BRASIL: UM PAÍS QUE MUDA PARA CONTINUAR O MESMO – REFLEXÕES SOBRE RUPTURAS E CONTINUIDADES
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 8 de jun. de 2016
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Rev. Padre Jorge Aquino
Indubitavelmente, nós vivemos em um país singular no que diz respeito à corrupção. Esta singularidade está presente, por exemplo, em uma letra que já refletia à época, uma enorme crítica acerca do que ocorria no centro do poder de nossa nação. Nela, um jovem chamado Renato Russo, perguntava: “Que país é esse?” e afirmava em seu primeiro refrão: “Nas favelas, no senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação”. Esse, que já foi considerado “O país do futuro”, adentrou no século XXI com uma das piores crises de sua história. Mas, por que nosso país atravessa tantas crises e tantos problemas?
A resposta, com certeza, exigiria muito mais espaço do que aquele que pretendemos usar para fazer nossa exposição. Mas, certamente, incluiria aspectos relacionados desde ao modelo de colonização ao qual nós fomos submetidos, até o tipo de educação – ou deseducação – que se oferece à nossa população. Mas a explicação mais plausível é uma conjunção dos dois primeiros fatores, aliados a um elemento que, em minha opinião, é o elemento fundamental: o Brasil sempre foi dirigido para agradar as oligarquias latifundiárias conservadoras.
Seja como for, pretendemos demonstrar que o Brasil é um país que sempre, em toda a sua história, conviveu com a falsa sensação de rupturas, mas que indicavam, sempre para uma continuidade. Em outras palavras, nós sempre mudamos para continuar o mesmo.
A primeira grande “mudança” de nosso país ocorreu em 7 de setembro de 1822, quando o então Príncipe Regente do Brasil, D. Pedro Alcântara de Bragança, temendo ser repatriado para Portugal, declara a Independência do Brasil. E é isso que nos faz refletir. A nossa Independência foi proclamada pelo filho mais velho do Rei de Portugal, D. Joao. Mudamos, mas continuamos uma monarquia e com o filho do antigo Rei no poder. Lembremos que para fazermos a primeira Constituição, 1822 – chamada Constituição da Mandioca -, não só pela maciça presença de proprietários rurais, seriam eleitos indiretamente por eleitores do primeiro grau que provassem uma renda mínima de 150 alqueires de plantação de mandioca. Estes, por sua vez, elegeriam os eleitores de segundo grau, que seriam aqueles que pudessem provar uma renda mínima de 250 alqueires. Estes elegeriam deputados e senadores que pudessem provar uma renda de 500 e 1000 alqueires, respectivamente. Eis, logo no início de nosso país os grandes responsáveis pela manutenção do status quo.
Eis que em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca, realiza a segunda grande “mudança” da história do Brasil. De nada adianta argumentar que dentre as razões que contribuíram historicamente para a saída da monarquia e a entrada na República foram as questões econômicas e as mudanças na legislação relacionada à escravatura. Outras monarquias, como a Inglaterra, também eram anti-abolicionistas, ao passo que haviam Repúblicas, como os estados Unidos, que defendiam o escravagismo. Deodoro era Marechal do Exército, nomeado pelo Imperador e colocado, recentemente, como líder do Estado Maior Geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Mais uma vez o Brasil mudou. Mas continuou o mesmo, porque as críticas de que o poder monárquico era intransigente com os republicanos, poderiam ser também aplicados aos generais que assumiram a presidência do Brasil entre 1889 e 1894 com as figuras de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, instituindo o que seria chamado de “República da Espada” marcada pelos poderes ditatoriais dados ao exército que servia aos grandes latifundiários, chamados à época de “coronéis”.
Em 1898, assume a presidência do Brasil o presidente Campo Sales e dá início a uma política chamada de “café com Leite”. Esta “política dos Governadores”, já era comum na República Velha (das espadas), mas agudizou-se quando o poder central do Brasil ficou centralizado entre Minas Gerais e São Paulo, intercaladamente. Os grandes e poderosos plantadores de café que derrubaram a monarquia, agora se juntavam aos produtores de leite de São Paulo para manter uma oligarquia no poder. Essa oligarquia, que representava o poder financeiro aristocrático rural, escolhia todos os principais cargos do Estado e os dava a seus amigos. De novo nada havia mudado, embora o exército já não estivesse mais no poder. Mudou, mas continuou o mesmo. O final dessa política ocorrerá com a Revolução de 30.
