1. O QUE É O AMOR? O AMOR É PACIENTE
- Reverendo Padre Jorge Aquino ✝
- 22 de fev. de 2022
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Reverendo Padre Jorge Aquino.
Quando eu era criança via minhas colegas de escola colecionar um álbum chamado “Amar é”. Ele era composto de uma série de figurinhas que continham sempre o desenho de um casal de crianças com uma frase romântica falando sobre o amor. O mais interessante foi saber, depois de algum tempo de convivência, que minha esposa também colecionava. Adorei saber disso!
Minha pretensão com esta série de textos é examinar cada uma das marcas daquilo que Paulo chamou de “caminho sobremodo excelente” (I Coríntios 12:31). Depois de falar sobre os dons do Espírito Santo, Paulo procura apresentar o “amor” ágapê, como uma resposta muito melhor do que a dos “dons”, para a saúde da comunidade cristã em Corinto e para os relacionamentos interpessoais em geral, e, particularmente, para a saúde das pessoas, em particular.
Ocorre que ao apresentar estes elementos o Apóstolo nos dá, também, uma excelente pista sobre o alvo que todo casal deve almejar em sua relação. Vejamos, nas Escrituras, quais são os elementos deste amor: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (I Coríntios 13:4-7).
O texto no grego original retirado do Textus Receptus[1]e que apresenta o primeiro elemento do amor é como se segue: “ê agapê makrothymei” (I Co 13: 4). Há muitas traduções possíveis para a palavra “makrothymei”. A Bíblia de Jerusalém, a Tradução internacional, a Bíblia na linguagem de hoje, a Bíblia Pastoral, e a Almeida Atualizada a traduzem como “paciente”; a Almeida Corrigida traduz como “sofredor”. A Bíblia Tradução Ecumênica traduz como “paciência”. O que podemos dizer a esta altura é que estas características estão apontando não para a descrição de algo metafísico e etéreo, mas com verbos que apontam para ações concretas e reais realizadas por pessoas igualmente concretas e reais.
Qundo nos detemos no estudo da palavra “makrothymei” nos vemos diante da tradução “paciência” apresentada por Isidro Pereira, em seu Dicionário Grego-português e Português-grego (PEREIRA, 1984, p.). Com ele também concorda W.C. Taylor (1983), em seu Dicionário do novo testamento grego e Mc Kibben – Stockwell – Rivas (1978), que em seu Nuevo lexico griego español del nuevo testamento grego, mas aqui eles incluem, além de paciência, também a idéia de tolerância.
Segundo Rienecker e Rogers na sua Chave linguística do novo testamento grego (1985, p. 319), o fato de “makrothymei” estar no presente do indicativo ativo “descreve a ação da pessoa em segurar seus sentimentos durante muito tempo, até que passe à ação ou paixão”. É como se falássemos do espírito constante que nunca desiste. Leon Morris (1983, p. 148), por seu turno nos diz, comentando este texto que o amor tem uma infinita capacidade para suportar. “Não perde o domínio depressa, mas suporta pacientemente”, mas é importante registrar que ele, faz a importante ressalva de que esta palavra trata de paciência com pessoas, não com circunstâncias.
Esta mesma palavra é usada em outro lugar do Novo Testamento pelo servo que, não tendo como pagar toda sua dívida para com seu senhor, em Mateus 18:26, diz: “tem paciência comigo e eu te pagarei tudo”. Lamentavelmente, no verso 29 do mesmo capítulo, este mesmo servo não teve paciência com seu companheiro, que estava em situação similar lhe devendo dinheiro. Agora, diz as Escrituras que o servo que obteve a paciência de seu senhor, não foi paciente com seu igual, jogando-o na prisão por sua dívida.
Diz-nos São Paulo que a ninguém devemos dever coisa alguma, exceto o amor. Como cônjuges, se queremos ser tratados com paciência devemos também começar a praticar a paciência para com nosso parceiro. Esta é uma via de mão dupla. Mas há algo que nunca devemos esquecer: este texto da Bíblia aponta um caminho a ser seguido, ou seja, um alvo e não uma realidade completa e acabada que pode ser apreendida e apresentada plenamente. Ela é uma placa apotando um caminho, não um “x” no chão dizendo que já adquirimos esta capacidade. Por isso a palavra em grego escolhida pelo Apóstolo é importante. Ele fala em makrothymei, ou seja, em ter uma grande (makro) coração ou alma (thymos) para com seu cômjuge. Quem ama tem que ter uma alma e um coração grande e dilatado, pois já dizia o poeta Fernando Pessoa “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
[1] O Chamado Textus Receptus (ou Texto Recebido) representa a compilação feita por Erasmo de Roterdã de papiros, pergaminhos, ostracas dos primeiros séculos da era cristã que circulavam em torno da Ásia Menor e os fundiu editando o primeiro Novo Testamento Grego que serviria de base para a maioria das traduções do Novo Testamento nos quatro séculos seguintes. Recentemente, particularmente depois do trabalho de dois estudiosos, Westcott e Hart (um anglicano e outro romano), muitos estudiosos defendem que o chamado Texto Ocidental seria aquele mais próximo dos autógrafos. O texto Ocidental com algumas variantes é publicado por Kurt-Allan e pela United Bible Society. Embora dispondo dos dois textos, preferimos optar por trabalhar com o mais conservador dos dois.

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