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A CONTINGÊNCIA DA SUBJETIVIDADE E A IDENTIDADE ANGLICANA

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 9 de ago. de 2016
  • 6 min de leitura

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Rev. Cônego Jorge Aquino 

Antes de tudo é importante registrar, de início que, ao me referir à “contingência da subjetividade”, estou utilizando uma categoria crida por Agnes Heller (1929- ), atual professora da New School for Social Research em Nova York, ocupando a cátedra de Hanna Arendt. Para esta filósofa, discípula de Lukács, quando utilizamos esta expressão, estamos nos referindo a um estado indeterminado de possibilidades do ser ou de uma entidade. Desta forma, enquanto geralmente esta categoria é aplicada aos seres, procurarei aplica-la à Igreja Anglicana.

Importante destacar que quando falamos em contingente estamos falando daquela condição que é oposta ao que é necessário. O contingente é mutável, o necessário, não. O contingente pode ou não estar presente mas o necessário tem que estar. No que diz respeito ao sujeito, por exemplo, sua imagem, conceito ideia ou noção que ele tem de si mesmo, são contingentes e determinadas historicamente. O mesmo pode ser dito de uma instituição como a Igreja Anglicana. Sua identidade subjetiva é igualmente contingente.

É claro que essa crítica a uma estabilidade e imutabilidade das coisas e das essências já está presente nos antigos gregos. Ela pode ser encontrada, por exemplo, entre os sofistas e os céticos. Também podemos perceber uma certa distância sobre essa questão nos textos de Platão e Aristóteles. Mas foi na Idade Média que esse tema tomou uma forma mais aprofundada na chamada “Questão dos Universais”. Afinal, será que existe um mundo onde existam “formas” perfeitas de tudo o que existe e, tudo o que vemos, são apenas “reflexos” dessas formas? Será que existe esse lugar onde os “Universais” servem de padrão e modelo para os “particulares”? William de Ockham (1285-1347) destruiu essa argumentação com sua “navalha”. Desde então o mundo abandonou – pelo menos uma parte dele – as teses realistas (do latim: res, ou seja, coisa) para adotar a posição nominalista, segundo a qual o que temos são apenas nomes.

Conforme assevera Jurandir Freire Costa (In VÁRIOS, 2008, p. 226), quatro grandes pensadores radicalizaram a ideia da contingência: “Marx, afirmando a contingência do mundo; Wittgenstein, afirmando a contingência da linguagem; Nietzsche, afirmando a contingência do conhecimento e, finalmente, Freud, afirmando a contingência do sujeito”. Com estes quatro autores Jurandir Costa pode afirmar que “não existe uma só narrativa, uma só metalinguagem ou uma só história que possamos contar e que se aplique a todos os sujeitos passados, presentes e futuros, em todos os mundos logicamente possíveis” (COSTA In VÁRIOS, 2008, p. 226).

Com base neste pressuposto, podemos afirmar que, no que se refere aos seres humanos, “devemos renunciar ao sonho de encontrar no fundo de cada um de nós uma natureza que está lá”, que nos identifica e que explica porque as coisas são como são e porque somos capazes de enunciar verdades que são válidas para todas as pessoas em todas as realidades e situações diferentes. A mesma renúncia devemos aplicar a quem acredita que é possível encontrar as verdades absolutas e imutáveis na esfera teológica, como se a história da teologia não nos demonstrasse como cada dogma foi sendo formado e se cristalizando.

Além desses cinco autores já citados, quando nos aproximamos do existencialismo aprendemos que, conforme afirmava Sartre, “a existência precede a essência”. Ao escrever A náusea, Sartre afirma que “por definição, a existência não é necessidade. Existir é estar aí, simplesmente; os existentes aparecem, deixam-se encontrar, mas não se pode jamais deduzi-los” (SARTRE, In RUSS, 1994, p. 100). Mais explicito em sua definição de existência é Merleau-Ponty (In RUSS, 1994, p. 101), ao afirmar que “A existência no sentido moderno é o movimento pelo qual o homem está no mundo, se engaja numa situação física e social, que se torna seu ponto de vista sobre o mundo”. Ao aplicarmos esta mesma definição à Igreja, podemos vislumbrar que sua identidade independe da busca de uma essência, mas que ela é, antes de tudo, movimento dentro do mundo e engajado com ele, por meio do qual passa a ter uma visão própria do mesmo mundo onde está. O existencialismo nos impulsiona a buscar primeiro uma existência relevante para só depois se poder dizer algo sobre o que somos ou sobre o que é ser Igreja.

Um outro elemento fundamental nessa reflexão é o pragmatismo. Se aplicamos as teses pragmatistas à comunidade de fé Anglicana, concluiremos que uma comunidade de cristãos Anglicanos seria muito mais cristã se fosse um grupo de pessoas que buscasse não o que é verdade, mas o que seria útil e bom para todos. Portanto, percebemos que a base da verdade está no aspecto empírico e não no ontológico ou metafísico. Ser Anglicanos não é ter uma forma Anglicana, mas um comportamento ou um ethos Anglicano. Creio que até aqui já foi dito o bastante para se dizer que aquele que procura encontrar a essência do Anglicanismo verdadeiro não logrará êxito, uma vez que não existem essências, apenas o que existe.

