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A QUESTÃO DOS UNIVERSAIS

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 25 de mai. de 2016
  • 6 min de leitura
Okhan

Rev. Padre Jorge Aquino

Embora a relação entre a fé e a razão seja a questão central que mobilizará toda Idade Média, esta questão vai se tornar mais palpável e concreta quando passamos a discutir o grande tema que mobilizou este período, ou seja, a questão dos universais.

Esta questão foi herdada pelos medievais de Porfiro e Boécio, os quais, na tentativa de fazer uma conciliação entre Platão e Aristóteles, se viram diante de um dilema: a existência ou não das ideias universais à parte das coisas, isto é, das coisas mesmas. Para ilustrar o problema nos serviremos de um exemplo dado por Mondin: “Por exemplo, o conceito de homem pode ser predicado de César, de Sócrates, de Constantino e outros. Mas César, Sócrates, Constantino e outros são seres singulares ou individuais, não universais, e cada indivíduo é diferente dos outros. Mas, se os conceitos são universais, e os objetos, particulares, em que consiste a verdade dos conceitos universais? Como se pode dizer que eles correspondem às coisas?” (MONDIN, vol. 1, p. 1981, 161).

Vamos nos deter um pouco mais sobre esta ilustração. Além de imagens sensíveis, variáveis e particulares (César e Sócrates), também possuímos conceitos universais (de homem) que são “representações intelectivas, necessárias, imutáveis e aplicáveis a um número indefinido de indivíduos” (FRANCA, 1990, p. 89). Ora, uma vez que a realidade está sujeita à nossa experiência mutável e contingente, qual o valor objetivo destes conceitos?

Uma outra ilustração nos é dada por Cláudio Costa que diz: “Podemos dizer de muitas folhas que elas são verdes, de muitos seres vivos bastante diversos que eles são seres humanos, de muitas ações que elas são justas, mesmo que nos pareçam completamente diferentes umas das outras” (COSTA, 2002, p. 29). O professor Cláudio, nesta citação, faz alusão a três elementos representativos. De um lado estão os seres humanos – seres animados, inteligentes e que têm consciência de sua existência, do outro estão as folhas – seres inanimados, e, finalmente os atos justos, ou seja, os gestos e as atitudes que são resultados das volições. A questão que se impõe é a seguinte: como poderemos compreender que coisas tão diferentes (os diversos tipos de folhas) possam compartilhar da mesma propriedade (ser verde)? Como um mesmo predicado (ser humano) pode ser aplicado a seres tão diversos (brancos, negros, magos, baixos, etc.)?

A questão de fundo é, como se pode ver, a relação entre as palavras e as coisas, ou entre as voces e as res, entre o pensamento e o ser. Com efeito, diz-nos Reale, “o problema dos universais diz respeito à determinação do fundamento e do valor dos conceitos e termos universais – por exemplo, ‘animal’ e ‘homem’ – aplicáveis a uma multiplicidade de indivíduos” (REALE-ANTISERE, vol. 1, 1990, p. 520). Diante da questão dos universais é possível assumir pelo menos três posições: os universalia são ante rem, in re ou post rem? Ou seja, antes da coisa, na coisa ou depois da coisa?

  1. Os realistas

Esta escola teve como seu mais forte defensor Guilherme de Champeaux (1070-1121) que acreditava haver uma perfeita adequação ou correspondência entre os conceitos universais e a realidade. Ou seja, ele procurava salvar uma perfeita e total correspondência entre o conhecimento e o objeto, afirmando a existência de realidades objetivas universais. Desta forma, “as coisas que vemos e tocamos realmente são cópias de arquétipos eternos que, dalguma maneira, as trouxe à existência” (sic) (BROWN, 1983, p. 17). Os chamados realistas se baseiam, como podemos ver, em Platão, que afirmava que os universais têm uma existência objetiva em algum lugar do universo chamado “mundo das ideias”. O tipo de existência destes universais ou Ideias é completamente independente das coisas particulares. Ele acreditava existir universais da beleza, da bondade e da verdade à parte do que é belo, bom e da justiça praticada por alguém. Nas palavras de Cláudio: “O realismo dos universais afirma que podemos distinguir a mesma propriedade ou atributo em muitas coisas diversas, posto que essa propriedade é um universal puro ou abstrato (uma entidade abstrata, a idéia, a forma), o qual é de algum modo compartilhado por todas essas coisas, talvez por serem elas próprias, como pensava Platão, cópias imperfeitas desse universal” (sic) (COSTA, 2002, p. 29).

Desta forma, todos os seres vivos que compartilharem da propriedade universal da humanidade poderão ser chamados de seres humanos e todos os atos morais que compartilhem daquela propriedade universal da justiça serão agora identificados como atos morais justos. Para ela os universais realmente existiam antes das coisas criadas: universalia ante rem. Esta postura nos faz procurar para uma realidade última além desta vida. Nossos atos justos nada mais são do que reflexos da realidade da justiça que existe além da nossa dimensão. Nós deveríamos nos inspirar nestes universais para buscar viver sua realidade no aqui e no agora.

