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Carta de despedida da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 9 de jan. de 2012
  • 4 min de leitura


rachadura

Rev. Pe. Jorge Aquino.

Natal, 06 de janeiro de 2012.

Caríssimos irmãos e irmãs de caminhada.

Este dia é um dia marcante para a igreja e para minha cidade. Historicamente refletimos sobre a chegada dos Reis Magos à presença de Jesus com a finalidade de adorar o menino. Neste momento refletimos que Jesus recebe a adoração de pessoas oriundas das mais diversas tradições culturais e religiosas do mundo. Isto significa que a Boa notícia está aberta para todos os homens e não mais circunscrita a uma única nação ou religião do planeta. Desde então, nenhuma instituição humana e nenhuma pessoa poderá se arvorar como único caminho de salvação ou única ponte entre Deus e os homens.

Para minha cidade é tempo de festa porque foi durante esta quadra que Natal foi fundada. Para arrematar, nossa fortaleza – construída pelos portugueses, é chamada de Fortaleza dos Reis Magos.

Nos últimos treze anos tenho convivido como cristão anglicano. Durante todo este tempo fundamos uma missão em Natal/RN; pastoreamos uma missão em João Pessoa, atuamos como arcediago na região norte da diocese, reitor do Seminário Anglicano de Recife, representamos a IEAB no CONIC e na CENACORA e escrevemos dezenas de livros, artigos, sermões e textos sobre o anglicanismo. Em todos estes anos a cidade de Natal se acostumou a identificar a Igreja Anglicana com a minha pessoa e ao meu ministério. Somente recentemente outros dois padres foram ordenados e estão desenvolvendo aqui seu sacerdócio. Devo, portanto, reconhecer minha absoluta e total identificação com o anglicanismo em seu jeito de ser, em seu etos, em sua liturgia, em sua forma de fazer teologia e em sua fé. De fato, não sou romano, ortodoxo ou evangélico. Minha identidade é anglicana e é isso que sempre serei.

Mas entendo que a espiritualidade nada tem a ver com instituição e que nossa relação com Deus não está condicionada às igrejas. Não se pode aprisionar os dons e o sagrado dentro das instituições e das estruturas. Mais anda, não concebo como os despenseiros do Reino possam se imaginar um dia como donos do Reino, mandando, dirigindo, ordenando, obrigando – como mandatários e arcontes deste mundo – tal como os trabalhadores da vinha. O maior perigo ocorre quando estes trabalhadores chegam a acreditar que ELES, e não Deus, são os donos da vinha. Desde sempre acreditei que quem quer ser o maior deve se acostumar a ser o menor, deve se acostumar a servir. Ministério é serviço não domínio, e servir e se doar e não dominar. Não posso aceitar nem compreender que alguém queira ser o Don(o) de minha consciência e acredite ter a capacidade de silenciar um dom que não me foi dado por ele.

Quem me vocacionou, quem me capacitou, quem me abençoou com vinte e um anos de exercício pastoral foi Deus e ninguém retirará de mim este dom nem me impedirá de ser aquilo para o qual Deus me escolheu: um pastor. Por isso não posso nem devo aceitar como normal “enterrar meu talento” e abandonar o exercício pastoral que, nos últimos anos vem se aprofundando na conversa com e no aconselhamento de casais. Jamais recusarei o convite para pregar e para anunciar a Boa-nova que me impactou e me transformou. Nunca permitirei que a graça de Deus que me atingiu sucumba e seja manietada por mandatários ou coronéis eclesiásticos que se acham ou se vêem como Senhores da vida alheia exigindo vênias e gestos de bajulação. A igreja erra, os bispos erram, os pastores erram e sei que errei em muitas escolhas que fiz na vida. Mas não é seguro nem certo ir contra a consciência e a minha consciência está cativa à Palavra de Deus e a seu Reino. Aceito ser acusado de ter feito escolhas erradas em minha vida (sim, eu as fiz e de muitas delas me arrependo), mas nunca de ter sido desleal com minha própria consciência.

A Igreja, ensinava um certo teólogo também condenado a um silêncio obsequioso, não é o Reino, mas seu sinal e instrumento de implementação no mundo. Portadores do Reino – continua ele – são todos os homens, instituições e práticas que se orientam pelos ideais éticos intencionados pelo Jesus Histórico.

Para quem pensa a Igreja com o paradigma da mater et magistra discordar dela é um delito. No anglicanismo, discordar é um direito; pelo menos sempre pensei assim. Minhas posturas e opiniões podem não agradar a todos, mas sabem distinguir a legalidade da justiça. Isto significa que os postuladores do dogmatismo e do positivismo jurídico sempre tendem a justificar seus atos injustos pela legalidade. Para eles o que importa é o cumprimento estrito da lei, mesmo em detrimento das pessoas. Vê-se claramente que as pessoas são colocadas em segundo plano, quando o que está em jogo é o cumprimento conveniente da lei. Estes mesmos aplicadores da lei não são honestos o suficiente para admitirem que a descumprem e que fazem “vista grossa” às exigências dos cânones. Desta forma vemos como normal passar anos sem um concílio, sem prestação de contas, etc., e como conseqüência, assistir decisões tomadas por quem não tem a legitimidade conciliar para as tomar.

Isto posto, e diante das decisões recentemente tomadas pelo Bispo Sebastião Gameleira de me colocar em disponibilidade (apesar de ter pedido licença para tratar de assuntos pessoais) pretendendo, desta forma, me impedir de exercer o ministério pastoral (aconselhar e pregar) e de celebrar os sacramentos (embora me mantenha fiel à doutrina, à liturgia e aos cânones da IEAB), venho tristemente por meio desta carta, pedir meu desligamento do rol de membros da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Tenho consciência que Isto significa que deverei continuar a exercer meu ministério pastoral (pregando, aconselhando e ministrando os sacramentos) em outro lugar e buscar outras instâncias de manifestação do Reino. Quem sabe no futuro, se pela graça de Deus um Pastor de verdade vier a cuidar da Diocese do Recife, e se houver espaço para isso, haja oportunidade para um retorno. No momento, cabe a mim, seguir meu caminho e meu exílio ladeado de meu Senhor que ao invés de ser servido, escolheu servir e dar sua vida em resgate de muitos.

Em tempo registre-se minha completa concordância com o episcopado histórico, mas minha absoluta discordância com um episcopado monárquico e absolutista.

Antes de me despedir, quero registrar minha gratidão a todos os irmãos e irmãs que me acolheram como padre; a todos os queridos companheiros e companheiras no sacerdócio, e dois bispos que me acolherem, pastorearam e cuidaram como age um Pai, em Deus. Aos bispos Naldal e Filadelfo, meu abraço fraterno e carinhoso.

 
 
 

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