Um outro importante pensador que catalisaria nossa ideia de Cristianismo e, portanto, de Anglicanismo, é Adolf Von Harnack (1851-1930). Para esse ilustre mestre de História da Igreja, a mensagem de Jesus era extremamente simples. Um resumo dos ensinamentos de Jesus podem ser encontrados em sua Essência do Cristianismo (1923) no qual ele afirma: “Sua mensagem é mais simples do que gostariam as igrejas; bem mais simples, mas por isso mesmo mais severa e universal. Ninguém pode se desculpar dizendo que por não entender a “cristologia” a mensagem não lhe interessa. Jesus dirigia a atenção dos seres humanos a grandes questões; prometia-lhes a graça e a misericórdia de Deus. Exigia que decidissem por Deus ou por mamom, pela vida terrena ou pela vida eterna, pela alma ou pelo corpo, pela humildade ou pela auto-retidão, pelo amor ou pelo egoísmo e pela verdade ou pela mentira. Estas questões são muito amplas. Os indivíduos são chamados a escutar a mensagem alegre de misericórdia e da paternidade de Deus, e a decidir se a mente opta por Deus, o Eterno, ou pelo mundo e pelo tempo. O evangelho, como Jesus o proclamou, relaciona-se somente com o Pai e não com o Filho. Não se trata de paradoxo nem de “racionalização”, mas de simples expressão do fato real transmitido pelos evangelistas” (HARNAK, In BARBOSA, 2014, http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/171014-BEJsoeQthhkgT.pdf). Em cima desse evangelho pregado por Jesus a Igreja acrescentou uma série de doutrinas que formaram um corpo de crenças extremamente grande. Cabe ao cristão, buscar o verdadeiro ensinamento de Jesus, e vivê-lo.

Um último elemento que gostaria de citar e que alimenta minhas convicções sobre a identidade da Igreja Anglicana também acrescenta um elemento que pode ser retirado das teses de Rudolf Bultmann (1884-1976). Este ilustre teólogo alemão afirma em sua Teologia do Novo Testamento que “Conforme mostra a tradição sinótica, a comunidade primitiva retomou a pregação de Jesus e continuou a anunciá-la. E na medida em que o fez, Jesus tornou-se para ela o mestre e profeta. Mas ele é mais: é, ao mesmo tempo, o Messias; e assim ela passa a anunciar – isso é o decisivo – simultaneamente a ele mesmo. Ele, antes o portador da mensagem, foi incluído na mensagem, é seu conteúdo essencial. O anunciador tornou-se o anunciado” (BULTMANN, In MARCELO, http://pe-roberto.blogspot.com.br/2013/10/a-importancia-do-querigma-para-bultmann.html). Em outras palavras, Jesus passou a ser o Querígma da Igreja Primitiva.

Perguntamos então: de tudo o que colocamos acima se depreende que o Anglicanismo não tem identidade? Em absoluto. Nós concluímos, em primeiro lugar, que nossa identidade não é algo na esfera essencial ou metafísica, mas algo que se revela nas relações existenciais; em segundo lugar, concluímos também que nossa identidade não se relaciona com uma “verdade” correspondencial no sentido aristotélico, mas com o bem e o útil, no sentido pragmático; em terceiro lugar, entendemos que durante os tempos, foram acrescentados ao cristianismo primitivo uma série de esferas dogmáticas – semelhantes à uma cebola – que fez com que o centro fosse cada vez menos importante e visível e que o acessório se tornasse mais relevante; entendemos que no centro dessa mensagem se encontra o amor a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Esse amor foi vivenciado na pessoa de Jesus Cristo que viveu a radicalidade de sua fé, abraçando os outros e apontando o caminho da fé, sendo capaz de ir até a morte de cruz. Se os Anglicanos forem capazes de viver essa vida crística, eles encontrarão não apenas a identidade Anglicana, mas a identidade Cristã.

Referências bibliográficas:

BARBOSA, Fabrício V. A relação entre o jesus histórico e o cristo da fé no pensamento de Joseph Ratzinger. Dissertação de Mestrado apresentada na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. 2014, http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/171014-BEJsoeQthhkgT.pdf, acessada em 09 de agosto de 2016.

MARCELO, Roberto. A importância do querígma para Bultmann. http://pe-roberto.blogspot.com.br/2013/10/a-importancia-do-querigma-para-bultmann.html, acessado em 09 de agosto de 2016

RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994

VÁRIOS. Pragmatismos, pragmáticas e produção de subjetividades. Rio de Janeiro: Garamond, 2008

 
 
 

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