A EPIDEMIA DE AFFLUENZA
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝

- 10 de out. de 2016
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Rev. Côn. Jorge Aquino
No final da década de 1990, o escritor e psicólogo inglês Oliver James realizou uma pesquisa a qual apontava que um americano médio de 25 anos possuía de três a dez vezes mais possibilidades de sofrer de depressão do que em 1950. Ele também afirmava que, pelos padrões de 1950, uma criança normal vivendo hoje, apresenta níveis patológicos de ansiedade. O que isso significa? Para esse autor, a partir da década de 70 nossa sociedade – principalmente a anglófona – foi exposta a um vírus altamente contagioso que ele chama de affluenza – uma referência à doença febril, viral, aguda geralmente chamada de gripe.
A característica principal desse vírus é valorizar em demasia o dinheiro, os bens, a aparência (física e social) e à fama. Este vírus tem se disseminado assustadoramente em particular pelos meios de comunicação e em razão dos formadores de opinião. A consequência mais comum aos que sofrem dessa enfermidade é a manifestação dos seguintes distúrbios emocionais: depressão, ansiedade, abuso de substâncias e disfunções de personalidade.
Essa enfermidade surge no final da década de 1970 justamente porque esse é o momento em que a sociedade Ocidental em geral e a anglófona, em particular, está rediscutindo seus principais valores diante da guerra do Vietnã, da Revolução cubana, da crise dos mísseis, da morte de Kenedy, da ída do homem à lua, da descoberta da pílula anticoncepcional, da guerra fria, da crise do petróleo, do Concílio do Vaticano II, do movimento hippie, de woodstock, e de tantas outras mudanças que ocorreram no final da década de 60 até o fim dos anos 70.
Ocorre que essas mudanças não levaram em consideração as quatro necessidades básicas do ser humano, quais sejam:
A necessidade de sentir segurança material e emocional;
A necessidade de se sentir parte de uma comunidade (seja ela uma família, igreja, vizinhança, etc.) na qual damos e recebemos;
A necessidade de sentir que somos aptos e competentes para cumprir uma tarefa e que não somos inúteis;
A necessidade de sabermos que somos autônomos, ou seja, de que – na medida do possível – somos donos e senhores de nossa própria história.
O que o vírus faz, enquanto pequenos agentes infecciosos, é embaralhar e misturar aquilo que queremos com aquilo que necessitamos. Em outras palavras, eles nos fazem trocar o Ser pelo Ter. Eis a razão de termos uma sociedade tão voltada para o consumo e o acúmulo.
Para Oliver James, a affluenza é o resultado da existência e desenvolvimento do que ele chama de Capitalismo egoísta, um modelo econômico que se desenvolve no fim da década de 1970. Os principais elementos que caracterizam esse capitalismo são: 1) a importância do êxito (a qualquer custo) nos negócios; 2) um forte impulso de privatização dos serviços públicos; 3) o controle mínimo exercido pelo estado, sobre o mundo empresarial, e 4) a mais absoluta convicção de que as forças do mercado e do consumo podem suprir todas as nossas necessidades.
Para James, existe uma clara relação entre o surgimento do Capitalismo egoísta e o aumento da contaminação viral da affluenza e de seus distúrbios emocionais. Em primeiro lugar, afirma, “numa nação desenvolvida, as taxas de distúrbios emocionais (perturbações como a depressão, a ansiedade e o abuso de substâncias) aumentam na proporção direta do grau de desigualdade de rendimento”. Em outras palavras, o Capitalismo egoísta não é exatamente o melhor modelo de gestão para quem se preocupa com o bem-estar emocional das pessoas. Em segundo lugar, afirma nosso autor, “as taxas são, pelo menos, duas vezes mais altas nas nações anglófonas do que na Europa Ocidental continental”. De fato, para confirmar sua tese – que foi produzida por meio de uma pesquisa em países do mundo inteiro – Oliver James nos diz que, segundo a Organização Mundial de Saúde, “mais de um quarto dos Americanos tinha sofrido de uma ou outra forma de distúrbio nos doze meses anteriores, enquanto apenas um sexto de nigerianos tinha passado por isso. Embora sejam a segunda nação mais rica do mundo, com uma riqueza mais de quarenta vezes superior à da Nigéria, os Estados Unidos da América são, com alguma margem, a nação que mais apresenta distúrbios emocionais”.
É claro que nem todas as mazelas emocionais podem ser atribuídas à affluenza. Existem muitas outras variantes nessa equação. No entanto Oliver James está convencido de que o grau de envolvimento de uma desenvolvida com a affluenza e com o Capitalismo egoísta é fundamental no que tange ao bem-estar dos habitantes em geral. Ele, inclusive, chegou à conclusão de que “é uma imprecisão grosseira descrever a depressão, a ansiedade ou, até, a esquizofrenia e outras psicoses, como doenças físicas do corpo que requerem tratamento médico”. Para ele, a maioria dos distúrbios emocionais poderiam ser melhor entendidos como respostas emocionais a uma sociedade doente. E, na sociedade, a vida deveria ser vivida em sua plenitude, e não apenas, suportada. Se formos capazes de mudar os valores que dominam nossa sociedade, faremos desaparecer esses distúrbios.
Referência bibliográfica
JAMES, Oliver. Affluenza. Porto: Civilização Editora, 2007


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