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3. O QUE É O AMOR? O AMOR NÃO É INVEJOSO

  • Foto do escritor: Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
    Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
  • 25 de fev. de 2022
  • 4 min de leitura

Reverendo Padre Jorge Aquino.

Este é o terceiro elemento que encontramos no texto de São Paulo para falar sobre as características do amor. Primeiramente vimos que o amor ágape é sofredor, e em segundo lugar, que ele é “benigno”, ou em grego, “kresteyetai”. No texto que estamos trabalhando, I Cotíntios 13: 4, encontramos, agora, uma terceira característica do amor: “o amor não é invejoso”, ou, citando o Textus Receptus transliterando o texto para o português: “ê agapê u zêloi”.

Quando nos voltamos para os dicionários buscando o significado da palavra “zêlos” enconramos em Isidro Pereira a tradução “ebulição, zelo, ardor, rivalidade, emulação, inveja, etc.”. W.C. Taylor, por seu turno, traduz por “zelo, entusiasmo, lealdade intensa, ciúme, inveja, rivalidade e ardor”. Quando nos voltamos para o dicionário de Mc Kibben-Stockwell-Rivas, lá esta palavra é traduzida por “zelo” e por “envidia” que significa “ciúme”. É bastante interessante registrar que, curiosamente, a raiz da palavra “zeloi” é a palavra “zeô”, que significa “ferver”. As pessoas que sentem ciúmes realmente “fervem” ou “queimam” em seu ciúme.

As traduções das Bíblias que temos confirma esta tradução. A Versão Almeida Atualizada diz: “o amor não arde em ciúmes”; a versão Almeida Corrigida diz: “o amor não é invejoso”; a Nova Versão Internacional diz simplesmente: “não inveja”; a Bíblia na Linguagem de Hoje traduz “o amor não é ciumento”; a versão da CNBB diz: “não é invejoso”; a Bíblia de Jerusalém traduz: “não é invejosa”; a Versão Pastoral diz: “não é invejoso” e a Bíblia Tradução Ecumênica, por fim, traduz simplesmente dizendo: “não é ciumento”.

Os comentadores deste texto em geral reconhecem que a palavra “zêloi” não possui uma conotação negativa. O Evangelho de João, descrevendo a entrada de Jesus no Templo cita o Antigo testamento que diz: “o zelo pela tua casa me devora” (João 2: 17).Neste texto vemos o cuidado, o denodo e a atenção que Jesus tem para com a verdadeira adoração à Deus.

Comentando esta carta aos Coríntios, Leon Morris diz: “‘inveja’ é um verbo ocasionalmente empregado num bom sentido (...); mas geralmente, porém, denota forte paixão de inveja ou coisa parecida. É o sentido que tem aqui, e nos faz lembrar que o amor não se aborrece com o sucesso dos outros” (MORRIS, 1983, p. 148). No comentário de Broadman, Roymond Brown é muito feliz quando diz que “há sempre uma linha muito clara entre o desejo do bem-estar dos outros e o desejo do bem-estar próprio” (sic) (BROWN, 1984, p. 430).

Quando nos voltamos para a vida conjugal é importante registrar que quando um casal se ama ele não “ferve com inveja” um do outro. Num relacionamento saudável não há espaço para competição e sim para a cooperação. Lembro, neste momento, de um texto de Rubens Alves no qual ele diz existir dois tipos de casamentos, os que se parecem com o tênis e os que se parecem com o frescobol. Diz ele: “Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa (...). O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário - e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. (...) O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...”.

Bons casamentos são aqueles nos quais os cônjuges se apoiam, se ajudam, se amparam, se acolhem e servem de apoio um para o outro. Em casais que se amam o crescimento intelectual, acadêmico ou profissional do outro não é visto como uma razão para se sentir diminuído ou enfraquecido. Muito ao revés, é uma oportunidade de crescimento em comum. Quando se ama não há espaço para se “ferver” com o sucesso de seu cônjuge.

Casar não é “dar um golpe”, é compartilhar e dividir a vida com alguém que passa a ser nosso companheiro, ou seja, com alguém que come o mesmo pão conosco. Por isso, na Liturgia Anglicana se lê que a vontade de Deus é que a união entre homem e mulher sirva para a “edificação mútua” e não para a exploração mútua. O casamento é o espaço do crescimento comum e não o da inveja ardente. Falar em “edificação mútua” tanto pode significar que o crescimento dos dois deve ser estimulado em todas as áreas, quanto pode significar que a relação deve ser vista como uma edificação (construção) na qual os cônjuges são mutuários e co-responsáveis nesta edificação ou construção.



 
 
 

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