A chamada “Revolução de 1930” foi um levante armado que uniu os estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Ele derrubou o presidente Washington Luiz em 24 de outubro de 1930 e impediu a posse de Júlio Prestes. Era o fim da República velha. O que os incautos não perceberam é que, com a queda da Bolsa de Nova York, a oligarquia paulista rompe com a mineira, pondo fim à política café com leite, e indica Júlio prestes para Presidente. Em reação a isso, o governador de Minas indica a candidatura Getúlio Vargas – um conhecido caudilho gaúcho. Vieram as eleições e elas deram a vitória ao candidato de São Paulo. Ele, porém, não tomou posse em função do golpe de estado ocorrido em e de outubro de 1930, criando um “Governo Provisório”. Quem era Vargas? Um latifundiário e membro da oligarquia gaúcha que estava cansada com a troca de poder entre mineiros e paulistas. O que mudou? Nada! Tudo mudou para continuar o mesmo.
O chamado “Governo Provisório” de Vargas, durou de 1930 até 1934, quando ele foi “forçado” a convocar eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte. Durante todo esse período Vargas governou com o apoio do exército e com mão forte. Vargas se serviu dos tenentes do exército para se manter no poder, em mais uma ditatura. Fazendo-se valer do grande apoio político conquistado neste momento, Vargas conseguiu que os deputados constituintes de 1934 aprovassem a eleição indireta para presidente. Desta forma, Getúlio, escolhido pelo Poder Legislativo, ficou mais quatro anos no poder. O acordo dizia que o próximo presidente seria eleito pelo voto direto. Algo mudou? Nada! Tudo continuava como dantes.
O conhecido Estado Novo – ou Terceira República -, implantado por Getúlio Vargas, também pareceu uma mudança, mas manteve a continuidade. Este regime político vigorou de 10 de novembro de 1937 até 29 de outubro de 1945. Conhecido como a Era Vargas, este período foi marcado pelo autoritarismo, centralização de poder, anticomunismo e pelo nacionalismo. Com a Constituição de 1937 Vargas implementou a censura e passou a perseguir os comunistas, implementando um governo extremamente populista. Paradoxalmente, foi nesse período de ditadura travestida de constitucionalismo, que Vargas entrou na Segunda Guerra Mundial contra seus amigos pessoais, Adolf Hitler e Mussolini. O Brasil era uma ditadura lutando pela democracia fora dele. Somente em 1943 ocorreu a primeira manifestação contra o Estado Novo. Esta manifestação ocorreu em Minas Gerais e produziu o chamado Manifesto dos Mineiros, redigido e assinados por ilustres advogados e juristas.
A queda do Estado Novo se dá com a deposição de Getúlio em 29 de outubro de 1945, por meio de um movimento militar liderado por generais de seu próprio ministério. Como na constituição de 1937 não havia o cargo de vice-presidente, assume o poder o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, que passaria três meses no poder até passar o poder ao Presidente eleito em 2 de dezembro de 1945: Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra de Getúlio Vargas. Mais uma vez mudamos, mas continuamos o mesmo.
O Presidente Dutra assumiu o poder em 31 de janeiro de 1946, no mesmo momento em que eram abertos os trabalhos para uma nova Assembleia Nacional Constituinte. O clima era absolutamente outro. Havia mais liberdade. Houve um entendimento entre os principais partidos do Brasil – PSD e UDN – embora partidos como o PCB e PTB também estivessem presentes. Dutra não teve qualquer interferência na nova Constituição, nem mesmo quando ela reduziu o tempo do mandato de 6 para 5 anos. Marcado por críticas na utilização das divisas acumuladas durante a Guerra, ele reforçou a aliança com os Estados Unidos e se afastou da União Soviética. Deixou o governo em 31 de janeiro de 1951. Dutra, o ex Ministro da Guerra de Vargas representava uma ruptura ou uma continuidade? Pelo menos em sua política anticomunista e pelo domínio da imprensa, significou uma continuidade.
