A QUESTÃO DO TEMPO
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 31 de mai. de 2016
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Rev. Padre Jorge Aquino
Santo agostinho, quando se referiu ao tempo, disse que “Se ninguém me perguntar, eu sei o que é; mas se eu desejasse explicá-lo a alguém que me fizesse a pergunta, simplesmente não sou capaz” (AGOSTINHO, In ENGSTROM & MACKENZIE, 1980, p. 23).
Este fim de semana encontrei com uma pessoa com quem geralmente encontro quando vou celebrar casamentos. Notei que ele estava um pouco mais magro e perguntei: está fazendo regime? Ele me respondeu calma e simplesmente: Não. Estou com câncer. Assim é a vida. Ela passa inexoravelmente. Ou será que somos nós quem passamos por ela?
De fato, falar sobre o tempo é uma questão extremamente difícil. Tão difícil que poucos autores se enveredaram por esse tema. Se buscarmos uma simples definição, alguém poderia dizer que o tempo “é a duração relativa das coisas que cria no homem a ideia de presente, passado e futuro. O tempo é o período contínuo no qual os eventos se sucedem”.
O tempo e o valor. Eu nasci em uma época em que as coisas tinham seu valor muitas vezes associado ao tempo, ou seja, à duração. Um boa geladeira era aquela que durava muito. O mesmo poderia ser dito sobre qualquer outro objeto. Hoje, no mundo exageradamente mutante em que vivemos, as coisas possuem uma duração muito curta. Troca-se o celular a cada ano; troca-se de roupa à cada moda; e, lamentavelmente, hoje, troca-se de cônjuge, a cada crise. Segundo afirmou a escritora Maria Julia Paes de Silva, “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. É verdade que a durabilidade das coisas é importante. Mas, será que um casamento de quarenta anos de violência doméstica ou traição valem mais do que uma relação de quatro anos de experiência intensa, companheirismo, confiança e fidelidade? Claro que não. Quando colocamos a durabilidade ao lado da virtude, descobrimos que esta é algo supremo e superior. Por isso Já dizia Marco Aurélio: “Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afetação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta” (In MORRIS, 1998, p. 137).
O tempo medido e o vivido. Quando voltamo-nos para a língua grega, percebemos que nela existem duas palavras que podem ser traduzidas por “tempo”. A primeira delas é “cronos” e a segunda é “kairós”. O Cronos difere do kairós porque ele pode ser medido e contabilizado. É por isso que temos em português a palavra “cronômetro”, que é um instrumento que usamos para contar o tempo. Já o Kairós, diz respeito ao tempo dos deuses; àquilo que ocorre no momento certo, ou no instante em que tinha que acontecer. Esses eventos não podem ficar à mercê de um instrumento que os meça e os estabeleça.
Existem algumas diferenças entre estes dois tempos que as pessoas precisam saber distinguir. Mas a mais séria é que o tempo medido é inimigo do tempo vivido. Os dois se digladiam constantemente na busca de obter a vitória, um sobre o outro. O tempo medido nos escraviza, particularmente, no trabalho; ao passo que o tempo vivido nos liberta. Lembrem do trabalhador que fica olhando para o relógio na expectativa de chegar o tempo de largar o trabalho, ou ainda aquele que fica contando o tempo na espera da aposentadoria. O que eles querem depois do toque ou da aposentadoria?
O tempo certo das coisas acontecerem chegará. Eu já passei por essa experiência. Depois de muito tempo buscando alguém que fosse diferente e que pensasse diferente do padrão de igualdade no qual nossa sociedade se impôs e procura nos impor, no único dia em que eu não estava procurando, ela me encontrou.
O tempo e a vida. Quando relacionamos o tempo com a vida temos que fazer algumas reflexões. Essas reflexões podem ser vistas em textos filosóficos como O ser e o Tempo, de Martin Heidegger ou O Ser e o Nada de Jean-Paul Sartre. Neste dois textos temos a mesma perspectiva de nossa existência, ou seja, somos, antes de qualquer coisa Seres para a morte e Seres para a autenticação.
Em primeiro lugar, quando Heidegger diz que somos Seres para a morte ele está destacando o fato inarredável de que o homem – o Ser-ai, ou Dasein – é ciente de sua finitude e, portanto, de suas limitações enquanto Ser-no-mundo. Esta verdade, no entanto, não deve nos paralisar mas, ao revés, nos fazer viver o tempo que temos da melhor forma possível, uma vez que, por outro lado o homem é também Ser-de-projeto.
Em segundo lugar, quando Sartre diz que somos Seres para a autenticação, ele está querendo dizer que, quando vivemos cientes da primeira verdade dita acima, e não vivemos a vida da melhor forma possível, antes, vivemos a vida para agradar aos outros e não a nós mesmos, vivemos uma vida inautêntica. Só vive autenticamente quem assume os riscos de suas convicções e de suas crenças; só vive autenticamente que não se importa com o que pensa a maioria e sim com o que a sua consciência diz e só vive autenticamente quem realiza seus projetos e não os projetos alheios.
