top of page

AS GRANDES MUDANÇAS QUE PRODUZIRAM A REFORMA PROTESTANTE

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 31 de out. de 2016
  • 4 min de leitura

lutero-1

Rev. Côn. Jorge Aquino

Hoje, dia 31 de outubro, os cristãos de todo o mundo se lembram de um dos maiores acontecimentos da humanidade: a Reforma Protestante do século XVI. É um erro e um reducionismo achar que esse movimento ocorreu apenas porque um monge queria casar, tanto quanto acreditar que ele ocorreu de forma isolada. Neste breve texto pretendo defender a tese de que a Reforma Protestante foi o resultado de uma soma de fatores que tornaram inevitável repensar a forma como o cristianismo se apresentava no final da Idade Média.

O primeiro grande fator que influenciaria a Reforma foi a mudança na esfera econômica. A Idade Média presenciou o crescimento, mas também o colapso de uma economia feudal. O surgimento das cidades (burgos) e a migração da população camponesa para esses novos redutos de trabalho, acabou por gerar uma diversidade imensa de possibilidades laborais e, como via de consequência, a inevitável mudança de uma visão feudal – baseada em um senhor e sua terra – por uma visão capitalista, baseada no trabalho e no lucro.

O segundo grande fator que acabou por contribuir com a Reforma Protestante, foram as mudanças sociais. Durante a Idade Média feudal, estava em vigor um imobilismo social que impedia que alguém tivesse a possibilidade de sair de um estamento social para outro. Quem nascesse plebeu, morreria plebeu; assim como aquele que fosse nobre, morreria nobre. Com o capitalismo e o crescimento da burguesia, eis que pessoas que nasceram pobres, de repente, puderam lucrar e auferir a riqueza necessária para que saíssem do seu estamento e ascendessem socialmente. Muitos, principalmente em razão das grandes navegações e do intenso fluxo de mercadoria entre o Oriente e o Ocidente, enriqueceram substancialmente.

A terceira grande mudança perceptível entre os séculos XV e XVI foi a mudança da visão política. Esta mudança também influenciaria bastante a Reforma. Durante a Idade Média a política era dominada pelo Imperador do Sacro Império Romano Germânico. A seu lado – legitimando e/ou recebendo apoio – estava o Papa que representava o Reino de Deus. Isso implicava em que cada reino isolado deveria pagar tributos tanto ao Imperador quanto ao Papa. Eis que no início da Idade Moderna surgem os primeiros países independentes. Reflexo das antigas repúblicas independentes – como Veneza, Genebra, etc. -, um grande movimento nacionalista e de independência faz com que o Império se esfacele e dê espaço aos primeiros Estados Modernos. Estas teses, também influenciaram na mudança – em vários lugares – da Monarquia para a República.

A quarta grande mudança que ocorre no final da Idade Média e no início da Idade Moderna e que teria repercussão na Reforma Protestante, ocorre na esfera científica. Não apenas o Renascimento com sua ênfase na volta às origens, mas também, a “revolução copernicana”, que retira a terra do centro do universo e coloca em seu lugar o sol, fazem com que os antigos paradigmas sejam questionados, e isso também implicou no reexame de inúmeros dogmas da Igreja.

Como consequência de todas essas mudanças, inevitavelmente chegaria o momento em que alguém questionaria o que estava ocorrendo com a Igreja de Roma. Com a chegada ao poder do Papa Leão X, esse resolve fazer uma grande reforma na “cidade eterna”. Para tanto ele contrata os melhores arquitetos, pintores, escultores e artistas da época. Desse trabalho hercúleo surge a Basílica de São Pedro, ladeada com sua fenomenal praça e a linda capela cistina com seus afrescos exuberantes. Mas tudo isso tinha um custo e a igreja não tinha dinheiro para pagar. Eis que surge a “brilhante” ideia de levantar fundos por meio do único bem que a igreja poderia dispor: o perdão dos pecados. Neste momento surgem a venda das indulgências. Esse mercado se espalhou por toda a Europa e chegou até uma pequena cidade na Alemanha chamada Wittemberg. O padre da capela da Universidade dessa cidade era um monge agostiniano chamado Martinho Lutero (1483-1546) e, assim que ouviu sobre a venda do “perdão” que ocorria nas feiras da cidade, imediatamente começou a pregar contra essa prática. Sua tese era a de que o perdão era um dom dado gratuitamente por Deus à todos os que se arrependessem de seus pecados. Não seria preciso, portanto, “pagar” pelo perdão, mas apenas se apossar dele pela “fé”. Tudo o que precisava ser feito para a nossa salvação já havia sido feito, por Jesus, na cruz do calvário. Essa tese implicou no imediato declínio da “venda de perdão” na Alemanha e no inevitável choque das teses de Lutero com as intensões do Papa.

Como professor de teologia, ele preparou 95 teses e as apregoou na porta da Catedral de Wittemberg no dia 31 de outubro de 1517 para que, quando os demais professores chegassem para a missa do dia todos os santos, pudessem ler todas as afirmações e iniciar um debate acadêmico.

Ocorre que mesmo antes que esse debate acontecesse, as teses foram impressas em várias outras línguas e espalhadas por toda a Europa. Isso acabou produzindo aquilo que hoje chamamos de Reforma Protestante do século XVI.

Com a divulgação dessas teses e de outros livros escritos por ele, Lutero foi chamado para se retratar na dieta de Worms, convocada por Carlos V. Lá, diante de Eck, o ilustre teólogo do Papa, no dia 18 de abril de 1521, Lutero proclama solenemente: “Só me convencerão com o testemunho da Escritura ou com razões decisivas, já que não creio nem no papa nem nos concílios, porque é claro que eles têm frequentemente errado e caído em contradições. Estou dominado pela Sagrada Escritura que citei, e minha consciência está ligada à palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar, pois sei que é perigoso agir contra a própria consciência”. Mais tarde, seu zelo pelas Escrituras o faria afirmar que “o mais simples dos camponeses, munido das Escrituras é mais poderoso do que o maior dos Papas sem ela”.

Ao estabelecer o critério da Escritura lida e interpretada racionalmente por cada cristão livre, Lutero – que traduziu a Bíblia para o alemão – estabeleceu as bases para a ruptura com a tese de que o Papa e a igreja são infalíveis em tudo o que ensinam. Esta ênfase acabou, não apenas, por criar a Reforma Protestante, mas, segundo Weber, por criar as bases do que hoje chamamos de mundo Moderno, onde o homem é o sujeito livre de suas decisões e não precisa ser mais se submeter ao poder e aos dogmas da igreja.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
MUDAMOS PARA OUTRO SITE

Caríssimos leitores, já que estamos com dificuldades de acrescentar novas fotos ou filmes nesse blog, você poderá nos encontrar, agora,...

 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

©2020 por Padre Jorge Aquino. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page