AS GRANDES DISCIPLINAS MEDIEVAIS
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 10 de mai. de 2017
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Rev. Cônego Jorge Aquino
A Idade Média, lamentavelmente, tem sido chamada de “A Idade das Trevas”. Particularmente não comungo dessa opinião, até porque ela é fruto de um ponto de vista que precisava impingir sobre o período anterior uma visão inferior. Refiro-me ao Iluminismo, que se julgava um período de Luzes, de pessoas iluminadas pela razão e que viera para trazer o esclarecimento (aufklärung) para toda a humanidade. Foi durante esse momento que a Idade Média foi associada às trevas.
O que conhecemos por Idade Média, surge com a queda do Império Romano Ocidental e vai até o movimento conhecido como Renascimento, abrangendo um período que vai do século V até o século XV. O que as pessoas em geral desconhecem é que esse foi um período de extremo desenvolvimento da filosofia, da literatura, da cultura e das técnicas. Muito do que sabemos hoje, devemos aos intelectuais do Medievo que, não apenas preservaram o conhecimento, mas, muitas vezes o traduziram para as línguas vulgares da época e espalharam cópias pelos antigos monastérios existentes.
Uma das reflexões mais comuns desse período dizia respeito às disciplinas espirituais. Para os monges do Medievo, era preciso desenvolver disciplinas que nos instruíssem a viver uma vida cristã mais significativa e cheia de sentido. Para tanto, era preciso vencer os três grandes inimigos dos cristãos: a riqueza, a luxuria e o poder. Para vencer a cada um desses três inimigos, os religiosos precisavam fazer seus “votos” para com Deus. Isso não significa que um dia seriam capazes de vencer todas as dificuldades e tentações, mas que é preciso disciplinar a alma e o espírito por meio desses compromissos com Deus. Conforme afirmamos, isso não significa que venceremos sempre, mas que tentaremos vencer. Como disse Tomas Merton, “Não queremos ser iniciantes, mas que nos convençamos do fato de que nunca seremos nada mais do que iniciantes, a vida inteira”.
Para os religiosos desse quartel da história, a única forma de disciplinar os ministros contra a riqueza seria fazê-lo optar por fazer o conhecido “voto de pobreza”. É claro que a visão medieval é um tanto quanto exagerada no que tange ao dinheiro. Mas, quando olhamos para nosso dias, enxergamos muitas comunidades que se dizem cristãs valorizando tanto o dinheiro e centrando tanto seu tempo e suas mensagens sobre esse tema, que temos a impressão que elas não passam de reflexos religiosos de uma cultura fortemente capitalista. Esse reflexo quase chega a transformar a célebre frase de Descartes em algo do tipo: “Consumo, logo existo”. Exercitar o desapego é fundamental para os cristãos. Não temos que nos prender às coisas ou acumular bens em nossas vidas. Paulo já nos instruía em sua primeira carta a Timóteo “tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos” (I Tm 6: 8). Os que buscam a riqueza e os bens, acabam por cair em tentações, armadilhas, e mergulham na ruína e destruição. A disciplina dos bens é fundamental. Não que tenhamos que viver uma vida de pobreza extrema, mas que aprendamos a viver uma vida mais simples e frugal, sabendo que, quando possuímos algo, esse algo também nos possui.
O segundo grande inimigo da vida consagrada, segundo os pensadores medievais, era a luxuria. A luxuria é o apego desmedido ao que é relativo à carne e a seus prazeres relacionados à sensualidade e sexualidade. A única forma de vencer esse inimigo era por meio do “voto de castidade”. Discordamos da visão medieval que associa o sexo ao pecado. No entanto, entendemos que a sexualidade e a sensualidade precisam ser disciplinadas sob pena de nos perdermos no mar do desejo desmedido. Em nossos dias a sexualidade parece não ter limites ou disciplina alguma, tendo se transformado em verdadeira obsessão ou perversão para muita gente. O sexo é um artigo que pode ser encontrado em qualquer esquina e a nossa sociedade consome esse artigo com avidez. Contudo, quando experienciado de forma indisciplinada e descontrolada, o sexo pode ser o início da ruína para qualquer cristão.
O ultimo grande inimigo da vida cristã, segundo a cosmovisão medieval, era o poder. Ter poder na sociedade medieval significava fazer parte de uma das castas superiores. Ou bem a pessoa era um nobre, um cavaleiro ou um membro da hierarquia eclesiástica. Seja como for, exercer poder sempre fascinou a humanidade. Para vencer esse ultimo inimigo era necessário fazer um “voto de obediência”. Ainda hoje, há muitos que almejam o poder. Ao lado do poder estão todos os outros elementos que nos escravizam: o dinheiro e o sexo. O poder hoje, também é, ao lado do sexo e do consumo, uma obsessão para as pessoas, ou mais, é um ícone da vitória ou do sucesso. Quão dispare é o ensino de Jesus. Primeiro Ele nos ensina que aquele que quiser ser o maior deve aprender a ser o menor; em seguida nos diz: “sabeis que os governadores dos povos os dominam e que são as pessoas importantes que exercem poder sobre as nações. Não será assim entre vós” (Mateus 20: 25, 26); finalmente o próprio Jesus se apresenta como aquele que não veio para ser servido e sim para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Qualquer cristãos que queira seguir os passos de Jesus terá que abdicar do “poder” e aprender a “servir”.
Embora um tanto quanto exagerado, como de resto seria comum dentro da realidade sócio-cultural da época, os pensadores espirituais do Medievo nos legaram muitas e excelentes instruções. Uma delas diz respeito aos três votos que os ministros deveriam fazer e que devem ser experimentados – de forma atualizada, é claro – por cada cristão hoje. As verdadeiras disciplinas hodiernas que libertam o cristão dos grandes inimigos de uma vida espiritual mais plena são, portanto a simplicidade de vida, a sexualidade amadurecida e o serviço ao outro ou ao “próximo”. Amemos a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos e, dessa forma, cumpriremos a lei de Deus e disciplinaremos nossas vidas e práticas.


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