É preciso levar essas verdades à sério, porque todos temos o mesmo tempo no dia, mas nem todos teremos os mesmos dias. Do Gari ao Presidente da República, todos têm apenas 24 horas no dia para tomar as grandes decisões da vida. Mas não sabemos quantos dias teremos para tomarmos essas decisões. Por isso elas não podem, jamais, serem adiadas. Ademais, devemos levar em consideração as palavras do Dalai Lama que, certa vez, afirmou: “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”.
Sim, concordo com ele quando diz que o que há de mais importante na vida é amar, acreditar, fazer e viver. Em nossa sociedade consumista só valorizamos o trabalho e o lucro; os bens e o capital; o Ter e não o Ser; a aparência e não a existência. Mas aprendemos com Jesus que nosso coração deve estar focado onde está o nosso tesouro. Qual é seu tesouro? O trabalho, o lucro, os bens, o capital, o Ter? Que seu tesouro seja o amor de sua vida. Aquela pessoa que é mais valiosa do que tudo o mais, e para quem, você doará toda a sua existência. Afinal, Renato Russo também disse: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Ame, portanto, intensamente hoje, como se no amanhã o objeto de seu amor não mais existisse.
Devemos de uma forma imperiosa atentar para as verdades absolutamente fascinantes expressas no lindo texto de Mário Quintana chamado “O Tempo”, que diz:
“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”.
Com Quintana aprendemos que a vida passa, e passa rapidamente diante de nós. Não permita que ela passe de forma irresponsável e inconsequente. Não deixe que com ela passem também as oportunidades únicas de se ser feliz e de amar eternamente. Talvez, quem sabe, Renato Russo não tenha lido essa poesia quando compôs a letra de Por enquanto que diz:
“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar…
Que tudo era pra sempre,
Sem saber, que o ‘pra sempre’,
Sempre acaba …”.
A grande verdade, meu querido leitor, é que neste “grande vale de lágrimas”, que é nosso mundo, não temos todo o tempo do mundo, temos pouco tempo para fazer o que precisa ser feito. E dizer isso é o mesmo que afirmar que nossa vida só tem sentido se nosso tempo for gasto da forma correta. Afinal, perguntam Ted Engstrom e Alec Mackenzie (1980, p. 26): “Se o espaço é a dimensão na qual as coisas existem, por que, segundo a sugestão de Robert MacIver, não aceitar o tempo como a dimensão na qual as coisas se alteram?”. Se você aceitar essa sugestão, gostaria que você refletisse sobre o que tem feito com seu tempo e dedicasse mais atenção ao que é realmente importante. Não adianta vir com explicações, fugindo dos fatos, dizendo que não tem tempo. Lembro-me das palavras que dizem que “Na sociedade moderna muitos trabalhadores se parecem com o Coelho Branco, personagem do livro Alice no pais das maravilhas, de Lewis Carroll: vivem correndo, olhando para o relógio e dizendo: ‘Estou atrasado!’, ‘Estou atrasado!’” (DOUGRAS & LAGO, 2016, p. 87). Não! não! Você é livre para fazer o que quiser com seu tempo. Portanto, aceite o velho conselho do sábio poeta satírico Romano Quinto Horácio Flaco (65 aC. – 8 dC.) que disse em seu Livro I de “Odes”, aconselhando sua amiga Leucone e afirmando: “…Carpe diem, quam minimum crédula postero”, que numa tradução livre diria: “aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. Ame com toda a força da sua alma e se entregue plenamente a este amor, ainda que os outros achem que isto seja uma loucura. Tenha a coragem de fazer como diz a linda letra de Sergio Endrico:
“C’è gente che ama mille cose e si perde per le strade del mondo. Io che amo solo te, io mi fermerò e ti regalerò quel che resta della mia gioventù”.
Que pode ser traduzida assim:
Há gente que ama mil coisas e se perde pelas estradas do mundo. Eu que amo somente você,
eu pararei e lhe doarei o que resta da minha juventude.
Sim, doe-se de forma plena, completa e livre ao amor de sua vida e seu tempo terá, somente assim, sentido. Pois somente quando nosso tempo é dedicado ao tesouro de nosso coração há sentido na vida que nos resta.
Referências Bibliográficas
DOUGRAS, Willian & LAGO, Davi. Formigas. São Paulo: Mundo Cristão, 2016
ENGSTROM, Ted & MACKENZIE, R. Alec. Administração do tempo. Miami: Vida, 1980
MORRIS, Tom. A nova alma do negócio. Rio de Janeiro: Campus, 1998


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