A RAIZ DE AMARGURA NA RELAÇÃO
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 14 de jun. de 2017
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Rev. Cônego Jorge Aquino
Existem problemas físicos que podem ser vistos como mais perigosos do que outros. Esse perigo reside simplesmente no fato de que eles se desenvolvem de forma silenciosa. É assim com a diabetes e com a hipertensão. Eles estão lá e, quando menos esperamos, nos vemos surpreendidos por consequências, muitas vezes desastrosas e irreversíveis. Eis a razão de atentar para essas patologias ditas “silenciosas”.
Se na área da saúde isso é verdade, também o é na esfera emocional ou relacional. Existem vários problemas que crescem silenciosamente e, quando de vê, eles já tomaram uma proporção inimaginável e, muitas vezes, sem possibilidade de retorno. Dentre esses problemas, um se destaca, é a amargura. O Dicionário Houaiss define “amargura” como “padecimento moral; aflição, angústia, tristeza”. No entanto, independentemente das definições que possamos encontrar nos dicionários ou manuais, a amargura é um dos maiores problemas que acometem os casais. E pior, ele não é, geralmente, objeto de conversa entre os cônjuges.
Em geral a amargura é o resultado de uma grande decepção que temos com nosso cônjuge. Essa decepção pode ser fruto de gestos, pensamentos ou omissões. Quando ela é fruto de atos ou gestos, em geral ela está relacionada a alguma experiência de infidelidade ou de violência doméstica. A infidelidade é uma das maiores dores que podemos sofrer. Às vezes nos vemos perguntado a nós mesmos: “onde foi que eu errei?”, mas não se trata disso. A infidelidade possui muitas outras razões que não estão, necessariamente associadas à pessoa traída. O fato, puro e simples, é que ela dói. Quando ela é fruto da violência doméstica, ela é igualmente dolorida. Jamais imaginávamos que aquela pessoa fosse capaz de fazer o que fez ou de dizer o que disse. A decepção é realmente avassaladora. Nestes dois casos, o que está na base é o desrespeito. Quando não respeitamos alguém, nós o agredimos por meio de nossas palavras, de nossos gestos ou, nós a agredimos traindo sua confiança. A amargura, também pode surgir quando, finalmente descobrimos opiniões, ideias, ou convicções que foram escondidas durante muito tempo, mas que, finalmente, veio à tona. De repente a máscara cai e o verdadeiro rosto aparece. De repente ela verbaliza o que realmente pensa, expõe quem de fato é e o que verdadeiramente acredita. O tamanho da decepção será proporcional à distância que seu cônjuge manteve do tema e do tempo em que ele o/a iludiu.
Mas o maior problema com a amargura reside no silêncio. Tudo começa quando você faz de conta que não ouviu aquilo; em seguida você toma consciência de que aquilo realmente aconteceu, mas prefere empurrar para debaixo do tapete. Chegará um dia em que não existirá mais tapete para esconder sua decepção e sua amargura. Nesse dia, nem mesmo você saberá quando foi que deixou de amar seu cônjuge. Essa questão sequer terá algum sentido para você. Nesse dia você verá que a raiz da amargura, bem fixada no solo fértil da imaginação, do medo, da decepção e da mágoa, se expandiu e tomou conta de toda a sua realidade interior.
A única forma de fazer com que a amargura não destrua seu relacionamento é desenvolver a capacidade de conversar com seu cônjuge. Mas uma boa conversa precisa vencer o medo de falar em certos temas e vencer a dificuldade de ouvir o que o outro pensa. Não adianta apenas falar, sem ouvir; ou apenas ouvir, sem se posicionar. O diálogo exige a capacidade de que os dois sejam capazes de ouvir e a abertura para a possibilidade de mudança em seu pensamento. Se, contudo, você for o tipo de pessoa que apenas impõe o que pensa, sem a menor preocupação de ouvir o que seu cônjuge acha a respeito; se você o desrespeita a ponto de “calar sua voz” e torna-lo um mero fantoche em suas mãos, saiba que, no futuro, assim como ocorre com a hipertensão, os vasos podem não aguentar e, então, poderá ser tarde demais.
Abra seu coração para ouvir sempre o que o amor de sua vida pensa. Saiba que vocês podem até discordar, mas permita que haja espaço para a discordância sem que isso se transforme em um motivo para se guardar rancor, o que, inevitavelmente, se transformará em amargurar. Lembre-se que o respeito é fundamental em qualquer relação. Isso não significa que você precisa se calar, mas que você pode seguir a orientação de São Paulo quando diz: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo” (Ef 4: 15).


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