  1. Os conceitualistas ou realistas moderados

Aristóteles, embora discípulo de Platão, discordava em parte de seu mestre sobre a questão dos universais. Sua visão mais moderada sobre a natureza da realidade afirmava que os universais têm sim uma existência objetiva, contudo não de forma autônoma ou à parte das coisas individuais e sim nelas. Os universais estão nas coisas: universalia inre. Entre os conceitualistas ou realistas moderados estão Abelardo e Tomás de Aquino. Para Abelardo a realidade existia primeiro na mente de Deus, depois aqui e agora nos indivíduos e coisas, não acima e além desta vida, e finalmente na mente do homem.

  1. Os nominalistas

A terceira e última escola citaremos é a nominalista. Esta escola está intimamente relacionada à figura de Guilherme de Ockham (1295-1350). De forma bem simplista “os universais são abstrações a partir de experiência do particular” (VÁRIOS, 2011, p. 332). Esta postura ensinava que “não é necessário recorrer a um universal para justificar o compartilharmento de uma mesma propriedade por coisas diferentes” (COSTA, 2002, p. 30). Na realidade, a simples expressão: “compartilhar da mesma propriedade” não passa de uma maneira de falar. Vejamos o que nos diz Cláudio: “Quando dizemos que muitas folhas são verdes, que alguns seres vivos são humanos, que certas ações humanas são justas, o que queremos dizer é que muitas folhas são semelhantes umas às outras pelo fato de serem verdes, que alguns seres vivos são semelhantes uns aos outros em suas propriedades empíricas de humanidade, que certas ações são semelhantes umas às outras por serem empiricamente qualificáveis como justas” (COSTA, 2002, p. 30).

Para os nominalistas não precisamos recorrer a um universal do tipo “o verde”, “a humanidade” ou “o justo” para poder explicar porque é possível falar algo único sobre tantas coisas distintas e múltiplas. Para Guilherme de Ockham, uma das graves consequências do realismo, é que ele multiplica desnecessariamente as entidades produzindo um reino supérfluo de “entidades abstratas cuja natureza ninguém jamais conseguiu precisar e cuja existência ninguém pode provar” (COSTA, 2002, p. 30).

Para os nominalistas, os universais são apenas ideias subjetivas formadas pela mente como resultado da observação de coisas particulares. A justiça, por exemplo, nada mais seria do que a ideia decorrente da observação que o homem faz da justiça em ação. Guilherme de Ockham, conhecido como princeps nominalistarum, além de pregar a não existência de universais objetivos, também sustentava que os universais eram apenas nomes ou conceitos mentais formados pelo homem em sua mente. Para os nominalistas os universais eram: univesalia pos trem. Para Ockham, nenhum universal poderia ser visto como uma substância fora da mente (referência ao platonismo). Para Ockham, se o universal fosse uma substância existente nas substâncias singulares e fosse distinta delas, segue-se que poderia existir sem elas, uma vez que todas as coisas anteriores à outras podem existir sem elas. Mas isso seria um absurdo. Em nosso autor, o “universal” é apenas uma “intenção mental” ou, como ele também diz, um “sinal voluntariamente instituído” e convencionado entre as pessoas.

Sobre a possibilidade de se provar a existência de Deus ele é muito claro: ela não pode ser provada a priori, mas apenas a posteriori, e mesmo assim, admitindo que estas provas – baseadas na experiência – não têm poder absoluto, apenas provável.

Esta escolha pelo nominalismo fez com que sua teologia também fosse bastante peculiar, uma vez que segundo ele não dispomos de conceitos que sejam apropriados para nos referirmos a Deus e à sua natureza. Todos os nossos conceitos são análogos e dizem respeito às criaturas, eles só servem realmente para indicar e para apontar em uma determinada direção e não para representar Deus ou descreve-lo.

Os nominalistas têm sido identificados com os precursores dos empiristas, dos positivistas e dos pragmáticos contemporâneos. Na realidade, ao negar qualquer valor aos universais, o nominalismo se mostra um tanto cético “porque anula alguns instrumentos do conhecimento humano que se torna uma simples atividade analítica de fatos concretos e individuais, incapazes de ascender a níveis de caráter geral” (REALE-ANTISERE, vol. 1, 1990, p. 522).

A crítica nominalista à existência de um mundo das Ideias, do tipo em que Platão acreditava, são de extrema importância porque, em primeiro lugar, quebra a visão dualista de mundo, fazendo com que as realidades sejam encaradas como uma realidade unificada; em segundo lugar porque fará do conhecimento das coisas algo particular e pessoal, e não algo geral; algo que tenha a ver com a minha leitura dos fatos e não com a “apreensão” clara e absoluta da realidade; e porque, em último lugar, me fará ver os meus próprios condicionamentos ao me aproximar das coisas, tornando-me mais humilde e evitando que eu imponha sobre os outros uma visão que é minha.

Referências Bibliográficas

BROWN, Colin. Filosofia e fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 1983

COSTA, Claudio. Uma introdução contemporânea à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002

FRANCA, Leonel. Noções de história da filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1990

MONDIN, Battista. Curso de filosofia. vol. 1. São Paulo: Edições Paulinas, 1981.

REALE, Giovanni & ANTISERE, Dario. vol. 1. História da filosofia. São Paulo: Edições Paulinas, 1990

VÁRIOS. O livro da filosofia. São Paulo: Globo, 2011

 
 
 

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