a matriz do primeiro cristianismo” (KUNG, 2002, p. 37).
Com o passar do tempo, particularmente com a morte dos apóstolos, “tornou-se inevitável a institucionalização também nas Igrejas paulinas. Não foi por acaso, nem por traição que, pouco depois da morte de Paulo, mesmo na comunidade carismática de Corinto, muito embora não sem resistência (primeira epístola de Clemente) se impôs o sistema de presbíteros-epíscopos” (KUNG, 1976, p. 425, 426). E, logo em seguida ele arremata pontuando que a sucessão apostólica especial “historicamente é indefensável a afirmação de serem os bispos, em sentido direto e exclusivo, sucessores dos apóstolos (e muito menos ainda do colégio dos Doze)” (KUNG, 1976, p. 426).
Na verdade, afirma Kung, “se existisse alguém capaz de apresentar provas convincentes de que o seu antecessor e o antecessor do antecessor e assim por diante, finalmente, é o ‘sucessor’ de Pedro; e mesmo se pudesse provar que o antecessor de seus antecessores foi ‘instituído’ por Pedro em pessoa, como seu sucessor, com todos os direitos e deveres, mas se não cumprisse essa missão petrina, se não realizasse a tarefa indicada, se não prestasse testemunho, nem fizesse o serviço – de que lhe serviria ele, de que lhe adiantaria à Igreja, toda essa ‘sucessão apostólica’?” KUNG, 1976, p. 431). Portanto, segundo a leitura kungniana, “o essencial não é a pretensão, o ‘direito’, a ‘corrente sucessória’, em si, mas a realização, o exercício, a ação, o serviço concretizado” (KUNG, 1976, p. 431). Por fim, Kung demonstra em seus textos, de forma bastante clara que o surgimento da hierarquia na igreja, na forma de uma sucessão de bispos com base na autoridade petrina, está eivada de vícios originários que incluem até mesmo falsificações documentais, o que fragiliza o argumento romano.
Para concluir, Hans Kung questiona o corolário de tudo o que foi dito acima e que se materializou no absurdo dogma da infalibilidade papal, estabelecido em 1870 no Concílio do Vaticano I, pelo papa Pio IX. Para ele, é notória a posição deste papa e sua oposição às teses iluministas assumida na modernidade, bem assim, sua crítica e aversão à racionalidade. De fato, segundo Kung, este dogma foi estabelecido como parte de uma estratégia absolutamente míope que, para dentro, implicaria em uma consolidação e, para fora, implicaria em um isolamento. Assim, “Sob a direção de Pio IX, um homem emocionalmente instável e imune à dúvida intelectual que manifestava os sintomas de um psicopata, a fortaleza católica medieval da Contra-reforma agora era construída contra a modernidade com todos os poderes disponíveis” (KUNG, 2002, p. 203). O dogma da infalibilidade papal representa a coroação da hierarquização teologal elaborada pela igreja romana, na busca de assumir uma postura e um status de absolutidade.
Para nosso teólogo o Novo Testamento nos mostra claramente, ao revés, uma comunidade eminentemente carismática e assevera que esses dados “contradizem frontalmente tese de uma instituição da ordem hierárquica por Jesus Cristo e tocam o nervo central da concepção tradicional-católica do ministério” (KUNG, 1999, p. 120). Assim, nem o Novo Testamento nem os dois primeiros séculos da igreja revelam a hierarquia que a caracteriza hoje e que assume contornos absolutos no dogma da infalibilidade papal.
Em um texto bastante duro acerca desse tema - “Infalibilidade? Uma questão” -, publicada em 1970, Hans Kung refuta toda a argumentação de Pio IX. Não, ele não questiona o fato de que “Na medida em que a Igreja é humildemente obediente à palavra e à vontade de Deus, tem parte na verdade de Deus mesmo (do Deus revelans), que não pode enganar (fallere) nem se enganar (falli); em tal caso está distante de toda a mentira (omnis fallacia) e todo embuste (omne fallax). Assim, a infalibilidade ou imunidade de erro sente sentido radical significa um permanecer fundamental da igreja na verdade, que não pode ser suprimida nem ao mesmo por erros particulares” (KUNG, 1971, p. 211, 212). Mas ele claramente refuta a ideia de uma instituição que é de per si imune ao erro como consequência lógica do primado petrino e da sucessão apostólica. Como consequência das críticas expostas por esse pensador, ele acaba respondendo a um processo de cassação da condição de teólogo católico. Apesar da punição, ele permaneceu fiel às suas teses e ao cristianismo que ele conhecia, que defendia e que estava absolutamente associado à pessoa de Jesus, até sua morte.
Referências bibliográficas:
KUNG, Hans. Infalible? Uma pregunta. Buenos Aires: Herder, 1971
KUNG, Hans. Ser cristão. Petrópolis: Rio de Janeiro: Imago, 1976
KUNG, Hans. 20 teses sobre o ser cristão. Petrópolis: Vozes, 1979
KUNG, Hans. Christianity. SCM Press: London, 1995
KUNG, Hans. Teologia a caminho: fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999
KUNG, Hans. Igreja Católica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002

Kommentare