A PATRIMONIALIZAÇÃO DO AFETO
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 19 de jun. de 2017
- 3 min de leitura

Rev. Cônego Jorge Aquino
Cada vez mais se ouve falar de pessoas que entram na justiça procurando uma compensação financeira pelo chamado “abandono afetivo” que sentiram durante um período significativo de sua vida, às vezes por anos. Esse “abandono”, via de regra, ocorre por um dos pais a partir de uma idade bastante precoce, fazendo com que a criança cresça com uma falta significativa de referencial em sua vida emocional. No entanto, ele também pode ocorrer quando os filhos simplesmente abandonam seus pais, por qualquer razão que lhes venha à mente, deixando de suprir uma lacuna fundamental na vida do(a) genitor(a). De fato, embora seja mais comum um dos pais abandonar seu filho à própria sorte, existem muitos casos em que o contrário também é verdade.
Acerca do título desse pequeno artigo, pode parecer estranho utilizar uma frase na qual dois valores aparentemente díspares estejam juntas: afeto e patrimônio. No entanto, em um mundo que acredita que se é possível monetarizar uma relação, existem pessoas que acreditam ser possível trocar o afeto pelo dinheiro. Nesse caminho, pessoas que não conheceram ou não conviveram com um dos seus pais, podem ser levadas a acreditar que é possível substituir esse amor ou atenção que lhes foi ausente, por dinheiro. Afinal, o que se quer com isso? Qual a motivação que subjaz a essa atitude? Diante dessas perguntas, imagino que existam pelo menos duas respostas possíveis.
Em primeiro lugar, acredito que, para um número significativo de pessoas, o que elas querem mesmo é dinheiro. Em sua mentalidade monetarizada, fruto de uma sociedade capitalista que só valoriza o “ter” ao invés do “ser”, todo o desamor que foi construído durante anos de ausência se resume e se encerra a uma questão meramente monetária ou patrimonial. Isso ocorre, maiormente, quando quem está sendo acionado judicialmente é alguém abastado e famoso.
No entanto, seríamos ingênuos se não vislumbrássemos, também uma segunda razão tão sórdida quanto a anterior: a vingança. Sim, para muita gente, a ausência só pode ser paga por meio da vingança. E ela será maior, à proporção em que o tempo passe. Por traz disso subjaz o ressentimento que, certamente, é potencializado pela expectativa de receber dinheiro. Não podemos olvidar o fato de que, boa parte das pessoas que agem motivadas pela vingança foram, durante anos, alimentadas em seu anseio de vingança, pela alienação parental. Não nos esqueçamos que, se alguém deixa de estar presente na vida de outra pessoa, fatores externos podem ter influenciados. Conheço um homem divorciado que, ao se separar de sua esposa, acabou por perder também os filhos que, tiveram todo o seu ódio alimentado pela mãe, que fora traída, e que usou os filhos como instrumento de vingança. Lamentavelmente essa senhora não foi capaz de perceber que, nessa história, todos perderam. Ela, perdeu o marido; ele, perdeu os filhos e eles, perderam um pai.
Para quem realmente valoriza uma relação, o que se quer realmente, é um resgate ou uma busca. Esse resgate pode ser apenas de uma história, de uma explicação, de um “por que”, ou de algo que falta, como uma “peça” no quebra-cabeça. A verdadeira falta não é do dinheiro ou dos bens, mas do carinho e do reconhecimento. A realidade do desamparo é esmagadora em muitas almas que sofrem. Isso é fato. No entanto, lamentavelmente, boa parte – senão a totalidade – desse desamparo não pode ser resolvido por via judicial. Não será uma sentença prolatada pelo juiz que restaurará as vidas, o tempo que se foi, o carinho que faltou, a lacuna e o vazio que, para sempre estarão lá. Essas lacunas existenciais e emocionais jamais poderão ser preenchidas com dinheiro ou bens. Ledo engano, ou talvez, pérfido engano!
Em minha opinião, antes mesmo de judicializar a situação, se existe o real desejo de reaver uma relação perdida ou de restaurar uma história que submergiu e desapareceu, acredito que o mais importante é buscar o que hoje chamamos de “advocacia colaborativa”, ou seja, aquela que invoca a presença de outros profissionais que podem ajudar no resgate ou na restauração de uma relação ou de uma história.
Dentre estes “outros” que poderiam ajudar, podemos destacar tanto os bons amigos, quanto os bons ministros religiosos. Mas não podemos descuidar de, na incapacidade dos conselhos daqueles resolverem o problema, buscar um bom terapeuta para que trabalhe a questão com um olhar científico, objetivo e imparcial. Somente depois de esgotadas todas as possibilidades seria o caso de judicializar o problema, e mesmo assim, preferencialmente, pela razão correta, e não por vingança ou busca de enriquecimento.


Comentários