7. AMAR É... Não buscar seus próprios interesses
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
- 4 de mar. de 2022
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Padre Jorge Aquino.
Neste momento do texto São Paulo nos ensina algo que bem poderia ser lembrado pelas pessoas de nossa sociedade contemporânea. O segundo elemento do verdadeiro amor, apresentado no verso 5º, nos ensina que ele “não busca seus próprios interesses” (I Coríntios 13: 5). Estamos agora desenvolvendo o sétimo elemento que marca a verdadeira essência do amor e o melhor caminho a ser seguido por nós.
As versões da Bíblia que temos em português trazem traduções muito próximas. A Nova Versão internacional diz: “não procura seus interesses”; a Bíblia de Jerusalém diz: “não procura o seu próprio interesse”; A Bíblia pastoral também segue a mesma toada: “não procura seu próprio interesse”; variando um pouco, a linguagem, a Tradução da CNBB diz “não é interesseiro”; finalmente, a Bíblia na Linguagem de hoje diz simplesmente: “nem egoísta”.
Quando olhamos o Textus Receptus, que revela o texto em grego, sua língua original, ele assim se expressa: “ou zetei ta eautes”. Segundo Taylor (p. 94) “zetei” significa “procuro, busco, exijo; indago, cogito; requeiro”. Este é um verbo que está no presente do indicativo ativo e na 3ª pessoa do singular. O que indica que Paulo está falando de alguém que tem como prática esta procura e esta exigência pelos seus interesses. A palavra “eautes” nos leva para um pronome reflexo da 3ª pessoa e significa “de si mesmo”, “a si mesmo” ou “seu”, nas palavras de Isidro Pereira. A expressão completa aponta para quem “busca aquilo que é seu”, “aquilo que lhe interessa”, sem se importar com os outros. Estamos diante, aqui de uma pessoa que não tem a menor preocupação com o que ocorre com as outras pessoas ou com o que elas pensam. E nós não podemos ser ingênuos e achar que nossa sociedade não revela essas características de individualismo e egoísmo. Quantos casamentos se acabam porque no processo se descobre que aquela pessoa que você julgava que se importava, na verdade não estava nem um pouco interessada em você ou no seu bem-estar.
Com esta palavra Paulo esta querendo dizer que quem ama não se comporta como um egoísta interesseiro, colocando seus interesses e prioridades acima dos interesses do seu cônjuge. De fato, diz Leon Morris, “o amor é a própria antítese do egoísmo” (MORRIS, 1983, p. 148). Somente parceiros egoístas buscam seus próprios interesses e desconsideram – ou dão a mínima -, para os interesses de seu cônjuge. Citando as palavras do Comentário de Broadman, “o amor insiste no bem-estar dos outros, e não na afirmação de interesses próprios (cf. 10: 24; Fil 2: 4). O amor que insiste em seus próprios interesses não é amor. Isto é falta de amor – na verdade, é egoísmo”(BROWN, 1984, p. 430). Russel Champlin, comentando este versículo nos diz que: “algumas traduções preferem dizer aqui: ‘o amor não insiste sobre seus próprios direitos’. Os crentes de Corinto, devido à sua arrogância, insistiam em fazer valer os seus direitos; as facções formadas em torno dos nomes de Apolo, Paulo e Cefas; e todas essas facções tinham seus próprios interesses especiais, que desejavam promover acima do bem da comunidade inteira”.
Nós vivemos em uma cultura em que, desde criança, aprendemos a priorizar tudo o que é nosso, desde nossa aparência, nossos bens, nossos sentimentos e nossos desejos. Nesta sociedade, vivemos para maximizar nossa felicidade custe o que custar, ainda que isto implique na infelicidade do outro. Em outras palavras, vivemos em uma sociedade na qual, desde criança, somos ensinados a não amar.
Dentro do casamento não é preciso ser muito inteligente para imaginar os perigos ou as consequências deste pensamento. Quando só buscamos nossos próprios interesses, transformamos o outro em instrumento de nossa própria felicidade, ou seja, instrumentalizamos nosso companheiro. Agimos de forma utilitária. Como consequência desta verdade, quando só buscamos nossos próprios interesses, o outro é despersonificado, ou seja, tratado não como pessoas, com vontade própria, com liberdade ou como um ser, mas apenas como instrumento a ser usado por mim e para minha satisfação.
Emanuel Kant nos lembra que jamais devemos tratar os outros como “meio” e sim como “fim”. Esta afirmação faz parte de seu imperativo categórico. O outro precisa ser visto como alguém, como um ser, como uma pessoa, e não como um mero instrumento a ser utilizado por alguém como um meio para se ter algo. Uma das formas de demonstrar isso é que muita gente espera muito pouco de si mesmo, ao mesmo tempo em que estabelece padrões extremamente elevados para seus companheiros. São extremamente exigentes com seu marido ou mulher, ao passo que não impõe sobre si o mesmo nível de exigência.
É surpreendente a quantidade de cônjuges que reclamam de seus companheiros como resultado do elevado grau de exigência que lhes impõe, ao passo em que eles mesmos são incapazes de cumprir as mesmas exigências. Existe muitos casamentos adoecidos por causa desse problema que precisa ser enfrentado com o verdadeiro amor, que nos leva ao melhor de todos os caminhos.

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