Eis que na eleição de 1950, a coligação feita entre o PTB e o PSP, lançaram a figura do ex-presidente Getúlio Vargas como candidato à presidência, lutando contra Eduardo Gomes. Getúlio, que havia fundado o PTB, nunca havia saído da cena política brasileira, sendo eleito Senador em 1945. Ele, obviamente, utilizava sua posição para alavancar a propaganda pessoal. Desta forma, ele sempre foi apresentado com alguém ligado ao povo. Populista que era, sempre se utilizou das leis que favoreciam aos trabalhadores sendo, até, considerado como o “pai dos pobres”. Sem dúvida, o povo tinha uma imensa admiração por ele. Admiração que cresceu quando ele assume a campanha nacionalista cujo lema dizia: “O petróleo é nosso”, o que viria a favorecer as indústrias. Um detalhe pitoresco na sua campanha de 1950 foi o Jingle que ele utilizou e que dizia: “Bota o retrato velho outra vez, bota no mesmo lugar…”. Mais uma vez Getúlio chegaria ao poder. O brasil mudou, mas continuou o mesmo. Ruptura ou continuidade?
Neste segundo período, que durou do dia 31 de janeiro de 1951 até seu suicídio em 24 de agosto de 1954, Getúlio foi fortemente acusado pela oposição em razão de trazer para o seu lado antigos aliados da Revolução de 1930, e de considerar seu ministério um “ministério de experiência”, palavras que feriram bastante os ministros. Getúlio, caracterizado por falar muito pouco, estava em um momento em que falava bastante e de forma agressiva. Seu governo foi marcado pelas críticas nas decisões administrativas e pelas acusações de corrupção. Ao aumentar o Salário Mínimo em 100%, em fevereiro de 1954, os militares fizeram um manifesto à nação como forma de protesto – na pessoa do General Gobery do Couto e Silva, e, em seguida ocorreu a demissão do Ministro do Trabalho, João Goulart. Percebe-se, claramente que Getúlio perdia apoio entre o exército, em razão da carta assinada pela maioria dos coronéis (que na década de 30 eram tenentes) e perdia apoio entre os trabalhadores, pela demissão de João Goulart. Inúmeros decretos e leis por ele criados, também criaram um clima de confronto no Parlamento.
Mas a crise acentuou-se com o famoso atentado da Rua Toneleiros, no qual o jornalista Carlos Lacerda saiu ferido e o Major Rubens Florentino Vaz, da Força Aérea Brasileira, perde a vida. Ora, como Getúlio havia concorrido contra o grande herói da FAB, o Brigadeiro Eduardo Gomes, e como o atentado foi perpetrado por dois dos guardas pessoais de Getúlio – Alcino João Nascimento e o auxiliar Climério Euribes de Almeida – inevitavelmente o tiro acabou por atingir a reputação de Getúlio. Em razão do atentado, o governo de Getúlio entra em crise e ele passa a ser pressionado pelos militares e pela imprensa a renunciar. Em 22 de agosto Getúlio recebe uma carta assinada por 19 Generais do Exército, dentre eles Castelo Branco, pedindo sua renúncia. Diante de tanta pressão, ele decide licenciar-se e, depois de assinar alguns documentos, se despede de seu ministro da justiça, Tancredo Neves, e vai para seus aposentos, no Palácio do Catete, onde, mais tarde cometeria suicídio.
Com a morte de Getúlio, assume o vice, Café Filho, um político conservador que, por ser de oposição, dá novas orientações para os caminhos do governo. Ele permaneceria no governo até o fim do mandato, portanto, por pouco tempo.
Com a morte de Getúlio, e o clima de enorme comoção popular, a candidatura de Juscelino Kubitschek à presidência – e de João Goulart à vice – tomam corpo. Ambos foram considerados, “herdeiros políticos” de Getúlio, o que mostra, que, mesmo uma mudança proveniente de um suicídio, fez com que o Brasil continuasse o mesmo.
A eleição de Juscelino Kubitschek para presidente em 1955 foi baseada no “mote” do desenvolvimentismo: “50 anos em 5”, e foi o resultado da coalisão de seis partidos e seu companheiro de chapa seria o gaúcho João Goulart. Eleitos, assumem o poder em 31 de janeiro de 1956. Seu governo foi marcado por uma relativa tranquilidade política e por um crescimento econômico, em que pese o aumento da dívida pública interna e externa. No fim de seu mandado as três marcas que restaram foram a concentração de renda, o crescimento da inflação e o arrocho salarial. Sem dúvida seu projeto de construir a Capital Federal – Brasília – no centro do país, contribuiu em muito para tudo isso.
