4. O QUE É O AMOR? O AMOR NÃO LEVIANO
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
- 26 de fev. de 2022
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Atualizado: 1 de mar. de 2022
Rev. Padre Jorge Aquino.
Neste texto trataremos do quarto elemento que marca o amor ágape. Seguindo a sequência apresentada em I Coríntios 13: 4, aprendemos agora que “o amor não trata com leviandade”, ou, conforme escrito no Novo Testamento grego de acordo com o Textus Receptus, transliterado para o português, “ê ágapê u perpereyetai”.
Quando fazemos uma busca nos dicionários por esta palavra descobrimos que “perpereyetai” vem da raiz “perperos” que, segundo postula Isidro Pereira, se traduz por “frívolo”, “ser leviano” e “indiscreto”. O dicionário de W.C. Taylor, por seu turno, traduz por “jactar-se”. E, finalmente, o dicionário de Mc Kibben-Stockwell-Rivas traduz por “vangloriar-se”.
As versões da Bíblia que temos em português trazem traduções muito próximas. A Versão Almeida Atualizada diz: “o amor não se ufana”; a versão Almeida Corrigida diz: “o amor não se trata com leviandade”; a Nova Versão iternacional diz: “não se vangloria”; a Bíblia na Linguagem de Hoje traduz “nem é orgulhoso”; a versão da CNBB diz: “não é presunçoso”; a Bíblia de Jerusalém e a Versão Pastoral traduzem: “não se ostenta” e a Bíblia Tradução Ecumênica, finalmente, traduz “não se pavoneia”.
É interessante perceber que, segundo comenta Leon Morris, quando Paulo usa a expressão “não se ufana (ele) emprega uma palavra pitoresca, sendo que a sua raiz indica o que G-E [A greek-english léxicon of the new testament and other early christian literature] define como ‘cheio de vento’, ‘enfatuado’” (MORRIS, 1983, p. 148). Este aspecto será destacado mais adiante.
O fato do verbo estar no presente médio indica uma ação contínua que se volta para si mesmo, ou seja, este é um ato ou ação de alguém que atua ou age sobre si mesmo. Essa pessoa “se acha” e “se vangloria”. Quando verificamos a Chave linguística do novo testamento grego de Rienecker e Rogers, vemos que a palavra se refere a “alguém que fala muito e age presunçosamente” (1985, p. 319).
No comentário de Broadman, Roymond Brown nos lembra que “o verbo traduzido como vangloria (negrito dele) encontra-se apenas aqui em todo o Novo Testamento. A pessoa se vangloria quando não tem senso de proporção, o que se torna evidente em procedimentos e em conversas sem nexo, da frivolidade até a insolência” (BROWN, 1984, p. 430). Ou seja, essa pessoa não tem noção nem do que é insignificante nem do que pode gerar a arrogância. Daí a ideia de “pavonice”, ou seja, de um comportamento semelhante a de um pavão, querendo se mostrar aos outros.
Em um casal não há espaço para a manifestação enfatuada ou ensoberbecida da recitação de todas as eventuais características, virtudes e realizações de um dos cônjuges. É verdade que cada membro do casal tem seus valores e características, mas quem ama “não se ostenta” ou “não se pavoneia”. Não precisamos andar com um catálogo de nossas virtudes para “convencer” nosso companheiro de nosso valor ou de nossas qualidades. O pior é que, não raras vezes, isso é feito para diminuir o outro. Tudo isso não passa de vento, ou seja, daquilo que passa com rapidez e sem ser notado. É bom lembrar que o livro de Eclesiastes chama estas características tão valorizadas em nossa sociedade de “vaidade”, ou seja, daquilo que é passageiro, provisório e efêmero.
Certamente seu cônjuge tem muitas características boas, tanto quanto você também. Mas lembre-se, tudo isso é passageiro e o verdadeiro amor sabe distinguir o que é essencial daquilo que é apenas acessório e provisório. Quando amamos de verdade, não nos comportamos com pavonice, ou seja, não precisamos ser presunçoso ou ostentar nossas qualidades e virtudes para provar o que somos e temos. Fazer isso é, como diz a versão Almeida Corrigida, “tratar com leviandade”. Ser leviano é tentar enganar nosso cônjuge simulando características ou qualidades que podemos ter ou não, mas que não são relevantes quando realmente se ama. Como originalmente a palavra está na voz média, compreendemos que essa é uma ação que fazemos para conosco mesmo, com a finalidade de convencer ou persuadir nosso cônjuge.
Em nossa sociedade as pessoas fazem de tudo para esconder suas rugas, estrias, celulites, etc. O Brasil é um dos países que mais fazem cirurgias plásticas, aplicações de toxina botulínica e implantes, de todos os tipos. Quando saem com alguém, acredite, muitos homens estão saindo com uma espécie de “robocop” e não se dão conta disso. O conjunto todo de silicone e próteses é tão grande que, se retirado, restaria pouca coisa.
O verdadeiro amor não vai agir “falseando” a realidade para atingir seu alvo. O amor é sempre verdadeiro e transparente não abrindo, jamais, espaço para a falsidade. Esta característica começa quando começamos a namorar. Este é o momento em que o leviano apresenta uma realidade falsa. Esta pessoa se revela como a pessoa perfeita, a mais desejável, àquela que não pode ser deixada de lado. Quem ama não age assim. Ela se mostra, se revela, ela não tem nada a esconder, ou melhor, ela tende até a se mostrar mais e melhor para que a pessoa com quem pretende se relacionar a conheça tanto em suas virtudes quanto em seus defeitos.
Lembro que quando conheci minha esposa, em uma festa de São Pedro, eu a convidei para dançar – por puro atrevimento, já que não sei dançar nada, e que ficamos no centro do salão trocando algumas palavras por uns três minutos. Lembro que logo em seguida a convidei para sair da pista de dança e irmos conversar do lado de fora. Assim que conseguimos um lugar mais isolado para conversar, lembro de ter usado uns trinta minutos para falar de todos os meus problemas e defeitos. Ela fez o mesmo. Ao invés de procurar apresentar nossas virtudes mútuas e demonstrar que éramos os melhores representantes da espécime humana, presente no lugar, nós nos abrimos e falamos de nossos problemas e dificuldades e, em muito pouco tempo nos convencemos que éramos feitos um para o outro.
Acredite, o verdadeiro amor não procura esconder os defeitos nem exaltar as virtudes. Quem ama, simplesmente ama. E se mostra e se revela como é de verdade. Sem máscaras, sem pavonice, sem plástica ou próteses. Devemos amar as pessoas como elas são, não como elas se mostram para nós.

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