COMER E BEBER INDIGNAMENTE
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 3 de fev. de 2017
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Rev. Côn Jorge Aquino
Muitas vezes tenho sigo interpelado por casais que, apesar de serem tementes a Deus e manifestarem muito respeito pela religião, não se aproximam da Mesa do Senhor porque são divorciados e casados em segundas núpcias e vivem em uma realidade social e religiosa que discrimina aqueles que passaram pela experiência do divórcio. Sou testemunha do quanto essas pessoas desejam viver a vida cristã de uma forma plena, mas são tosadas por uma realidade doutrinária que faz com que elas sejam vistas como cristãos de segunda geração. Geralmente elas se sentem humilhadas e diminuídas com toda essa situação, achando-se indignas de comungar, e é por isso que eu resolvi escrever essas breves reflexões.
Antes de iniciar o mérito da questão, é importante que vejamos exatamente o que diz as Escrituras a respeito do assunto para, só depois, entabular algumas reflexões a respeito. O texto que trata desse tema se encontra na primeira carta de Paulo aos Coríntios, que assim se expressa: “Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (I Co 11: 27-29).
Uma primeira questão que se levanta tem a ver com a pergunta: “o que o apóstolo Paulo queria dizer quando ele se refere ao fato de comer e beber indignamente” no versículo 27? Ora, quando nos voltamos para o significado da palavra “indignamente” no original grego, percebemos que o termo nos é vertido para o português a partir da palavra grega “anaksiôs”, que significa “não de acordo com seu valor”, ou “sem dar a dignidade necessária ou exigida a algo”. A primeira vista, dentro do contexto, a ideia de se comer “indignamente” está relacionado à comer para sua própria “condenação” – ou no grego “kríma”-, como vemos no versículo 29, vez que comemos sem “discernir o corpo”, ou “diakrínôn tó soma”.
Uma segunda questão que poderia ser levantada tem a ver com a expressão: “come e bebe sem discernir o corpo”. Já sabemos que “discernir o corpo” (em grego: diakrínôn tó soma) é bastante importante vez que o verbo “diakrinô” significa “julgar corretamente”. Para o comentarista Leon Morris, a expressão “discernir” pode indicar “distinguir a ceia do Senhor de outras refeições, isto é, considera-la como qualquer outra refeição”. Esta é uma interpretação possível, vez que, olhando o capítulo, vemos no versículo 34 que muita gente se reunia para a Santa Ceia como quem iria para seu jantar em casa.
Uma outra forma de interpretar este “sem discernir”, nos fala de quem participa da Ceia do Senhor sem ter a verdadeira compreensão do que está acontecendo naquele momento. Para estes, participar sem discernir, significa comungar sem ter a correta informação do que está acontecendo espiritualmente e sobre a teologia da Eucaristia. Não sei se era exatamente isso que estava se passando na mente de Paulo.
Particularmente, tenho uma outra opinião a respeito. Concordo com Raymond Brown, que afirma que a pessoa “come de maneira indigna quando não age por amor, em favor da comunhão da igreja, e também quando é insensível para com a presença de Cristo, ingrata para com sua morte sacrificial”. Penso que essa interpretação significa que comungar “sem discernir o corpo”, não nos faz olhar para o pão que está sendo oferecido, mas nos aponta para a comunidade que está sendo alvo de toda espécie de problemas. O “corpo” desse texto, portanto, não é o “pão”, mas a “igreja”. Afinal, é a igreja, como “corpo de Cristo” que sofre com as divisões internas que são expostas entre os capítulos 1 e 3; é ela que sofre por não aceitar o ministério apostólico de Paulo (Cap 4); com questões envolvendo um incesto na comunidade (Cap 5); com questões nas quais os membros processam um ao outro no juízo comum (Cap 6: 1-11); com problemas de imoralidade (Cap 6: 12-20); com problemas relacionados ao matrimônio e ao celibato (Cap 7: 1-40); com questões ligadas a alimentos consagrados aos ídolos (Cap 8-11:1); com a desordem no culto (Cap 11); com problemas envolvendo os dons espirituais (Cap 12-14) e, finalmente, com problemas envolvendo cristãos que duvidavam da ressurreição de Cristo (Cap 15). Aquela igreja era um corpo cheio de problemas e absolutamente adoecido. Participar da Santa Eucaristia em um ambiente em que ninguém se respeitava, se compreendia, se acusava, e até se odiava, isso sim, era “come e bebe sem discernir o corpo”.
Uma ultima questão que poderíamos levantar tem a ver com a seguinte demanda: quem tem a dignidade necessária para participar do Corpo e do Sangue de Cristo? Afinal, afirma Leon Morris, “ninguém jamais pode ser digno da bondade de Cristo para conosco”. Será que na comunidade reunida alguém pode se colocar de pé e dizer que tem a dignidade necessária para participar? É óbvio que a resposta é não. Por isso, ato contínuo, Paulo diz logo no verso 28: “examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice”. A lógica mais natural nos dá a entender que quando nos examinamos adequadamente, imediatamente nos consideramos indignos de comungar. Este é, também, o pensamento de Champlin quando afirma: “O auto-exame é aqui determinado como modo de levar o crente a participar ‘dignamente’ da Ceia do Senhor”. É por isso que os verbos usados por Paulo estão todos no presente do imperativo: “examine-se” e “coma”. Ele não diz: “examine-se e não coma”! Ele acreditava no perdão e na graça de Deus! Mas, acima de tudo, é preciso registrar que nós comungamos, não por causa de nossa dignidade, de nossa santidade, de nossa capacidade ou por qualquer mérito que tenhamos em nos. Nós comungamos em razão da dignidade de Cristo, que em nosso lugar deu sua vida e porque somos todos convidados pelo Pai para participar de sua mesa, assim como um pai de família chama seus filhos para a ceia. Se você é um filho de Deus, ou seja, se você faz parte da família, o Pai não lhe negará o alimento espiritual do Corpo e do Sangue de Cristo.
Referências bibliográficas:
BROWN, Raymund. In Comentário Bíblico Broadman, Vol. 10. Rio de Janeiro: JUERP, 1984
CHAMPLIN, Russel Norman. O novo testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 4. São Paulo: Milênium, s/d,
MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida nova/Mundo Cristão, 1983
RIENECKER, Fritz & ROGERS, Cleon. Chave linguística do novo testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 1985


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