Seu sucessor, que assumiu em 31 de janeiro de 1961, foi o conhecido político de oposição, Jânio Quadros, com a promessa populista de “varrer” a corrupção do governo. Jânio representava um verdadeiro prodígio político vez que, em apenas 15 anos ele sai de vereador até presidente da República. Para alguns, seu sucesso se deveu a seu revolucionário programa de governo que preconizava um progresso revolucionário. Ele pretendia modificar as fórmulas antiquadas e abrir novos horizontes que levariam o pais ao progresso, sem inflação e com democracia. Esse foi seu segredo. No entanto, ele renunciaria em 25 de agosto do mesmo ano em razão do que chamou de ações de “forças ocultas”. Como naquela época as chapas não envolviam o presidente e o vice, e Jânio não conseguiu eleger seu vice, assume como vice presidente João Goulart.
No dia em que Jânio apresentou sua renúncia (25 de agosto de 1961), João Goulart estava em uma visita diplomática à República Popular da China. Neste mesmo dia, os ministros militares do Exército –, Odílio Denys, da Aeronáutica –, Gabriel Moss e da Marinha -, Silvio Heck, que vinham em Jango alguém ligado ao comunismo, tentaram impedir a posse do Vice-Presidente e Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu a presidência.
A situação se tornara explosiva. E, nesse momento, surge, do Governador do Rio Grande do Sul – Leonel Brizola – o gesto que seria chamado de “Campanha pela Legalidade”, exigindo a posse de Goulart. Brizola, apoiado pelo General Lopes, comandante do III Exército, mobilizaram o Estado e se serviram de uma cadeia de mais de cem emissoras de rádio para defender essa causa. Brizola pedia que o povo saísse às ruas para defender a legalidade. A campanha recebeu o apoio dos governadores de Goiás e do Paraná. No Congresso também haviam parlamentares que questionavam o impedimento de Jango – que aguardava o desenrolar dos fatos em Montevidéu. A saída que foi encontrada para a crise e a teimosia dos militares, que acabariam promovendo um Golpe Militar, foi uma proposta feita pelo Congresso a fim de que o Brasil adotasse o parlamentarismo. O Presidente tomaria posse, preservando a Constituição, no entanto, parte de seu poder migraria para um Primeiro-Ministro, que seria o Chefe do Governo. Em 2 de setembro de 1961 o parlamentarismo foi aprovado pelo Congresso e no dia 8 Jango assume a Presidência, tendo Tancredo Neves, ministro do governo de Vargas, como Primeiro-Ministro, de setembro de 1961 até julho de 1962. Mais uma vez o Brasil mudou e as mesmas figuras se mantinham no poder impedindo que o legítimo presidente do Brasil assumisse.
Tancredo demitiu-se do cargo em julho de 1962 com a finalidade de concorrer às eleições daquele ano, que não só renovariam o Congresso como também elegeria os Governadores. Jango articulou a volta do presidencialismo nesse momento. Com a renúncia de Tancredo, o gaúcho Brochado Rocha torna-se primeiro-ministro até setembro do mesmo ano, sendo sucedido por Hermes Lima.
Em 1962, João Goulart divulgou seu Plano Trienal, elaborado pelo ilustre economista Celso Furtado, com a finalidade de combater a inflação e promover o crescimento econômico. Este plano envolvia as chamadas Reformas de Base e pretendia empreender reformas agrária, eleitora, fiscal, urbana, educacional e bancária, além da nacionalização de vários setores industriais. A grande oposição que se levantou contra esse plano, exercida pelos militares e pelos setores mais conservadores da sociedade, o fez soçobrar e o governo se viu impelido a pedir empréstimos ao Fundo Monetário Internacional, que exigia cortes nos investimentos. Durante esse período, um plebiscito sobre a manutenção ou não do parlamentarismo foi convocado para janeiro de 1963 e, como resultado, o parlamentarismo foi largamente rejeitado. É óbvio que o governo atuou muito na propaganda do presidencialismo.
Durante todo o ano de 1963 ocorreu uma politização dos setores militares e uma agudização dos conflitos entre o exército e o governo. A situação política do Brasil era muito tensa e os militares pediam que o presidente declarasse estado de sítio. Como ele não o fez, até porque não houve apoio no Congresso, os oficiais passaram a construir uma operação golpista.
