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AS GRANDES METÁFORAS DA ÉTICA

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 24 de jun. de 2016
  • 5 min de leitura

etica

Rev. Padre Jorge Aquino

Acredito que, diante dos acontecimentos que estamos acompanhando em nosso país, seria interessante refletir um pouco sobre esse tema. Para tanto, é importante saber que os primeiros a discutir o tema da ética, dentro da filosofia ocidental, foram os gregos. Foi dentro do debate sobre se certo comportamento era ou não justo, que surge o debate sobre a vida justa. Para os primeiros escritores gregos a vida ética era uma exigência, em função de nossa relação com os deuses. Para Homero, se somos descendentes dos deuses devemos viver uma vida digna de nossa ascendência. Esta era uma ética aplicada apenas aos setores dominantes da sociedade, ou a alguns (aristoi) privilegiados. Enquanto o povo estava livre para viver como quisesse, os aristoi deveriam viver uma vida que agradasse aos deuses.

Hesíodo virá, logo em seguida, dizendo que a vida justa não é uma exigência apenas para a aristocracia, mas para todos os homens. Todos temos que nos envolver nesta luta que é a busca por viver uma vida justa.

E é na busca de formas adequadas para se fundamentar esta luta em busca da vida ética, que os gregos pensaram em algumas metáforas importantes que poderiam ser usadas por cada um de nós que desejamos um Brasil melhor. São três as grandes metáforas éticas dos gregos, a do cosmos, a do corpo e a da navegação. A primeira metáfora é a do cosmos. De que forma o cosmos poderia ajudar para meu embasamento ético? Os gregos, como as culturas antigas, tinham o costume de contemplar o céu à noite e dele retirar algumas lições. Ao olhar e estudar o céu e as estrelas, os gregos perceberam, em primeiro lugar seu caráter ordeiro. A própria palavra grega cosmos, significa “ordem”. Viver uma vida cósmica seria, portanto, viver uma vida de ordem, uma vida na busca da ordem e de rejeição ao caos, à desordem. O segundo elemento importante retirado da contemplação do cosmos, diz respeito a circularidade. Os gregos, observando o céu, todas as noites, perceberam que havia uma certa circularidade no que viam. As próprias estações do ano revelavam que havia uma sucessão de ciclos constantes no tempo. O inverno, portanto, sempre dava lugar à primavera, e esta ao verão, para que, depois, viesse o outono. Em nossa vida, portanto, precisávamos compreender que cada momento faz parte do grande círculo no qual estamos. Nascemos, crescemos, nos tornamos fortes e guerreiros, mas também minguamos e, em seguida, morremos. E isto não deveria ser visto como algo necessariamente mal, mas como algo que faz parte da vida. É a partir desta visão de circularidade que surgem as ideias sobre transmigração da alma. Em último lugar, a observação do cosmos influencia nossa visão ética porque cria em nós uma certa tranquilidade. Ao ver o céu estrelado da noite, os gregos compreendiam que havia ordem no universo, que tudo andava dentro de seu caminho e que, havia uma certa tranquilidade nas coisas. Os movimentos eram leves e lentos, mas certos e previsíveis. Nossa vida, para ser uma vida cósmica – afinal nós também fazemos parte do cosmos (somos cósmios) – também deve refletir mais tranquilidade e serenidade, uma vez que o futuro é inevitável.