A construção desse golpe foi realizada pelos líderes do exército brasileiro e pelo embaixador dos Estados Unidos no Brasil Lincon Gordon. Antes de 1964, o governo americano promovia uma grande campanha publicitária contra o governo, nos rádios, televisão e cinemas, para preparar o apoio popular ao Golpe. O golpe militar, movido pelo temor das mudanças de base que modificariam o Brasil e, obviamente, desagradavam às elites e oligarquias rurais e, agora, também industriais e urbanas, teria o apoio do governo americano por meio da chamada Operação Brother Sam, pela qual, segundo documentos liberados pelo governo Americano, os Estados Unidos enviariam 100 toneladas de armas leves e munições, além de navios petroleiros (com 130 mil barris de combustíveis), uma esquadrilha de aviões de caça, um navio de transporte com 50 helicópteros plenamente armados, um porta-aviões, seis destroieres, um encouraçado, bem como um navio de transporte de tropas, além de 25 aviões C-135 para transportar material bélico. Esta frota, que estava no Caribe, se deslocou para o litoral brasileiro e ficou à espera – no litoral do Rio de Janeiro – para agir, caso houvesse alguma reação ao Golpe militar.
O golpe militar teve início com a iniciativa do General Olímpio Mourão Filho, sediado em Juiz de Fora, que na madrugada do dia 31 de março, deslocou suas tropas até o Rio de Janeiro. No correu em 1º de Abril de 1964, João Goulart vai até Porto Alegre e, lá chegando, no dia seguinte, vendo a situação que se instalara, ao invés de tomar ações enérgicas, optou por sair do Brasil, refugiando-se em Montevidéu. Em 1º de Abril o Congresso Nacional declarou a vacância da presidência da República e Ranieri Mazilli assume a presidência.
Durante os anos que se seguiram o Brasil assistiu uma sucessão de generais no poder. Desde o golpe, no dia 1º de abril de 1964, até a volta à redemocratização em 1985 envolveram os generais Castelo Branco (1964-1967), Costa e Silva (1967-1969), Emílio Médici (1969-1974), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Batista Figueiredo (1979-1985). Em 8 de maio de 1985, o Congresso aprova algumas emendas que começam a eliminar vestígios da ditadura. Até essa data o país foi sacudido desde 1983 por um movimento chamado “diretas já” e que visitou todas as grandes cidades do Brasil. A luta era pela possibilidade de eleições diretas para Presendente, uma emenda do deputado Dante de Oliveira. Em abril de 1984 a emenda foi rejeitada e o Brasil continuou a viver um bi-partidarismo (ARENA, mais tarde PDS e MDB, mais tarde PMDB).
Foi feito uma eleição indireta para presidente no qual concorreram Tancredo Neves e Paulo Maluff. Tancredo ganha, no entanto, não assume porque adoece gravemente. Em seu lugar assumiria José Sarney, que sempre apoiou os militares e que passou 20 anos na ARENA, só indo para o MDB porque era preciso mais pessoas para criar o partido e “maquiar” a realidade de que o Brasil não vivia um totalitarismo. Sarney se tornou o primeiro presidente civil do Brasil desde 1964, assumindo em abril de 1985. Seu mandato foram reestabelecidas as eleições diretas para presidente, governador e prefeito, além de estabelecida uma Constituinte que nos legou uma nova Constituição Federal em 1988. Durante o seu governo, lamentavelmente, perdeu-se o controle da inflação o que ocasionou os chamados “Plano Cruzado”, o “Plano Cruzado II” e o “Plano Verão”. Além da imensa crise econômica, havia uma enorme corrupção instalada no poder central.
Em 1989, tivemos eleições para presidente e foi eleito o ex-prefeito biônico de Maceió Fernando Collor. Seu governo se inicia com o famoso “Plano Collor”. A implementação desse plano gerou um confisco do dinheiro que as pessoas tinham na poupança, além da abertura do mercado nacional para as importações e por um programa de desestatização das empresas nacionais. O resultado foi uma profunda recessão econômica, o aumento do desemprego, e uma inflação que chegou aos 1200% ao ano. Mas o maior problema de todos foi seu envolvimento com a corrupção política envolvendo o tesoureiro de sua campanha, Paulo César Farias. Essas acusações levaram a um processo de impeachment. Antes que o processo fosse aprovado, Collor renunciou em 29 de dezembro de 1992 e seu vice, Itamar Franco, assumiu a presidência. Em outras palavras, o vice do que saiu, assumiu.
Itamar Franco assumiu à presidência em 29 de dezembro de 1992 e permaneceu até 1 de janeiro de 1995. Uma vez que o Brasil estava vivendo momentos conturbados, ele procurou marcar sua presidência pela transparência e pela relação com os demais partidos. Seu mandato foi marcado, especialmente pelo plebiscito de 1993 que decidiria se o Brasil seria uma República ou uma Monarquia e um país presidencialista ou parlamentarista. A segunda marca de seu governo foi o chamado “Plano Real” de fevereiro de 1994, que procurava estabilizar a economia e barrar a corrente de hiperinflação.
Em janeiro de 1995 assume a presidência do Brasil o antigo ministro da economia de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso. Sociólogo e professor universitário, ele deu continuidade às reformas econômicas e a inflação continuou a baixar. Ele investiu muito no processo de privatização e de abertura do mercado, seguindo a agenda neo-liberal. Seu governo conseguiu aprovar leis na área administrativa e econômica que ensejaram a reeleição para cargos executivos.
Em 1998 ele venceu, novamente, a eleição presidencial tornando-se o primeiro presidente reeleito. Durante seu segundo mandato, crises internacionais, associado à desvalorização do Real e da crise do apagão, além de outros eventos que ocorreram e que acabou gerando uma perda de popularidade. Mais tarde o nome de Fernando Henrique seria ligado ao escândalo do recebimento de propina da Petrobras desde seu primeiro mandato, em 1997.
Nas eleições de 2002 ele lança como candidato à presidência um de seus principais aliados e seu ex-ministro da Saúde, José Serra que perde a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que assume em 1º de janeiro de 2003. Lula representou a primeira ruptura no projeto de permanência no poder, das classes dominantes rurais e urbanas ligadas ao agronegócio e às grandes indústrias.
Em 29 de outubro de 2006, ele é reeleito presidente, vencendo o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) com mais de 60% dos votos válidos. Sua reeleição foi o resultado da ascensão da classe D e E até os níveis de consumo, do aumento do poder aquisitivo dos mais pobres, de programas sociais como o “bolsa família”, etc. Lamentavelmente, no seu segundo governo começam a surgir notícias acerca do chamado “escândalo do mensalão”, por meio do qual o governo Lula “pagava” propina para inúmeros deputados afim de ter maioria no Congresso e apoio para suas medidas. Além de Lula, este escândalo atingiu integrantes do PPS, PTB, PR, PSB, PRP e PP, sendo objeto de ação penal movida pelo Ministério Público no STF. Mais tarde surgiria o conhecido “mensalão mineiro” ou “mensalão tucano”, ou ainda “tucanoduto”, que foi o escândalo de peculato e lavagem de dinheiro que ocorreu na campanha de reeleição de Eduardo Azeredo (PSDB) ao governo de Minas Gerais em 1988, e administrado pela mesma pessoa do mensalão de Lula, o empresário, Marcos Valério. Em resumo, este estado de coisas já existia bem antes do primeiro governo Lula e, com ele, não apenas teve prolongamento, mas se estendeu até o Congresso Nacional.
Neste momento, o governo Lula representava exatamente tudo aquilo que sempre desprezou: corrupção e fisiologismo político. Boa parte de seus ministros são acusados, o presidente do PT e o tesoureiro do partido são igualmente envolvidos e a “estrela” do PT caiu ao chão. O STF entra em cena e condena boa parte dos acusados, dentre os quais, a principal liderança do PT no Brasil. Em outras palavras, o que parecia uma mudança, se revelou em uma continuidade.