A segunda grande metáfora que os gregos usavam para embasar nossa ética, era a metáfora do corpo. Ao refletir sobre seus próprios corpos, os gregos concluíram que havia três verdades sobre o corpo que precisavam ser consideradas. A primeira era sobre sua unidade/diversidade. Ao observar o corpo imediatamente nos damos conta de quão diverso ele é. Há uma enorme variedade de órgãos, cada um deles com seu papel e sua função; há uma intrincada rede de vasos e veias que levam o sangue para todo corpo; há ossos, cartilagens, e tecidos os mais variáveis, e tudo, apesar de sua variedade, funciona em perfeita harmonia. Nosso corpo, portanto, sendo múltiplo é apenas um. Com o mesmo olhar com o qual vemos o nosso corpo, também podemos ver a nossa cidade e nosso país, assim como nosso papel nele. A cidade é grande, variada, mas nós fazemos parte dela. A segunda verdade que precisava ser considerada sobre o corpo é a sua saúde/doença. Assim como quando nosso corpo está saudável tudo está bem, quando alguma coisa vai mal com um elemento do corpo, todo o corpo sente. Da mesma forma, se não formos cidadãos responsáveis toda a sociedade sentirá a dor. Nós acabaremos por criar uma disfunção social em função de atos irresponsáveis que não veem a coletividade. Finalmente, quando os gregos refletiam sobre o corpo, eles refletiam em torno de sua beleza/feiura. Os gregos sempre representavam seus heróis com corpos bonitos. Isto era uma projeção do que eles acreditavam. Quando percebemos que fazemos parte de um corpo, e quando compreendemos que devemos fazer o possível para que este corpo seja saudável, o fim será a beleza, a harmonia. Novamente a estética é usada para discutir os assuntos da ética. Como cidadãos, deveríamos primar por termos uma sociedade mais bela, mais saudável e, que respeite a diversidade de condições em que cada um está.

A última grande metáfora que os gregos usavam para embasar um discurso ético, era a metáfora da navegação. Os gregos eram um povo em cuja vida sempre esteve presente a navegação. E refletir sobre a navegação e sobre sua influência sobre a nossa vida nos levará a reconhecer três elementos importantes para elaborar nossa ética. Em primeiro lugar, contemplando os navios que iam e viam cruzando o Mediterrâneo, os gregos compreenderam que a vida é uma inevitável viagem. Todos estamos “de passagem”, navegando pela vida e enfrentando suas ondas turbulentas, seus vagalhões, mas também singrando os mares na calmaria. Por isso o general romano Pompeu (106-48 a.C.) diria mais tarde “navegar é preciso, viver não é preciso”. Não estamos aqui para sempre, estamos de viagem. Somos viajantes neste mundo. Mais do que humanos, somos mortais. E é isso que nos diferencia dos deuses. Em segundo lugar, contemplar os navios no mar, nos faz pensar na técnica necessária para a viagem. Não podemos viajar sem técnica, não podemos viajar de qualquer forma. Não podemos empreender uma viagem sem que saibamos manobrar a nau, compreender os ventos, ler as estrelas, etc. sem que saibamos manobrar o barco, sem que saibamos a técnica necessária para a viagem, partir é uma irresponsabilidade. Da mesma forma, na vida precisamos desenvolver algumas técnica para podermos viver de forma adequada, de forma justa, de forma que nosso barco não soçobre. Somente de posse de uma técnica poderemos enfrentar os ventos, as tormentas as tempestades próprias de nossa existência; somente com uma técnica adequada poderemos sobrevier nessa vida cheia de revezes e tribulações. Em terceiro lugar, quando olhamos os viajantes, inevitavelmente nos perguntamos sobre o rumo que estão tomando. Toda viagem, só começa quando temos para onde ir. Por isso alguém já disse que “quem não sabe para onde vai, nunca chega a lugar algum”. Em nossa vida precisamos ter o alvo sempre diante de nós, sob a pena de nos perderemos pelo caminho. De fato, aquela pessoa que não tem a menor ideia sobre de onde veio ou para onde vai é descrita como um perdido. Na nossa existência não podemos permitir que os dias passem e nos ache perdidos. É preciso um norte, uma bússola, um sonho, um alvo, ou seja, algo que nos sirva de referência para que nos achemos em meio ao mar revolto e possamos navegar seguro até o porto. Que possamos aplicar estes três princípios simples para nos tornarmos pessoas melhores em nossa vida e em nossas relações.

 
 
 

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