Depois de dois mandados, Lula, assim como seu antecessor, procurou, também, eleger seu sucessor. E conseguiu. Em janeiro de 2011 foi eleita presidente do Brasil a mineira Dilma Rousseff (PT). Ela – que era ministra das Minas e Energia, Presidente do conselho diretor da PETROBRAS, passou a ser Ministra-Chefe da Casa civil, substituindo José Dirceu, que seria preso mais tarde -, era agora, a primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil. Seu mandato durou de 2011 até 2014. Embora com gestos voltados para a defesa dos direitos humanos, logo em seu primeiro ano de mandato, sete ministros (Antônio Palocci da Casa Civil, Alfredo Nascimento dos Transportes, Wagner Rossi da Agricultura, Pedro Novais do Turismo, Orlando Silva do Esporte e Carlos Lupi do Trabalho) demitiram-se depois de denúncias de corrupção. Mesmo o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, pediu demissão, acusando o governo Dilma de “atrapalhado”. No fim do seu governo Dilma “maqueou” toda a realidade econômica “represando” uma série de aumentos para poder ser eleita.
Dilma assume seu segundo mandato em 1º de janeiro de 2015 depois de ter vencido Aécio Neves no segundo turno. Eis que, pouco tempo depois de tomar posse, não só os aumentos – na energia, na gasolina, etc. -, e os escândalos começam a ocorrer, levando o Brasil a um dos piores momentos de recessão e de crise política e moral. A chamada “Operação Lavajato” atinge ministros de seu governo e o próprio Lula que, para ser “blindado”, é nomeado Ministro para poder ter “foro privilegiado” e escapar da ação do Juiz Sérgio Moro, de Curitiba.
Durante esse momento, o vice-presidente, Michel Temer (PNDB) passa a se “descolar” da presidente para não ver cair sobre si qualquer forma de acusação. Ele lança um programa próprio de governo para o PMDB e se aproxima mais de Renan Calheiros (Presidente do Senado) e Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados). Quanto a Eduardo Cunha, que mentiu ao afirmar que não tinha contas fora do Brasil, em seu pronunciamento à Operação “lava jato”, e que foi denunciado na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, vem procrastinando e atrapalhando as reuniões da Comissão a sete meses. Essa, além de outras acusações, foi a causa de ter sido afastado da presidência da Câmara dos Deputados.
Tendo sido afastada por meio do processo de Impedimento, Temer assume a presidência interina e nomeia seu ministério. O primeiro problema que ele tem é que 8 de seus ministros estão respondendo a processos de corrupção. Já no primeiro mês de governo Temer perdeu dois ministros por se manifestarem contra a Operação “Lava jato”, e se calou quando surgiram denúncias contra seu ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves. Diante de todo esse turbilhão, sabemos que as delações de Delcídio do Amaral ainda vão render muito.
Na última semana, paradoxalmente, aumentou as carreiras de estado justamente em um momento em que temos um déficit de 170 bilhões de reais, beneficiando apenas quem ganha mais na sociedade – e no caso do judiciário, promovendo um efeito cascata – apenas para receber apoio.
O presidente interino é também citado na delação de Leo pinheiro e, em razão desse e de outros fatores, Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, pediu a prisão de José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, que tentavam interferir na operação “Lava jato”.
Lamentavelmente, o presidente interino, ao invés de começar com uma substancial reforma política e tributária, procura fazer uma reforma previdenciária. Porque? Porque mais uma vez a classe média pagaria a conta.
Qual o resumo de tudo isso? Toda a nossa história demonstra que as grandes mudanças ocorridas em nosso pais, na realidade, não foram mudanças, mas apenas uma espécie de “faz de conta”, para satisfazer ou enganar à população. Lamentavelmente, essa população se satisfaz com o “pão e circo” que lhe é apresentado diuturnamente. A educação, que poderia mudar a realidade, é deixada de lado, e qualquer outro tema assume seu lugar.
Temos um presidente do Senado corrupto, um presidente da Câmara dos Deputados corrupto e manipulado seus comparsas para manter-se no poder e um Presidente interino que não pode repetir a mesma frase que Lula disse com respeito à José Dirceu: “Eu não sei de nada!”. Na realidade, se há uma verdade que pode ser dita sobre o PMDB é que esse é um partido “camaleão” que se alia com quem precisar se aliar para se manter no poder. Sempre foi assim e continua sendo.
O Brasil é um pais em que as coisas mudam para continuar do mesmo jeito e onde as rupturas vêm sempre acompanhadas da continuidade. É em razão disso tudo que encerro minhas palavras com a citação de um diplomata Brasileiro na França entre 1956 e 1964, chamado Carlos Alves de Souza Filho que disse: “O Brasil não é um pais sério!”.


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